quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Discursos de dezembro 1943 - Thomas Mann






Ouvintes alemães


Discursos contra Hilter


Thomas Mann na BBC


[discursos de dezembro 1943]




9 de dezembro de 1943


Ouvintes alemães!


Não é preciso esclarecer a vocês que o histórico encontro de Teerã * não resultou no apelo ao exército do povo alemão, ao próprio povo alemão, anunciado pela propaganda nazista e tão falado quanto inútil. A intimação para a deposição das armas não teria sentido em um momento em que os soldados alemães lutam longe das fronteiras do Reich e em que sonora promessa de que armas novas e secretas transformariam a derrota em vitória anestesia a mente dos alemães. Na verdade, é certo que essas armas, se existirem, no máximo retardarão o resultado final da guerra, e, por causa dos danos que possivelmente possam causar, apenas aumentam o ressentimento contra a Alemanha e pioram sua situação. Mas tudo isso pertence ao destino e só podemos aguardar.


O fato de os estadistas da Rússia, da Inglaterra e dos Estados Unidos não terem enviado uma mensagem direta a vocês, alemães, significa que não se deseja uma capitulação antecipada que deixaria mais ou menos intacta a máquina de guerra alemã, uma capitulação com segundas intenções que servem a propósitos enganadores e que só poderia ser utilizada para a obtenção de um intervalo para descanso de algumas décadas: significa que o desejo é dar um fim claro, sólido e definitivo em termos militares à guerra. É preciso acabar para sempre com a mentira da punhalada pelas costas **, com o autoengano nacionalista do tipo ' não fomos vencidos no campo de batalha”. A única experiência que pode trazer a Alemanha à razão, a experiência de uma derrota catastrófica, inegável e concreta, a ocupação e a tutela provisória do país, enfim, todas as providências que são necessárias para tornar impossível para sempre qualquer nova agressividade – essa experiência não deve e não será poupada a vocês.


[…]


Deixem a derrota militar se realizar, esperem chegar a hora que permita a vocês ajustar as contas com seus depravadores, de maneira tão radical e tão implacável quanto é necessário para o futuro da Alemanha. Então terá chegado também para nós o momento de atestar: a Alemanha está livre, a Alemanha se purificou de verdade, a Alemanha deve viver.


pp. 157-160


(*)Realizado em novembro de 1943, reuniu os três chefes de Estado aliados – Roosevelt, Churchill e Stálin – para definir as ações da última fase da Segunda Guerra Mundial após a derrota alemã em Stalingrado. (NT)






(**)Mann alude à chamada Dolchstoßlegende ('lenda da punhalada pelas costas') , a tese de que a Alemanha não perdeu a Primeira Guerra Mundial por razões de ordem militar e econômica, mas por derrotismo e traições nas próprias fileiras. (NT)










31 de dezembro de 1943




Ouvintes alemães!


Nosso país não consegue se livrar de uma imitação falsa, totalmente equivocada e infeliz da Inglaterra. A alcunha com a qual o mundo hoje chama você, alemães, 'raça de senhores', um nome que só pode ser ridículo, uma zombaria, chegou a ser levado muito a sério por vocês. Vocês viram nos ingleses uma raça de senhores e era isso que também queriam ser; vocês viveram sob a pressão invejosa de copiar a Inglaterra, de assumir para si o papel que atribuíam a eles; o sonho de vocês era suplantar a Inglaterra, colocar-se em seu lugar; não apenas um povo de senhores – vocês queriam ser o povo de senhores e arrebatar da Inglaterra o domínio dos mares, do qual depende sua existência, enquanto a de vocês nada deve a esse domínio. Esta foi a origem da Primeira Guerra Mundial.


Sua origem foi uma tolice invejosa; já a origem da Segunda Guerra, que a Alemanha também está perdendo, é apenas uma caricatura dessa tolice – assim como o nazismo é uma caricatura terrível de todas as fraquezas e loucuras da essência alemã, a ponto de corrermos o perigo de esquecer suas virtudes. Na cabeça dos nazistas, a ideia de um 'povo de senhores' levou à perda de qualquer resto de dignidade e atenção aos direitos humanos, de qualquer consciência de responsabilidade e de toda sensibilidade sã em relação àquilo que o mundo pode admitir ou não. Tornou-se apenas a justificativa para o roubo e o assassinato, para o saque, a opressão, a castração e a violação dos outros povos – para um empreendimento que estava destinado a sucumbir diante das forças unidas do mundo.




[…]


Acontece com a Alemanha exatamente o contrário do que aconteceu antes com a Inglaterra, e por isso a imitação é tão absurda. Será que a Alemanha em apuros espera o auxílio do mundo? Não, ela só pode esperar a queda progressiva dos mercenários que acreditavam na sua sorte de ladrões. A Alemanha não pode se recuperar como fez a Inglaterra, cujo caminho a levou das derrotas iniciais às vitórias. O caminho da Alemanha vai das vitórias deslumbrantes do começo, graças à vantagem de seu armamento, à queda inevitável. A stubborness [teimosia] da Alemanha, seu dito heroísmo e resistência, são desesperadores e infames, uma cópia totalmente falsa da coragem inglesa. Ela é não apenas um crime contra um mundo que não pode e não deve desistir da luta mais sacrificada até destruir o regime nazista; é também um crime contra a própria Alemanha, contra o povo alemão e suas obras culturais, contra as cidades alemãs que afundam em ruínas, contra sua força vital que pertence à humanidade e ao futuro e que não deve mais sangrar sem sentido e sem razão.


Onde estão aqueles dentre vocês, alemães, que entendem que a honra e a coragem alemãs não estão agora na 'resistência', mas sim na submissão aos desejos da humanidade?


pp. 160-163




Fonte: MANN, Thomas. Ouvintes alemães!: discursos contra Hitler (1940-1945). (Deutsche Hörer!) Trad. Antonio Carlos dos Santos e Renato Zwick. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.




sobre o autor alemão Thomas Mann










quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Libertação da Ucrânia e da Crimeia - 1943 / 1944









Frente Oriental


1943 -1944






Libertação da Ucrânia e da Crimeia


Contrariando as expectativas alemãs de que as ofensivas de 1943 terminariam em dezembro devido ao cansaço das forças soviéticas, os russos fizeram planos para começar a retomar a Ucrânia ocidental antes do fim doa no. Logo na manhã do dia 24 de dezembro de 1943, a 1ª Frente Ucraniana lançou um potente bombardeio contra as posições do Grupo de Exército do sul a oeste de Kiev. Em seguida, divisões de ataque entraram em batalha e lidaram rapidamente com a oposição. No fim do dia, as unidades russas tinham avançado mais de 32 km, com os alemães em total desordem. A posição alemã, no entanto, foi salva quando a chuva começou a cair no dia do natal. O dilúvio transformou a área em um lamaçal, tornando extremamente difícil para as forças soviéticas manterem seu ritmo inicial. Ainda assim, o ataque continuou. As forças alemãs foram obrigadas a recuar, e a ligação por ferrovias entre o Grupo de Exército do Centro e o Grupo de Exército do Sul foi cortada em 5 de janeiro de 1944.


Como resultado da ofensiva, um buraco de 240 km de largura e 80 km de profundidade foi forçado na frente alemã antes do avanço começar a diminuir. A perda de ritmo foi temporária, pois a 2ª Frente Ucraniana lançou uma ofensiva própria, atingindo a periferia de Kirovgrad. Depois de duas semanas de preparação, a 1ª e a 2ª Frentes Ucranianas atacaram, encurralando 50.000 alemães na saliência de Korsun-Shevchenkovsky.


[O ditador alemão Adolf] Hitler inicialmente se recusou permitir qualquer esforço de fuga, ordenando uma contra-ofensiva. No início os alemães conseguiram algum sucesso, mas o clima quente e as chuvas fora de estação tornaram o terreno um pântano, e o exército alemão ficou literalmente atolado. Ordens permitindo a retirada do bolsão Korsun-Shevchenkovsky foram dadas, mas, depois de um começo organizado, a ação se tornou uma debandada, e o comando de controle deixou de ser ouvido. Milhares de alemães morreram tentando atravessar o rio Gniloi Tikitsch, que estava completamente cheio por conta das tempestades causadas pelo tempo quente. Apesar disso, cerca de 30.000 dos 50.000 soldados alemães encurralados escaparam, mas eles não tinham condições de voltar à linha de frente de batalha em um futuro próximo. A raiva inicial de Stalin com a fuga de tantos alemães foi aliviada quando ele notou os paralelos com a vitória de Alexander Nevsky contra os Cavaleiros Teutônicos em 1242. A oportunidade de propaganda foi explorada à exaustão, e Koniev foi promovido Marechal da União Soviética.” pp. 123-125




fonte: JORDAN, David & WIEST, Andrew. Atlas da Segunda Guerra Mundial. As duas Frentes de Batalha. Trad. Tatiana Napoli. São Paulo: Escala, 2008.




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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Campanha da Birmânia / Burma - 1943/1944 p2








Ofensiva Japonesa
1943-44


Durante os últimos meses de 1943, [Tenente-General no comando do XV Corpo] Christison avançara suas forças metodicamente pela península de Mayu, de modo que em meados de janeiro de 1944 ele estava em condições de poder disparar uma ofensiva geral contra os japoneses que defendiam a estrada Maungdaw – Buthidaung. Os japoneses, possivelmente para atrair os britânicos mais ainda pela península abaixo, antecipando seu próprio contra-ataque, evacuou Maungdaw, mas se mantiveram firmes na área dos Túneis no centro da linha. Slim deslocou a Divisão indiana para a frente do Arakan, colocando-se na reserva naquela área.
O 143º Regimento japonês defendia a área dos Túneis, com um destacamento no rio Kalapanzin (Mayu), diante da 7ª Divisão indiana.
O General Giffard (11º Grupo de Exércitos) estava concentrando o XV Corpo no Arakan para, se pudesse, fazer um ataque à linha Maungdaw – Buthidaung em meados de janeiro de 1944, mas o XV Corpo já estava atrasado.
A 5ª Divisão indiana finalmente atacou Rabazil, a 26 de janeiro, mas, após quatro dias de luta intensa, não avançou nada. A 30 de janeiro, Christison moveu sua artilharia média e seus tanques para o outro lado da serra de Mayu, para juntar-se à 7ª Divisão, a fim de lhe dar condições de prosseguir no ataque. A 2 de fevereiro, antes de iniciar um giro pela frente do Arakan, ele visitou o Q-G de Slim. Como resultado do exame a que procedeu, ordenou que a 36ª Divisão britânica se concentrasse em Chittagong, atrás do XV Corpo, mas com ordens para que não a movimentassem sem sua permissão. Por conseguinte, Slim dispunha de cinco divisões na frente do Arakan.
A 3 de fevereiro, a 5ª divisão defrontava os japoneses na área dos Túneis com suas três brigadas na linha. Duas brigadas da 7ª Divisão estavam espalhadas por uma distância de 16 km, desde o sopé da serra de Mayu até o outro lado do rio Kalapanzin (Mayu). A terceira brigada, com tanques, encontrava-se pronta para atacar Buthidaung. O Q-G do XV Corpo ficava em Bawli Bazar.
Uma ‘Área Administrativa’, situada em Sinzweya, recebera gasolina, munição e suprimentos vários.
O Tenente-General Hanaya, Comandante da 55ª Divisão, fora encarregado da ‘Operação Ha-Go’, cujo objetivo era, depois de cortar a comunicação da 7ª Divisão britânica, destruí-la e fazer o mesmo com a 5ª Divisão, na faixa costeira. Para esta ofensiva Hanaya dispunha, além da guarnição de Akyab, de quatro regimentos, cada um equivalente a uma brigada britânica. Ele não tinha blindados, artilharia média e nenhuma unidade aérea. Sua artilharia era levada em dorso de animais.
[...]
A principal força atacante da Hanaya consistiria de um regimento, reforçado por mais dois batalhões e um regimento de sapadores, totalizando cerca de 5.000 homens. Colocados sob o comando do Major-General Sakurai, ordenou-lhe Hanaya que passasse pelas linhas da 7ª Divisão indiana a leste do rio Kalapanzin e tomasse Taung Bazar. Depois, deveria atravessar o rio, bloquear o Passo de Ngakyedauk, na área dos Túneis, e destruir as formações britânicas (7ª Divisão) que estavam entre a serra de Mayu e o rio Kalapanzin. Ao mesmo tempo, a coluna Doi atacaria do sul. Um grupo incursor da coluna Sakurai também atacaria e destruiria a ponte de Briasco, cortando assim as comunicações rodoviárias com a 5ª Divisão.


[...]
O movimento de penetração, executado com arrojo, surpreendeu por completo os britânicos, embora algumas patrulhas de reconhecimento especial tivessem previsto esta operação, baseando-se em informações que haviam recolhido. Suas advertências foram ignoradas. O Q-G da 114ª Brigada ouvira o ruído de homens e animais movimentando-se na noite, mas julgou tratar-se de grupos de transporte de rações que se dirigiam para a frente.
Quando o Major-General Messervy (Comandante da 7ª Divisão, que possuía considerável experiência de batalha, pois estivera no Deserto Ocidental) ouviu, às 9h do dia 4 [de fevereiro 1944], a notícia de que cerca de 800 japoneses estavam avançando sobre Taung Bazar, ordenou que sua brigada de reserva (a 89ª) os localizasse e destruísse.
[...]
General Giffard, que estava visitando Slim, ordenou a concentração de toda a 36ª Divisão em Chittagong.
Pelo anoitecer do dia 5, portanto, as duas divisões avançadas (5ª e 7ª) estavam ocupando suas posições. Como haviam sido colocadas em regime de abastecimento aéreo, o corte das suas comunicações rodoviárias não foi importante. Ao mesmo tempo, poderosos reforços das duas divisões estavam avançando, vindos do norte.” pp. 73-76


Fonte: CALVERT, Michael. Campanha da Birmânia. Trad. Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Renes, 1978.


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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Conferência de Teerã - novembro / dezembro 1943





Segunda Guerra Mundial


Conferência de Teerã

novembro / dezembro de 1943

codinome: Eureka



A Conferência de Teerã ocorreu entre 28 de novembro e 1 de dezembro de 1943, na capital do Irã. Reuniu Josef Stalin (presidente da União Soviética), Winston Churchill (primeiro ministro inglês) e Franklin Delano Roosevelt (presidente dos Estados Unidos), que discutiram a abertura de uma nova frente de batalha na Europa Ocidental para validar a derrota alemã. Normandia foi o local escolhido para o desembarque das tropas Aliadas, no chamado Dia D.

Ficou decidida a divisão da Alemanha em zonas de influência, e formulou-se a proposta de criar uma organização internacional para a preservação da paz.

Além disso, Inglaterra e EUA reconheceram os territórios da Estônia, Letônia, Lituânia e do Leste da Polônia como áreas anexadas ao território soviético.









Em 28 de novembro de 1943 começava a Conferência de Teerã, no Irã, que se estenderia até 1º de dezembro. Nela, reuniram-se os três dos maiores estadistas da época. Representando os Estados Unidos, se fazia presente Franklin Delano Roosevelt; falando em nome do Império Britânico, achava-se o primeiro-ministro Winston Churchill; e, por último, Joseph Stalin, ditador da URSS.

Somente a guerra de agressão desencadeada por Hitler, em setembro de 1939, poderia ter colocado aqueles três homens tão diferentes, que representavam coisas tão distintas e tão contrárias, reunidos ao redor de uma mesma mesa de negociações. Roosevelt era um entusiasta da democracia e do capitalismo, Churchill era a própria materialização dos interesses universais do Império Britânico, enquanto o todo-poderoso Stalin era o arauto da revolução proletária e das aspirações anticolonialistas que vinham abalando o mundo desde 1917.

Um deles, o inglês, lutava para manter um império, os outros dois, o americano e o russo, lançaram-se à liça para construírem dois novos impérios. A Conferência de Teerã serviu para definir os rumos a seguir na busca pela vitória na Segunda Guerra, que eram os seguintes:

-rendição incondicional da Alemanha Nazista;
-ajuda militar aos guerrilheiros Iugoslavos;
-Polônia, com compensações territoriais e com governo pró-soviético;
-acerto da Operação Overlord - o nome código do grande desembarque anglo-saxão nas costas da França atlântica, que seria realizado em 6 de junho de 1944, coordenado com a invasão do sul daquele mesmo país;
-abertura do segundo fronte na Europa Ocidental.

 
No encontro, Stalin assumiu ainda o compromisso de guerra contra o Japão. Além disso, a Conferência serviu também para que Roosevelt expusesse os seus planos para o pós-guerra.

Roosevelt imaginou, retomando o ideário do presidente Woodrow Wilson, a fundação de uma instituição internacional que substituísse a malfadada Liga das Nações (que viria a ser a ONU), “baseada no princípio de igual soberania entre todas as nações pacíficas”. Instituição que seria a responsável, num mundo democratizado, pela garantia da paz e da segurança dos povos da Terra.

Seria um grande areópago de Quatro ou Cinco potências (EUA-GB-URSS-França ou China), com assentos permanentes num Conselho de Segurança, frente a uma Assembleia Geral aberta a todos. Aquele clube dos grandes do mundo, que a imprensa mais tarde chamou de as “quatro polícias” teria o papel de supervisionar os conselhos regionais, um para cada continente, para impor um clima de ordem e tranquilidade no planeta inteiro.


Fonte: Educa Terra







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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Frente Oriental - Avanço para o Rio Dnieper




Frente Oriental


1943-1944




Avanço para o Rio Dnieper


Enquanto o elemento norte do ataque alemão a Kursk parava diante da feroz resistência russa, a Frente Ocidental Soviética (do General Sokolosky) lançava a Operação Kutuzov, um ataque contra o 2º Exército Panzer. As forças alemãs, envolvidas na sua própria ofensiva, foram pegas de surpresa pela Operação Kutuzov. Os alemãs foram rapidamente vencidos, com as unidades russas ameaçando cortas as linhas de comunicação do 9º Exército de [General] Model. [A operação] Kutuzov foi seguida por uma ofensiva na direção de Orel pela Frente de Bryansk, do General Popov. Orel detinha a estrada principal e a junção ferroviária da região, e a perspectiva de perder a cidade era preocupante para os alemães. Orel caiu depois de uma semana, e os russos continuaram a forçar o avanço; em meados de agosto, as posições alemãs ao norte se tornaram insustentáveis e tiveram de ser abandonadas. Os alemães recuaram para preparar posições defensivas a 129 km a oeste.


Enquanto as operações ao norte se desenrolavam, os russos não ignoravam as posições do inimigo ao sul. a Frente Steppe, do General Knoen, e a Frente Voronezh, do General Vatutin, lançaram sua própria ofensiva (Operação Polkovodets Rumyantsev), com o objetivo de destruir as posições alemãs ao sul da saliência antes de seguir para retomar Belgrado e Kharkov.


Quando Rumyantsev começou, em 3 de agosto, os alemães foram mais uma vez pegos de surpresa. eles tinham corretamente concluído que as frentes de Steppe e Voronezh sofreram grandes perdas durante o embate em Kursk, mas subestimaram a capacidade russa de trazer reforços para a linha de batalha e, dessa forma, não se prepararam para um ataque inimigo.


Rumyantsev teve sucesso rápido: Belgrado caiu ao fim do segundo dia, permitindo o avanço na direção de Bogodukhov e Kharkov. o contra-ataque alemão se mostrou improdutivo, e Kharkov mudou de mãos pela quarta - e última - vez em 21 de agosto de 1943. conforme a Operação Rumyantsev prosseguia, a frente central do General Rokossovky lançou uma ofensiva própria em Kursk, agindo como um elo entre as ofensivas do norte e do sul. Ao mesmo tempo, as frentes do sul e sudeste começaram um ataque contra o Grupo de Exército do sul.


Em meados de setembro, a ofensiva já tinha levado o Grupo de Exército do Sul alemão a recuar até o rio Dnieper. a posição nas margens do rio foi garantida pelo avanço soviético de 23 de setembro, com a força principal atravessando o rio por uma passagem frontal de Gomel a Zaporozhye. A ação continuou e, em 25 de outubro, o avanço soviético já tinha isolado as forças alemãs na Crimeia. Outro contra-ataque alemão parou o avanço das forças soviéticas nos arredores do centro de abastecimento alemão em Krivoi Rog, mas isso não foi suficiente para impedir que os russos seguissem para Kiev. a ofensiva lá começou em 3 de novembro, e a cidade voltou ao domínio soviético em 48 horas.


O natal se aproximava, e os alemães agora detinham apenas pequenas porções da margem ocidental do rio Dnieper, esperando se segurar até que a ofensiva soviética se esgotasse em si mesma. as evidências de que os russos iriam diminuir o ritmo, no entanto, eram apenas para enganar os alemães: eles não tinham intenção nenhuma de diminuir o passo pelo restante de 1943 agora que detinham a iniciativa da batalha."




Avanço Soviético



"Os eventos que seguiram a batalha de Kursk foram um grande golpe para as forças alemãs na Frente Oriental. suas perdas podiam ser suportadas; no entanto, sem uma brecha no furioso ataque russo estava evidente que os nazistas estavam sob o sério risco de simplesmente não conseguirem mais trazer soldados para a linha de batalha com agilidade o suficiente para conter os ataques.


Esta situação foi amplamente ilustrada pela Operação Rumyantsev. As duas frentes soviéticas envolvidas tinham sofrido enormes perdas no conflito em Kursk e parecia inconcebível que conseguissem se reagrupar e se preparar para novas ações. os comandantes alemães imaginaram que, no mínimo, as duas forças permaneceriam inativas até o fim de agosto de 1943. na verdade, as duas frentes receberam reforços rapidamente e, quando o combate foi reiniciado no início de agosto, os alemães se viram em desvantagem numérica de 3 para 1, enfrentando quase 700.000 russos.


A combinação habilidosa de exércitos armados e tanques de batalha fazia com que os russos conseguissem abrir caminho pelas linhas alemãs com relativa facilidade. os comandantes alemães eram profissionais competentes, mas as condições que enfrentavam eram impossíveis. alguns contra-ataques conseguiram atrasar o avanço russo para o rio Dnieper, mas não chegaram nem perto de impedi-lo. os soldados soviéticos agora cercavam as margens do rio, esperando para dar o próximo passo."
pp. 120-123

fonte: JORDAN, David & WIEST, Andrew. Atlas da Segunda Guerra Mundial. As duas Frentes de Batalha. Trad. Tatiana Napoli. São Paulo: Escala, 2008.


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terça-feira, 5 de novembro de 2013

peça [trecho] O Vigário - de Rolf Hochhuth




trecho da peça teatral O Vigário [O Representante]
[ Der Stellvertreter, 1963; The Deputy, 1964; El Vicario]
de Rolf Hochhuth [1931-]

Ato I – A Missão / Ato II – Os Sinos de São Pedro
Ato III – A Visita

Ato IV – Il Gran Rifiuto

(a ação se passa em 1943. quando há referência ao Chefe, entenda-se o Papa Pio XII, Eugênio Pacelli, 1876-1958. LdeM)

No Palácio Pontifício. Uma pequena Sala do Trono, quase vazia, frequentemente usada como salão para audiências mais íntimas e conversas sobre negócios. Está atapetada de vermelho – cor das vestes dos Cardeais que, como se sabe, simboliza a disposição de defender a fé a ponto de 'derramar o próprio sangue'. O Papa veste de branco, evidentemente. Sua batina é tão alva como a pomba com o ramo de oliveira do seu brasão de armas, bordado com a tiara e as duas chaves cruzadas na colgadura suspensa atrás do trono dourado.

Esta colgadura eleva-se até o baldaquino que, por sua vez, se eleva até ao teto – tão alto que não é visível aqui. De ambos os lados do trono, pouco elevado, há uma porta estreita e alta, também encobertas, as duas, por cortinas de ouro e púrpura. Encostado à parede da esquerda está um consolo de estilo barroco, com um relógio astronômico e apetrechos para escrever. Em cima, um grande crucifixo de latão forjado. Alguns escabelos dourados junto às paredes. Não há guardas.

O Cardeal está conversando com o velho Fontana [Conselheiro da Santa Sé]. O Conde, com uma pasta debaixo do braço, está de casaca, com a Ordem de Cristo. Sua Eminência, embora esteja bem no seu ambiente, mostra-se mais impessoal que em suas visitas à casa dos Fontana ou ao convento, mais parcimonioso e comedido em palavras e gestos.

CARDEAL (lamentando-se): … seja como for, não é verdade? … foi só em setembro que Herr Hitler...
FONTANA: Ah, sim, foi há pouco...
CARDEAL: Sim! Muito confidencialmente, fez saber ao Chefe que considera os bombardeiros como qualquer outra arma, não é mesmo? Que o Governo Alemão foi o primeiro a empregar essa arma e espera responder já, como vigor, ao atual contra-ataque dos Aliados. Vamos ver, não é mesmo?
FONTANA: Naturalmente, o orgulho impede Hitler de mandar o Papa como emissário à Casa Branca.
CARDEAL (não sem malícia): Mas o Chefe está muito ofendido, como sempre, quando rejeitam os seus préstimos como intermediário. Gosta tanto de escrever cartas a Mr. Roosevelt, que não dizem nada, não é mesmo?
FONTANA (vivamente): É a Hitler que ele deveria escrever, Eminência! Esse revoltado, esse patife até com os judeus de Roma se permite...
CARDEAL: O senhor pensa que Herr Hitler sabe como a sua corja se comporta aqui? Seja como for, também viemos hoje para falar nisso. Tenho rezado pelos judeus...
FONTANA (frio): Constitui uma reabilitação que o Papa finalmente protestasse, Eminência. Ouvi esse rumor hoje de manhã cedo, por intermédio do homem de confiança [ Kurt Gerstein, Obersturmführer SS] que meu filho [Riccardo Fontana] tem nas SS .
CARDEAL (muito surpreendido e até assustado): Protestar? De modo nenhum, o Chefe não protestou, Conde! Aí vem ele. Não, disso eu não sei nada.
FONTANA (surpreso): Mas sim! Hoje de manhãzinha, ele …

[…]

CARDEAL (sinceramente contrariado): Sim, não é mesmo? … Agora, depois da queda de Mussolini, que apesar de tudo sempre enfrentou o comunismo e era uma garantia da ordem social, produziu-se um vácuo que me enche de grande pavor, não é mesmo? Graças a Deus que os alemães ainda estão no país e não permitirão greves nem madraçaria. Mas... que vai acontecer quando as suas tropas se retirarem, hem... não é mesmo?
PAPA: então teremos os americanos aqui, Eminência. À tarde receberemos o enviado do Presidente em audiência. Infelizmente, Mr. Taylor vem sempre e sempre com o pedido de Mr. Roosevelt para que condenemos as infâmias praticadas por Hitler. Não foram os alemães que bombardearam San Lorenzo. Os alemães retiraram todos os livros e pergaminhos de Monte Cassino, pondo-os a salvo no Castelo Sant'Angelo (em tom aflito) e depois vieram os bombardeiros de Mr. Roosevelt e converteram essa cidadela de paz em cinza e pó. Não obstante, que falta de tato a dos alemães, levando também os judeus de Roma. (Sumamente indignado): Tendes ouvido falar disso, Conde? … Eminência? Que coisa mais malcriada!
FONTANA: Roma está abalada,Santíssimo Padre.
CARDEAL: sim, não é mesmo? .. um atrevimento infame!
FONTANA: Seja-me permitido, também em nome dos israelitas que têm procurado refúgio em minha casa, expressar os meus mais profundos agradecimentos a Vossa Santidade.
PAPA (todo bondade, espontâneo, cordial): Mas, caro Fontana, não é preciso dizer que Nós faremos, como sempre, tudo aquilo que Deus nos permitir fazer para amparar os infelizes.
FONTANA: Constitui uma verdadeira redenção o ter Vossa Santidade feito agora tão decidida ameaça como uma declaração pública. Ser-me-á permitido, com toda a humildade, perguntar se já houve alguma reação do Comandante alemão da cidade?

O Papa olha com desconfiança e sem compreender para o Cardeal, e depois para Fontana.

CARDEAL: O Comandante da cidade? Reação a quê?
PAPA (desconfiado): Reação? A quê, Conde?
FONTANA (algo inseguro, suspeitando o que está por vir): Bem, ouvi meu filho dizer que o Bispo Hudal, esta manhã, ameaçou o Comandante da cidade de que Vossa Santidade faria um protesto pela primeira vez desde que a guerra começou.
PAPA (com aspereza): O bispo ameaçou? Em Nosso Nome! Eminência, haveis dado poderes a Hudal, em nome da Santa Sé ou em Nosso Nome...
CARDEAL: Tomo a Deus por testemunha, Santíssimo Padre! Eu só ouvi falar do protesto aqui, dos lábios do Conde... Não pode ser, não acredito, não é mesmo...
FONTANA (excitado): Não sei quais os termos exatos! O Bispo talvez não tenha protestado realmente em nome de Sua Santidade, e sim apenas anunciado que era de esperar uma declaração pública do Santo Padre. Meu filho [Riccardo Fontana ] diz...
PAPA (muito descontente): Vosso filho, Conde Fontana... onde está vosso filho? Não devia estar em Lisboa?
CARDEAL (assustado, pressuroso): Esta lá embaixo, na Secretaria de Estado, Beatíssimo Padre, à minha espera.
PAPA (sumamente indignado): Mandai-o subir! Terá de explicar-nos com que autoridade se permite, como membro de Nosso Serviço Exterior, intrometer-se constantemente nesses assuntos. Os judeus e os alemães são matéria afeta aos dois Padres que para tanto nomeamos expressamente.

O Cardeal dirigiu-se logo a porta e murmurou uma ordem ao Guarda Suíço. Em face da cólera do papa, o dever de obediência leva-o também a mostrar má cara ao velho Fontana.

FONTANA: Perdão, Santíssimo padre, para meu filho. Seu zelo é filho do desespero. Em Berlim ele foi testemunha de como os nazistas arrojavam criancinhas judias em caminhões...
PAPA (um gesto de aborrecimento, e depois com voz apaixonada, impulsivo): Testemunha! … Conde, um diplomata tem de ver muita coisa e … calar. Vosso filho não tem noção de disciplina. O Núncio de Bratislava já sabia, em julho do ano passado, que tinham eliminado os judeus eslovacos do distrito de Lublin. Deixou ele Bratislava por causa disso? Não, continuou a cumprir o seu dever, e vede o resultado: nenhum outro judeu está sendo levado para a Polônia. Quem quiser ajudar, não deve provocar Hitler: tem de atuar secretamente, como os nossos dois Padres, com discrição, astuto como a serpente. Assim é que se deve lidar com os S S. Ocultamos centenas de judeus em Roma. Milhares receberam salvo-condutos! Hitler já não é tão perigoso. Diz-se em Portugal e na Suécia que ele está negociando a paz com Stalin. São rumores que nos alegram o coração, pois, embora saibamos que nada têm de certo – assim o esperamos, ao menos – contribuirão um pouco para dispor mais a Casa Branca e Londres a um compromisso: é preciso negociar, não se deve apostar a Europa inteira num 'tudo ou nada', e fazer de Stalin o herdeiro de Hitler. Deixamos que as autoridades pastorais de cada localidade decidam por si mesmas até que grau cabe esperar represálias, no caso de proclamações episcopais. Se ficamos calados, caro Conde, também calamos ad maiora mala vitanda (para evitar males maiores).

FONTANA (comovido): Mas o Núncio de Vossa Santidade em Bratislava, com o seu protesto, salvou a vida de inúmeras vítimas, sem que os assassinos se vingassem.
PAPA: Lembrai-vos de Nossa última mensagem de natal; foi toda uma súplica pelo amor ao próximo. E qual o resultado? Os assassinos simplesmente a ignoraram.
FONTANA: Santíssimo Padre, também eu senti imenso pesar ao ver que a mensagem não produziu efeito. Mas, lamentavelmente, nela Vossa Santidade não mencionava expressis verbis os judeus, nem tampouco o terror dos bombardeamentos contra cidades abertas. A mim me parece que, diante de Hitler e Churchill, é preciso falar com a franqueza mais rude.

[…]

RICCARDO (perdendo por momentos o domínio de si mesmo): Esse auxílio só alcança alguns judeus da Itália, Eminência! Isso também já foi discutido muitas vezes. (Voltando-se para falar simultaneamente ao Papa): Mas o terror reina agora em todos os países! Só na Polônia já foram assassinados um milhão e oitocentos mil judeus! E como esta cifra foi transmitida oficialmente em julho ao Legado Papal em Washington, pelo Embaixador de Varsóvia junto à Casa Branca – Deus não há de querer que Vossa Santidade a ignore!
CARDEAL (indignado): Saia daqui para fora... não é mesmo … como se atreve a falar desse modo na presença do Santo Padre! Conde, proíba seu filho...

Durante as últimas palavras de Riccardo o Papa levantara-se, mas depois volta a sentar-se. Decorre um momento antes que consiga falar, o que faz com grande esforço.

PAPA: 'ignorar'! Não temos a intenção de prestar contas a Riccardo Fontana. O Senhor seu Pai não tem nada a dizer? Não obstante, gostaríamos de acrescentar algumas palavras ao assunto. (Com aspereza crescente, numa tentativa de mudar de tema): Sabeis, vós, Sr. Secretário, exempli causa, que há algumas semanas já estávamos preparados, com ouro, com grande soma de ouro, para ajudar os judeus de Roma, que queriam deportar, a sair de sua dificuldade? Os bandidos de Hitler prometeram a liberdade dos judeus mediante resgate. Depois, quiseram exigir-nos uma soma completamente fora da realidade, uma chantagem. Pois ainda assim, pagamos!

RICCARDO (volta-se desconcertado para o pai; depois, diz rapidamente ao Papa): Então Vossa Santidade já sabia, há várias semanas, o que os SS queriam fazer aos judeus?
PAPA (irritado, evasivo): Que dizeis?! O Superior-Geral poderá confirmar tudo o que já se fez. Os conventos e mosteiros estão de portas abertas...

[…]

FONTANA (interpondo-se entre o filho e o Papa): Posso falar pelo meu filho, Beatíssimo Padre?
PAPA: De que se trata, Conde?
FONTANA: Santidade, se ousasse pedir-vos, com toda a humildade... Ameaçai Hitler de forçar quinhentos milhões de católicos a protestar cristãmente se ele continua com os assassínios em massa!

O Papa vê que tem de responder de modo objetivo a este experimentado conselheiro. Está desgostoso, irritado e fala como se voltasse a dizer o que já tinha explicado mil vezes antes. Não obstante, consegue dominar-se, aproxima-se de Fontana e põe-lhe a mão no ombro.

PAPA: Fontana! Um conselheiro da vossa perspicácia! Como é amargo que também vós não Nos compreendais. Não vedes que a catástrofe é iminente para a Europa cristã, se Deus não Nos utiliza, a Santa Sé, como Mediador? A hora é tenebrosa, embora tenhamos por certo que o Vaticano não será atacado. Herr Hitler renovou muito recentemente a sua garantia. Mas... e os Nossos batéis que estão ao largo e temos de pilotar? A Polônia, todos os Balcãs e também a Áustria e a Baviera.... a que portos irão arribar? Poderiam naufragar facilmente na tormenta, ou ser arrastados à deriva para os recifes de Stalin. Hoje, a Alemanha é Hitler. Só os fantasistas diriam que a queda do atual regime alemão não teria como consequência o colapso da frente militar. Pelos generais de Hitler que o querem suprimir, não temos o menor respeito. Eles queriam negociar na primavera de 1940. E como o fizeram? Deixaram-se condecorar por Hitler e reduziram a Europa inteira a escombros. Conhecemos essa gente desde que estivemos em Berlim : os generais não têm nenhuma opinião. Se Hitler cai, voltam para casa...
CARDEAL: E Stalin ficaria com o caminho livre para Varsóvia, Praga e até Viena... sim, direto ao Reno, não é mesmo?
PAPA (que se sentou outra vez): Verá bem claro isto o Presidente Roosevelt? Stalin nem sequer escuta uma palavra que ele diga. Desde a conferência de Casablanca [em janeiro de 1943], a razão deixou de dominar na Casa Branca. E Mr. Churchill é fraco demais. Não parece que se decida a abrir uma segunda frente no Ocidente. Ficaria feliz se os russos e alemães se exaurissem uns aos outros completamente na luta.

CARDEAL: Nós também não podemos ser muito contrários a isso, não é mesmo?
PAPA (sublinhando cada palavra com uma palmada no braço do trono): Somente Hitler defende hoje a Europa, caro Conde. E combaterá até a morte, porque um assassino não espera perdão. Não obstante, o Ocidente deve perdoá-lo na medida em que ele seja útil no Leste. Em março, declaramos publicamente que nada, absolutamente nada, tínhamos a ver com os objetivos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Primeiro, ele têm de acertar as coisas com os alemães. O Ministro de Assuntos Exteriores da Espanha, infelizmente, já propagou isso pelo mundo inteiro. Mas, seja como for, a Razão de Estado proíbe denunciar Hitler como um bandido, pois ele deve continuar a ser um interlocutor digno. Não temos alternativa. O Serviço Secreto de Hitler aqui em Roma entrou em contato com o Superior-Geral dos Jesuítas... é lamentável, Sr. Secretário, que nada saibais dos esforços de vosso Superior...

RICCARDO: Sei muito bem, Santíssimo Padre. Mas não entendo que possamos utilizar Hitler como instrumento.
PAPA: Um instrumento que atiraremos fora, tão logo...
CARDEAL: Louvado seja Deus, Sr. Secretário, que a sua opinião seja completamente insignificante.
RICCARDO (hostil): O Santo Padre me fez uma pergunta, Eminência! Devo responder, Santíssimo Padre?
PAPA (álgido): Objetivamente, sim, objetivamente. Objetivamente.
RICCARDO (em tom de ataque, cujo único resultado é já ninguém lhe dar ouvidos): Santíssimo padre, deve-se ter em mente que nós, os jesuítas, estamos formando há anos especialistas para a Rússia, que seguiriam atrás de Hitler, isto é, das tropas alemãs, com o fim de catequizar os russos.
CARDEAL (furioso): Sim... e daí? Poderia prever, Sr. Secretário, antes da invasão, que Stalin conseguiria aguentar tanto tempo?
RICCARDO (outra vez para o Papa): Também os comentários de muitos Bispos sobre a pretensa cruzada de Hitler são... blasfêmias. Também é culpa do Vaticano, Santíssimo Padre, se agora a tormenta vermelha ameaça a Europa. Quem semeia ventos... Resumindo, a Rússia é que foi atacada!

O Papa faz um par de movimentos nervosos com as mãos. Cala-se, seja por estar tão agitado que não consegue articular a voz – como antes – seja por considerar abaixo de sua dignidade o dar resposta.


[...]

pp. 179-191 (trechos)

fonte: HOCHHUTH, Rollf. O Vigário. [Der Stellvertreter] trad. João Alves dos Santos. Grijalbo, 1965.


mais info em



sobre a Conferência de Casablanca
janeiro de 1943


filme Amen [2002] de Costa Gravas
baseado na peça de Hochhuth

para ouvir