sexta-feira, 22 de março de 2013

Hitler após a derrota em Stalingrado






Hitler após a derrota em Stalingrado


1943


Fonte: FEST, Joachim. Hitler. 3ª ed. Nova Fronteira, 1976.


“Depois de Stalingrado, Hitler perdeu claramente o controle dos nervos. Até ali, não renunciara senão raramente à atitude estóica, inseparável, segundo acreditava, do modo de ser de um grande capitão; nas situações mais críticas, sempre ostentara uma calma olímpica. Mas, em compensação, a partir de Stalingrado, terminou por se cansar dessa disciplina que se impunha a si mesmo, e violentos acessos de cólera revelaram o preço que lhe custara a terrível sobretensão de suas forças em todos esses anos. Durante as reuniões, tratava seus oficiais de Estado-Maior de ‘idiotas’, de ‘covardes’, de ‘mentirosos’ – e Guderian, que o reviu pela primeira vez em uma dessas semanas, notou, com estupefação, a irascibilidade de Hitler e quão pouco se podia confiar em suas decisões. [...] É preciso, todavia, reconhecer em sua defesa que, desde o fim de 1942, ele sofria de uma profunda alteração do sistema nervoso, dissimulada apenas à custa de um esforço sobre-humano de vontade e autodisciplina; os oficiais superiores do grande quartel do Führer se ressentiram dos sintomas da crise – embora as narrativas posteriores, que mostram um Hitler vituperando sem cessar, vítima das tempestades de temperamento irascível, pertençam ao domínio dos exageros apologéticos. [...]

[...] Em agosto de 1941, Hitler se queixava de fraqueza, de náuseas e de calafrios, seus tornozelos incharam sob o efeito de um edema, e não está excluída a possibilidade de que se tenha verificado, nessa época, a ab-reação de um corpo havia muito tempo mantido em forma de maneira artificial; em todo caso, desde esse instante, as crises de esgotamento se multiplicaram. A partir de Stalingrado, todo dia ele tomava um antidepressivo, não suportava mais lâmpadas fortes e mandou fazer uma espécie de viseira para usar em suas saídas ao ar livre; de tempos em tempos, dizia sentir perturbações do equilíbrio: ‘Tenho sempre a sensação de cair para a direita.’

[...]

“Era um homem que tinha contínua necessidade de ser ‘recarregado’ artificialmente: em certo sentido, as drogas de [doutor] Morell substituíam, para ele, o antigo estímulo das ovações de massa. Desde Stalingrado, Hitler fugia cada vez mais à vida pública e, depois dessa derrota, só pronunciou dois discursos. Já um pouco depois do início da guerra, suas aparições em público tinham-se tornado mais raras e nem todos os esforços da propaganda oficial para explorar essa espécie de fuga num sentido ‘mitificador’ conseguiam substituir o sentimento, outrora tão generalizado, de sua onipresença, com cuja ajuda o regime liberara e canalizara para ele a descarga total das energias, da espontaneidade e do espírito de sacrifício. De repente, essa imagem se tornava caduca. Da mesma forma que, cioso de sua auréola de homem invencível, jamais visitava as cidades destruídas, assim, após as derrotas decisivas da guerra, ele deixou de se mostrar às massas. [...]

“Os pontos fracos do comando de Hitler apareceram sobretudo no decorrer de 1943, quando ele ainda não fazia uma ideia estratégica bem exata do futuro desenrolar do conflito. Segundo testemunhos unânimes de seu entourage, tornara-se inseguro, pouco inclinado a tomar decisões, irresoluto – Goebbels chegou a falar abertamente de uma ‘crise do Führer’. Vezes seguidas, Goebbels incitou um Hitler hesitante a retomar a iniciativa, numa guerra que se desagregava sem concepção bem definida, com uma mobilização rigorosa de todas as reservas do país. [...]

“A aversão de Hitler em exigir do público as privações suplementares inerentes a uma guerra total era determinada sobretudo por uma reminiscência do choque que experimentara por ocasião da revolução de novembro de 1918, mas em parte também desconfiança, já arraigada, que lhe inspiravam as massas inertes por essência, não confiáveis. Também se poderia quase pensar que esse gênero de reação traduzia o sentimento da fragilidade e da precariedade de sua autoridade. [...]

“[...] A tendência de Hitler para não aceitar a realidade assumia, a partir de seus reveses, um aspecto cada vez mais patológico; e disso dão prova inúmeros exemplos colhidos em seu comportamento. Por exemplo, o hábito de percorrer o país dentro de seu vagão-leito, com as cortinas descidas e de preferência à noite, como se estivesse fugindo; [...] É preciso incluir nesse contexto o estilo das conversações de Hitler, sempre degenerando em monólogos intermináveis, sua incapacidade de ouvir ou aceitar objeções, bem como sua mania sempre crescente pelas colunas de algarismos que não terminavam mais, sua rage du nombre. [...]

“É certo que este desprezo pela realidade fora sua força outrora; fizera-o surgir do nada, produzira seus triunfos de estadista e, sem dúvida, também, uma parte de seus êxitos militares. Mas agora, quando a página tinha sido virada, esse desconhecimento dos fatos vinha agravar desastrosamente os efeitos de cada derrota. [...]”



Hitler e o Holocausto


“Ainda hoje paira uma certa obscuridade sobre o momento em que Hitler tomou a resolução de liquidar definitivamente o problema judaico, pois não existe qualquer documento sobre o assunto. Mas é notório que, bem antes de seus partidários mais próximos, ele não tinha considerado apenas como metáforas as expressões ‘eliminação’ ou ‘aniquilação’, mas sempre as ligara à noção de um ato de exterminação física, pois, para ele, uma ideia nada tinha de espantoso: ‘Aqui também’ – escrevia Goebbels, não sem uma ponta de admiração – ‘o Führer é o eterno pioneiro e o porta-voz das soluções radicais.’ Desde os anos 30, Hitler tinha solicitado, secretamente, que se desenvolvesse ‘uma técnica de despovoamento’ e acrescentar explicitamente que isso significava para ele a eliminação de povos inteiros: ‘A natureza é cruel, por que não o seríamos também? Eu envio a flor dos alemães para a tempestade de aço que será a guerra, sem experimentar qualquer remorso pelo precioso sangue que vai ser derramado; por que então não teria eu o direito de exterminar milhões de seres pertencentes a uma raça inferior e que se reproduzem como vermes?’

Empregaram-se pela primeira vez, em 1941, num velho castelo perdido na floresta para os lados de Kulmhof, gases tóxicos para matar as vítimas – e pode-se fazer remontar esse processo às próprias experiências de Hitler durante a I Grande Guerra. Uma passagem do Mein Kampf [Minha Luta] deplora, em todo caso, que ‘não se tenha exposto ao gás de doze a quinze mil desses hebraicos corruptores do povo’, como se fez com centenas de milhares de soldados alemães no front. Todavia, a decisão dessa liquidação definitiva, cada vez que se tomava, nunca tinha nada a ver com o agravamento da situação. Seria equivocar-se grosseiramente sobre as intenções de Hitler interpretar os massacres do Leste como a expressão de um crescente amargor provocado pelo desenrolar da guerra ou como um ato de vingança contra o velho inimigo simbólico: eles devem ser situados, antes de mais nada, na lógica do pensamento de Hitler, e por isso era inelutáveis. Por outro lado, o plano temporariamente estabelecido no Alto Comissariado SS da Raça e da Colonização, bem como no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e que consistia em fazer da grande ilha de Madagascar uma espécie de imenso gueto com cerca de quinze milhões de judeus, parecia ir contra os projetos de Hitler nesse ponto essencial. Pois se o judaísmo era verdadeiramente o nefasto portador de germes da grande doença universal, um espírito apocalíptico não podia nem pensar em dar-lhe um lugar de refúgio, mas unicamente em exterminá-lo em sua substância biológica.”
[...]

“No início, procurou-se dissimular o que se passava. Os trens intermináveis que deportavam as populações judaicas sistematicamente recolhidas e amontoadas em todas as partes da Europa rodavam para destino ignorado; boatos enganosamente espalhados falavam de belas cidades novas, construídas nos territórios conquistados no Leste. [...]

Fest comenta que Hitler mantinha silêncio sobre as ações radicais da ‘Solução Final da Questão Judaica’, por qual motivo? “Pode-se fazer toda espécie de suposições sobre os motivos a que obedecia: sua mania de segredo, um antigo resquício de moral burguesa, o desejo de atribuir ao acontecimento um caráter abstrato e de não debilitar a motivação passional através do exame – mesmo assim, é estranha essa imagem de um salvador que esconde sua ação salvadora no mais profundo do seu coração. [...] ”

“ [...] Em meio a uma cadeia altamente organizada de verdadeiras fábricas de assassinatos em série, esse trabalho de extermínio foi, apesar de tudo, pouco a pouco subtraído aos olhos da população, racionalizado e transformado, através do emprego de gases tóxicos. A 17 de março de 1942, o campo de Belzek tinha organizado essa forma de atividade com ‘uma capacidade diária de matar’ 15 mil pessoas; em abril, Sobidor, não longe da fronteira da Ucrânia, seguia o exemplo, com 20 mil pessoas por dia; depois, Treblinka e Madjanek, com cerca de 25 mil, assim como, e principalmente, Auschwitz, que se tornou ‘a maior empresa de exterminação humana de todos os tempos’, conforme disso se vangloriava, aberrantemente, seu comandante, Rudolf Höss, muito orgulhoso dos métodos empregados : o conjunto do processos de assassinato em série, desde a seleção dos que chegavam e sua asfixia, até a eliminação dos cadáveres, incluindo o aproveitamento do que deixavam, tornara-se aqui um sistema, funcionando sem falha, através de operações sucessivas, perfeitamente engrenadas. A toda pressa, em movimento cada vez mais acelerado, continuou-se a proceder a essa exterminação ‘a fim de que não fosse, um belo dia, suspensa ainda no meio’, como explicou o SS chefe de polícia de Lublin, Odilo Globocnik. Numerosas testemunhas descreveram a resignação com que a vítimas marchavam para a morte: em Kulmhof, mais de cento e cinquenta e dois mil judeus; em Belzek, seiscentos mil; em Sobidor, duzentos e cinquenta mil; em Treblinka, setecentos mil; em Madjanek, duzentos mil; em Auschwitz, mais de um milhão. Além disso, os fuzilamentos continuavam. Segundo estimativa (por alto) do comissariado principal para a segurança do Reich, o massacre devia se estender a perto de onze milhões de judeus; mais de cinco milhões foram executados.”


Fonte: FEST, Joachim. Hitler. 3ª ed. Nova Fronteira, 1976. pp. 799-814



Mais info


Stalingrado: início da derrota nazista



Hitler e o Holocausto



A versão dos revisionistas



by LdeM



Nenhum comentário:

Postar um comentário