quinta-feira, 16 de junho de 2011

Início da Operação Barbarossa - junho 1941




Operação Barbarossa – 22 de junho – 05 de dezembro 1941


“O Alto Comando Soviético claramente esperava o principal ataque alemão no sul, contra as principais áreas agrícolas e industriais da Rússia. Eis porque havia concentrado neste setor a quantidade de unidades blindadas para uma defesa elástica. Mas desde que o tanque é primariamente uma arma ofensiva, esta concentração de poderosas forças blindadas na ala sul simultaneamente permitia uma ofensiva soviética contra a Rumânia, a fonte vital de petróleo para a Alemanha.


O Plano de ataque de Hitler, assim, era um jogo de azar. Seguia a receita que provara de sucesso no fronte ocidental, quando, para a completa surpresa dos franceses, ele tinha irrompido rapidamente através do terreno desfavorável das Ardennes, penetrando a linha Maginot, que era fraca naquele ponto, e assim levou a campanha a uma rápida conclusão. Hitler pretendia aplicar o  mesmo plano na União Soviética: ele atacaria com todas as forças disponíveis em uma posição inesperada, romperia a frente inimiga, atravessaria, derrotaria totalmente o inimigo, e conquistaria seus centro vitais – Moscou, Leningrado, e Rostov – ainda arrebatado pelo ímpeto do primeiro grande avanço. A segunda onda então avançaria para a linha que ele traçara no mapa –a linha de Astrakhan até Archangel.

Esta era a Operação Barbarossa no papel.” p. 16



trad.: Leonardo de Magalhaens



fonte: CARELL, Paul. Hitler Moves East 1941-1943, 1964.
trad. EUA de “Unternehmen Barbarossa” [1963] by Ewald Osers
Parte Um: Moscou/ 1-Pego de surpresa, p. 16.



Segundo Paul Carell, são estas as disposições de forças adversárias nas posições iniciais, ao longo da fronteira polonesa-bielorussa e romena-ucraniana, onde os alemães se concentram com 7 exército com 4 corpos blindados (Panzer Groups), 3 frotas aéreas, 3 milhões de homens, 6000 mil veículos, 750 mil cavalos, 3580 blindados, 7184 canhões, 1830 aviões. Mais as forças romenas (os 3º e 4º Exércitos)

As forças russo-soviéticas somam 9 exércitos com 4,5 milhões de homens.

Fonte: Wikipedia





Início da Operação Barbarossa


Uma guerra em duas frentes? Afinal, preparar uma invasão à Rússia enquanto ainda se batalha contra a Grã-Bretanha! Nem os generais e muito menos os soldados entendia esta decisão do Führer que sempre tivera ideias ousadas – mas esta já era exagerada! Fazer um inimigo antes de derrubar o outro...

A operação 'Leão Marinho' era julgada por alguns observadores como um estratagema para alarmar os britânicos (obrigando-os a um acordo de neutralidade) e ao mesmo tempo despistar as suspeitas dos russos. Os russos – principalmente Stalin – acreditaram que o movimento de forças ao leste era, por sua vez, uma tática para despistar os britânicos. E que acreditar que haveria uma invasão alemã seria dar ouvidos a 'intrigas inglesas'.

O autor Pierre Rondière aborda as vésperas da grande invasão em seu livro “E o Mundo perde o fôlego” (em Portugal tem o título de “Quando Hitler atacou a leste”), vejamos alguns trechos interessantes.


“Desde há dois meses [i.e, abril e maio de 1941], por estes dois canais  [na Embaixada Soviética em Berlim], Moscovo [Moscou] é regularmente avisada dos preparativos da operação 'Leão do Mar', a invasão da Inglaterra. Os deslocamentos fictícios de divisões, as falsas concentrações de blindados, o amontoamento imaginário de lanchões nas praias do Pas-de-Calais, tudo concorrera para dar a impressão nítida de um desembarque iminente entre Douvres e a ilha de Wight. Talvez a atenção tenha sido assim desviada da fronteira da URSS, talvez tenha conseguido fazer crer a Moscovo [Moscou] que os movimentos nas fronteiras soviéticas eram apenas encenação para enganar os britânicos, sobre os quais a Alemanha saltaria dentro em pouco... talvez... Moscovo [Moscou] dispusesse de outras fontes, não intoxicadas, sabe-se lá...”

(pp. 16-17)


“Às 20 horas [de 21 de junho de 1941], os principais colaboradores de Ribbentrop, ministro dos Negócios Estrangeiros do III Reich, estão reunidos no seu gabinete de Berlim, na Wilhelmstrasse. Atmosfera tensa, rostos graves, conversas em voz baixa: por que nos reuniu o ministro?

Von Ribbentrop, diante deles, anuncia: 'Senhores, amanhã de manhã, às primeiras horas do dia. A Wehrmacht ataca a Rússia.'

Por que a guerra? E em duas frentes? O que tem sido sempre fatal à Alemanha! Por que não terminar primeiro com a Inglaterra? Directores e conselheiros, num silêncio pesado, interrogam-se: Não foi o próprio Ribbentrop que, vinte e um meses antes, regressando de Moscovo [Moscou] depois da assinatura do pacto de não agressão com Moscovo [Moscou], declarou com ênfase: 'Assinando com Estaline [Stálin] desembaraçamos a nossa retaguarda, afastamos qualquer perigo de conflito em duas frentes, ameaça que tem sido sempre fatal à Alemanha. Senhores, considero o pacto de não agressão como o coroamento da minha carreira.' Que terá mudado, agora?

Ribbentrop parece responder a estas interrogações mudas quando recomeça a falar: 'O Führer foi informado de que Estaline [Stálin] deslocava as suas tropas contra nós, para nós atacar no momento que escolhesse... e até agora o Führer tem tido sempre razão. Afirma que as nossas forças armadas abaterão a URSS em menos de oito semanas. E durante oito semanas podemos facilmente combater em duas frentes: os Ingleses estão muito longe de poder trazer a guerra ao continente... e depois teremos a retaguarda livre, sem ter de depender dos humores de Estaline [Stálin].'

Oito semanas, oito semanas... e se aquilo não estivesse acabado dentro de oito semanas? É verdade que até agora o Führer nunca se enganou.'

(pp. 20-21)


“É às 23 horas que o comboio especial do Führer chega a Rastenburg, na Prússia Oriental, onde Hitler fizera construir pela Organização Todt o Quartel-General de onde dirigirá a operação 'Barba-Ruiva', a guerra contra a URSS. Keitel e Jodl acompanharam-no durante a viagem.

'Wolfschanze', a toca do lobo; foi assim que Hitler baptizou o campo guerreiro escondido nos bosques de onde, em oito ou dez semanas, abaterá a Rússia. A Organização Todt não poupou precauções. Por baixo da cobertura florestal encaixou os tectos e as paredes de tal forma que os arbustos crescem sobre ela, junto com o mato e o musgo. O conjunto é indiscernível.

[…]

Para entrar ou sair, o mesmo luxo de precauções. Três barreiras sucessivas, todas guardadas por SS auxiliados por molossos [i.e. Bulldogs] , e passes de cores diferentes que autorizavam a circulação, segundo a atribuição, apenas numa barreira ou noutra. Para atingir o quartel reservado a Hitler, tinha de ser exibido um cartão especial. Tão parcimoniosamente distribuído que, entre os dirigentes do OKW, só o marechal Keitel e os generais Jodl e Warlimont o possuíam.

Porque Hitler fizera-se acompanhar por todas as direcções das suas forças militares e instalara a alguns quilômetros em redor, em campos semelhantes, o Estado-Maior da Wehrmacht, o Estado-Maior do Exército, o Estado-maior do Exército do Ar [i.e. a Luftwaffe]. Em alguns quilômetros ao fundo de uma floresta, todos os ramos do Exército alemão tinham sido concentrados. Em menos de uma hora todos podiam ser convocados, à disposição de Hitler.”


(pp. 27-28)


“24 horas. Últimos minutos do dia 21 de junho, primeiros minutos do dia 22 de junho de 1941. faz um ano, exactamente neste dia, que a França capitulou em Compiègne. E neste dia que começa, cinco milhões de homens, soldados e oficiais, carregados com metralhadoras e granadas, perfeitamente treinados, apoiados por 50 000 canhões e morteiros, 3 000 carros de combate e 2 900 aviões, um quarto de litro de álcool e trinta cigarros nos bolsos, de capacetes e botas, esperavam, imóveis, frente à fronteira.”

(p.30)


“0 e 15. Estaline [Stálin] permanece insensível aos argumentos inquietantes de Timochenko [marechal, ministro da Defesa], que enumera por várias vezes as informações e os indícios que provam, todos, um ataque de envergadura ao romper da manhã. Nada consegue. Estaline [Stálin] está inabalável, firme na sua convicção: 'Inútil insistir, camarada Timochencko, não semeareis o pânico. Ordem de alerta somente, nos termos que lhe indiquei.' E desliga.

A ordem de alerta, de alerta somente, e nos termos prescritos por Estaline [Stálin], é imediata redigida, codificada e expedida.

[…]


“A ordem de estado de alerta, e não de guerra, deixa-nos hoje perplexos como deviam ter ficado perplexos os generais [russos soviéticos] que a receberam. Fala de possíveis provocações alemãs, dita medidas de segurança extremamente limitativas: assim, não está previsto distribuir munições às tropas, à artilharia, nem sequer carburante aos blindados; enfim, proíbe formalmente toda a iniciativa de qualquer ordem que seja, sem a ter previamente referido a Moscovo [Moscou]. Numa palavra: esperar.”

“Por quê esta ordem de estado de alerta, limitada e peremptória nas suas proibições? Estaline [Stálin] ignora os preparativos alemães? Será falta dos serviços de informações? Traição da sua comitiva? Não foi avisado?'


(pp. 31 e 33-34)

A questão final sobre o centralismo da ditadura estalinista ao engessar a defesa das fronteiras da URSS, e de como Stalin não quis acreditar nos indícios de ofensiva em larga escala, será abordada em outras postagens. Assim como a questão da informação, dos informes de espionagem, que Stalin considera todo aviso de 'ataque iminente' como uma 'provocação inglesa'.)



fonte: RONDIÈRE, Pierre. Quando Hitler atacou a leste. Lisboa, 1972. ( Et Le Monde Retint son Souffle. Paris, 1967. trad. Domingos Vieira. Cap. 1, Cinco milhões de homens em sentido. Cap. 2, 'Inútil insistir: não semeareis o pânico!')



info sobre o Covil do Lobo (em Rastenburg)

.
mais sobre  a Operação Barbarossa


LdeM

sábado, 11 de junho de 2011

Preâmbulos da Operação Barbarossa (2)


Preâmbulos da Operação Barbarossa

2


Política germano-soviética


“Hitler herdou de Schlieffen [general que foi autor dos planos estratégicos no conflito de 1914] todos os problemas de uma situação de duas frentes. Mas, inicialmente, tal como Bismarck, procurou conduzir o problema em termos diplomáticos, e não militares. Desse modo surgiu o pacto Molotov-Ribbentrop de 19 de agosto de 1939, pelo qual a Rússia e a Alemanha concordavam em não iniciar guerra de agressão entre si, e pelo qual também o território polonês foi rachado entre ambas. Para Hitler, o tratado de não agressão assinado jamais passaria de mero expediente. Não é provável que ele acalentasse motivos doutrinários para um ataque à Rússia; em quase tudo, exceto em seu anti-semitismo, Hitler era completamente pragmático. Mas o bom senso lhe dizia que a própria magnitude dos seus sucessos, primeiro derrotando o exército polonês, depois vencendo os Bélgica, da França e da Grã-Bretanha, fatalmente alarmariam a Rússia, fazendo-a adotar medidas, não para aplacar a Alemanha pela reafirmação de políticas de não-agressão, mas acelerando sua preparação militar. Sabemos hoje que Hitler estava errado a este respeito, pois durante todo o ano de 1940 e até o dia 22 de junho de 1941 a política de Stálin, embora compreendesse certas medidas defensivas, visava principalmente ao cumprimento meticuloso do pacto de não-agressão, aparentemente com espírito de fato apaziguador. Contudo, o sentido pragmático de Hitler lhe avisava que Stálin estava aproveitando o temo, e se lhe permitissem ele alcançaria um nível de força militar que, empregado defensiva ou agressivamente, poderia ser demais para Alemanha, no caso de um pega entre ambas.


A resistência continuada da Grã-Bretanha também enfatizava o perigo de uma inversão de aliança por parte da Rússia. Hitler estava mais irritado do que perturbado com a persistente recusa da Grã-Bretanha em admitir a derrota, já que o reino ilhéu estava evidentemente incapacitado para intervir no continente. Mas sua antiga tradição de potência marítima e a habilidade demonstrada nesse campo – a combinação de sua grande marinha com um pequeno exército contra os flancos costeiros da Europa – tornavam-na um fator que ele jamais poderia ignorar, mesmo quando o objetivo principal da sua estratégia sempre fora a conquista de poderosos aliados terrestres. Rússia e Grã-Bretanha haviam feito causa comum contra a Alemanha na Primeira Guerra Mundial, como tinha acontecido contra Napoleão. Durante quanto tempo a Rússia resistiria à tentação de renovar esses laços? Se ela sucumbisse a essa tentação, Hitler se defrontaria com a possibilidade não de uma guerra de duas frentes, mas de três, já que o apoio russo à Grã-Bretanha robusteceria as gestões do presidente americano no sentido de levar os Estados Unidos à guerra contra a Alemanha.


Mas não era preciso que as coisas seguissem essa sequência. Pois 'se a Rússia sair do quadro', como Hitler explicou aos seus chefes das forças armadas a 31 de julho de 1940, 'a Grã-Bretanha também perderá os Estados Unidos, porque a eliminação da Rússia aumentaria muito o poderio do Japão no Extremo Oriente. Decisão: a destruição da Rússia tem de ser parte dessa luta – quanto mais cedo ela for esmagada, melhor.' Foi com este argumento que Hitler convenceu a todos da necessidade de rapidamente planejarem a Blitzkrieg contra o Exército Vermelho.


[…]


Hitler teria falado pela primeira vez da intenção de atacar a Rússia com o General Halder, o Chefe do Alto-Comando do Exército (OKH), a 2 de julho de 1940 (dia em que deu ordem para a 'Operação Leão-marinho', a invasão da Grã-Bretanha). Hitler nunca pretendeu seriamente invadir a Inglaterra, talvez porque desconfiasse da impossibilidade de a Luftwaffe vencer o Comando de Caças da RAF, ou talvez porque já tivesse escolhido mentalmente a Rússia – e foi nos planos para a Rússia que ele se concentrou daí por diante. A explanação do plano foi feita ao chefe da seção de operações do seu próprio Estado-maior, o OKW, General Jodl (que seria enforcado em Nuremberg, por seu papel no 'preparo e execução de guerra de agressão'). Este, por sua vez, ao explicá-los aos seus auxiliares diretos, a 19 de julho, provocou neles uma reação de descrença. Hitler havia incumbido Halder de preparar os planos,ordem esta que o Chefe do Estado-maior do Exército delegara ao General Erich Marcks. O plano de Marcks, apresentado a 5 de agosto de 1940, ficava as linhas gerais que o plano definitivo de invasão obedeceria.”


pp. 30-32


[Diretiva de Hitler: luta ideológica e racial ]


“O próprio Hitler, embora irritado com o atraso provocado pela campanha balcânica – e de início realmente enfurecido pela 'perfídia' da Iugoslávia – não ficou de modo algum abalado por ela a ponto de decidir não prosseguir com seus planos. A 'Barbarossa' deixara de ser uma imposição apenas prática, para transformar-se  numa verdadeira obsessão. O codinome – o apelido de um imperador alemão que conduzira seus exércitos na Terceira Cruzada contra os eslavos  pagãos, no século XII – deixa entrever a significação histórica que Hitler se atribuía, e opressiva e impiedosamente preparava o modo como se daria a sua revelação. Ele o transmitira a seus comandantes das forças armadas, num discurso pronunciado em março daquele ano:


“'A guerra contra a Rússia se reveste de características que não podem permitir cavalheirismo: a luta é de ideologias e diferenças raciais e terá de ser conduzida de maneira implacável e inflexível. Todos os oficiais terão de se livrar de sentimentos obsoletos. Sei que a necessidade do emprego desses meios na guerra está além da compreensão dos senhores generais, mas... Insisto peremptoriamente para que minhas ordens sejam executadas sem oposição. Os comissários (russos) são portadores de ideologias diretamente contrárias ao nacional-socialismo, tendo por isso de ser liquidados. Os soldados alemães culpados de violação do direito internacional... serão desculpados. A Rússia não participou da Convenção de Haia, portanto não tem direitos, nos termos da mesma.'


“Para muitos, no exército alemão, tais sentimentos eram intoleráveis, mas nenhum deles esboçou qualquer reação. As ordens seriam, pela maioria, obedecidas dentro desse espírito. Para os oficiais da SS, do partido [nazista] e do Estado que estariam envolvidos na administração e exploração do território russo capturado, o discurso de Hitler simplesmente deixava explícitos os planos que há muito eles vinham preparando. Nas suas mãos a Rússia viria a sofrer a morte, provocada por milhares de 'pequenas feridas'.

pp.48-49



fonte: KEEGAN, John. Barbarossa – a invasão da Rússia. Rio de Janeiro, Rennes, 1974. trad. Edmond Jorge.




links

videos sobre a Operação Barbarossa

(alemão)

(russo)

(english, USA)



LdeM

sábado, 4 de junho de 2011

Preâmbulos da Operação Barbarossa



1941: preâmbulos da Guerra Germano-Russa
(ou Grande Guerra Patriótica)




A Alemanha preparava uma agressão.” (no Cap. V)

“1. O pacto de 27 de setembro de 1940 – Nesta data o Japão, a Itália e a Alemanha renovam sua aliança. Infalivelmente, dado o tratado germano-soviético, não pode haver pacto antikomintern. Entretanto, a Alemanha e a Itália atribuem-se um papel dirigente na Europa (art. 1º) e o Japão no Extremo Oriente (art. 2º). Duas pretensões que não deixam de inquietar a URSS. O Pravda de 28 de setembro observa que o pacto de Berlim provocará um agravamento da guerra, que os três signatários visam esferas de influência que ultrapassam suas fronteiras naturais e que a URSS permanecerá neutra 'enquanto depender dela.'

2. A questão búlgara. [...] A Rússia propõe à Bulgária um pacto de auxílio mútuo. Os democratas búlgaros preconizam uma aproximação com a URSS, mas o clã pró-hitlerista leva vantagem. A 9 de fevereiro, a proposta soviética é rejeitada, e a 1º de março a Bulgária adere ao pacto de Berlim. No dia seguinte o exército alemão entra em território búlgaro. [...]

3. A questão iugoslava. -Desde o início da campanha da Grécia, a pressão alemã sobre a Iugoslávia é cada vez mais forte, e o governo do Príncipe Paulo cede pouco a pouco às injunções de Hitler. Seus representantes dirigem-se a Viena a fim de aderir ao pacto tripartido (25 de março de 1941). Esta notícia provoca grandes movimentos de protesto em Belgrado e na província. A 27 de março o jovem Príncipe Pedro sobe ao trono. Forma-se novo governo sob a presidência do General Simovitch (31 de março). Na noite de 5 para 6 de abril, na presença de Stálin é assinado um tratado de não-agressão entre a URSS e o novo governo iugoslavo. A 6 de abril, de manhã, a Wehrmacht rompeu as fronteiras da Iugoslávia.

Em tal situação, a União soviética envida esforços no sentido de evitar qualquer gesto que pudesse ser interpretado como uma provocação. Para não dar pretexto a uma agressão alemã, rompe todas as relações oficiais com os representantes diplomáticos belgas, norueguês, iugoslavo e grego. A 13 de junho, afirma que permanecerá fiel à sua política de neutralidade. Contudo, seu governo não deixa de tomar precauções. A 22 de abril, proíbe todo trânsito de armas e de material de guerra. A imprensa de Moscou protestou contra a atitude equívoca da Finlândia e a 6 de maio Stálin é nomeado presidente do Conselho dos Comissários do Povo.

No entanto, a Alemanha preparava a agressão. A 18 de junho, assinou um tratado de amizade com a Turquia. A Romênia praticamente encontra-se em pé de guerra. Tropas e material alemães se concentram na Finlândia e na Noruega. A 22 de junho, às 5,30 da manhã, as tropas alemãs, apoiadas pelos exércitos finlandês e romeno, penetram em território soviético.”
(pp. 108/109, grifos meus)


fonte: BRUHAT, Jean. História da URSS (Histoire de l'URSS, 1964)
São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1966.
trad. Geraldo G. De Souza





 ...


Operação Barbarossa


Diretiva de Hitler



O Fuehrer e o Supremo Comando da Wehrmacht

Quartel General do Fuehrer 18.12.40

Directiva Nº 21 Caso Barbarossa

A Wehrmacht alemã deve estar preparada, mesmo antes da conclusão da guerra contra a Grã-Bretanha, a subjugar a Rússia Soviética numa campanha rápida (Caso Barbarossa)

Preparações a serem feitas pelo Alto comando nas seguintes bases:

(I)Intenção Geral:

A concentração do exército russo na Rússia Ocidental deve ser aniquilada em audaciosas operações por cunhas de Panzer que penetram profundamente, e a retirada das unidade combatentes para o interior dos amplos espaços abertos da Rússia devem ser prevenidos.

Por meio de rápida ocupação uma linha deve ser alcançada a partir da qual a força aérea russa não possa mais atacar o território do Reich alemão. O objetivo final da Operação é um anteparo contra a Rússia asiática a partir de uma linha geral Volga-Archangel. Deste modo a última região industrial que sobrar na Rússia, nos Urais, poderá ser eliminada pela Luftwaffe se for necessário.

(II)Presumíveis aliados e suas tarefas:

.... .....

(III)Conduta das operações:

(A)Exército (aprovação de intenções submetidas a mim):

Na área de operações dividida pelos Pântanos Pripet numa metade sul e outra norte o centro de gravidade será formado ao norte desta área. Aqui dois Grupos de Exército devem ser previstos.

O mais meridional destes dois Grupos de Exército – Centro do front como um todo – tem a tarefa de irromper adiante com particularmente robustas formações blindadas (Panzer) e motorizadas desde a área ao redor e ao norte de Varsóvia (Warsaw) e de esmagar as forças inimigas na Bielorússia (Rússia Branca). Desde modo o pré-requisito deve ser criado por unidades robustas de tropas ligeiras para seguir rumo ao norte, onde, em cooperação com o Grupo de Exército Norte operando desde a Prússia Oriental na direção geral de Leningrado, eles devem aniquilar as forças inimigas combatendo na área Báltica. Apenas após o completar desta tarefa básica, a qual deve ser seguida pela ocupação de Leningrado e Kronshstadt, são operações ofensivas a serem continuadas com a visão de capturar o importante centro de comunicações e armamentos de Moscou.

Apenas um inesperadamente rápido colapso da resistência russa deveria justificar a busca simultânea de ambos os objetivos.

O Grupo de Exército disposto ao sul dos Pântanos Pripet deve formar seu centro de gravidade na área de Lublin na direção geral de Kiev, em ordem para avançar rapidamente com robustas forças blindadas (Panzer) no profundo flanco e retaguarda das forças russas e rolar ao longo do Dnieper.

Uma vez que as batalhas ao sul e ao norte dos Pântanos Pripet terem sido lutadas os seguintes objetivos devem ser almejados no curso da ocupação:

No sul a captura da Bacia do Donets logo no início, Bacia que é importante para a economia de guerra.

No norte a rápida conquista de Moscou.

A captura desta cidade representará um decisivo sucesso político e econômico, e além disso significará a eliminação de um importante centro ferroviário.



(Assinado) Adolf Hitler




trad. Leonardo de Magalhaens


fonte: CARELL, Paul. “Hitler Moves East. 1941-1943. trad. de 'Unternehmen Barbarossa' by Ewald Osers Berlim, 1963. trad. inglesa , Boston, London, G. Harrap & Co. Ltda , 1964.

pp. 19-20
original em alemão



...


links

videos sobre a Operação Barbarossa

(alemão)

(russo)

(english, USA)



seleção de textos: LdeM

.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Caçada ao Bismarck - Batalha do Atlântico



Caçada ao Bismarck



O Bismarck

“O orgulho da construção naval militar alemã é o couraçado Bismarck. Esse colosso do mar de 51.000 toneladas, munido de oito canhões de 380 mm e 19 peças de artilharia de 152 mm, capaz de desenvolver uma velocidade de 20 nós, deixa o porto de Gdynia no Báltico no dia 18 de maio de 1941, sob o comando do capitão-de-fragata Ernst Lindemann, para alcançar as águas do Atlântico norte junto com o cruzador pesado Prinz Eugen (18.000 toneladas), sob as ordens do capitão Brinkmann. O objetivo da missão é deixar em sério perigo as frotas aliadas com uma ação corsária. O almirante Gunther Lütjens é o comandante geral da formação. Os ingleses, alertados pelas mensagens de seus informantes, intensificam o reconhecimento aéreo na zona do mar do Norte. A Home Fleet mobiliza suas forças ao máximo: no dia 21 de maio as duas unidades alemãs são avistadas por aviões de reconhecimento ingleses no porto de Bergen, na costa norueguesa. No dia seguinte, parte da base escocesa de Scapa Flow uma armada sob o comado do almirante John Tovey, composta de dois couraçados (o King George V e o flamante Prince of Wales), os cruzadores de batalha Hood e Repulse, o porta-aviões Victorious, os cruzadores pesados Norfolk e Suffolk e seis destroieres.

Nevoeiro, chuvisco e mar revolto farão a moldura atmosférica de uma das mais memoráveis batalhas navais do conflito. No dia 23 de maio as duas unidades alemãs são avistadas pelo cruzador Suffolk. No dia seguinte, as duas joias da Kriegsmarine abrem fogo contra o Prince of Wales e o Hood, que, chegando perto dos navios inimigos, deram início à batalha. Uma granada de 381 mm do Bismarck acerta em cheio o Hood, que, após uma gigantesca explosão, se parte em dois e vai a pique em poucos minutos. Dos 1.415 homens da tripulação salvam-se apenas três. O Prince of Wales abandona o combate e se retira; o mesmo faz o Prinz Eugen, que conseguirá alcançar a base de Brest. Depois de desaparecer misteriosamente dos radares ingleses, o Bismarck é avistado novamente no dia 26 de maio por um hidroavião inglês. Aviões torpedeiros levantam voo do porta-aviões Ark Royal. Nas poucas horas antes que o couraçado alemão alcance o guarda-chuva protetor da aviação do Reich baseada na França, seu destino é selado. Ao entardecer, antes que o Bismarck alcance o braço de mar que dá acesso ao ancoradouros de Brest na costa francesa, um torpedo atinge seu leme. Às 8h47 da manhã do dia 27 de maio, o Bismarck é alvo do fogo concentrado das unidades navais inglesas, que o reduzem a destroços.

Duas horas depois, o Bismarck afunda. Dos cerca de 2.300 homens da tripulação, apenas 110 são salvos. Com a destruição da joia da Kriegsmarine, conclui-se uma das mais longas batalhas navais do conflito. Doravante o peso da guerra naval no Atlântico norte será sustentado quase exclusivamente pela frota de submarinos de Karl Dönitz.”

(p. 95)

fonte: FIORANI, Flavio. História Ilustrada da II Guerra Mundial. Vol. 1. SP: Larousse, 2009.


...


“Em maio, o couraçado Bismarck comandado pelo almirante Gunther Lutjens, adentrou pelo Atlântico para saquear um navio Aliado. O Almirante inglês rapidamente reuniu seus mais poderosos couraçados para atacar o Bismarck. Saindo da costa sul da Islândia em 24 de maio, o mais poderoso navio na missão, o Hood, acompanhado pelo novo couraçado Prince de Wales, estava pronto para atacar o Bismarck. Os oponentes abriram fogo em um alcance de mais de 22 km. Quase imediatamente, uma bala alemã abriu um buraco na frágil blindagem do deque do Hood – detonado como um rastro de pólvora. A explosão que se seguiu fez o Hood se partir em dois, matando, com exceção de 3, todos os 1.400 tripulantes do navio. O Prince of Wales, também danificado, interrompeu a batalha. A perda do Hood surpreendeu os ingleses, e o Bismarck parecia pronto para sair desenfreado pelo Atlântico.

O Bismarck, no entanto, também tinha sido danificado na batalha e teve que seguir para a costa francesa em velocidade reduzida, esperando abrir distância de qualquer perseguidor inglês. Na tarde de 26 de maio, um ultrapassado torpedeiro britânico Swordfish biplano, levantando voo do porta-aviões Ark Royal, atacou o Bismarck, atingindo seu leme. Resistindo a todos os esforços de controle, o navio alemão só conseguiu navegar em largos círculos enquanto a poderosa Marinha Real se aproximava para o ataque fatal.

No dia seguinte, os couraçados ingleses Rodney e King George V atacaram o Bismarck até tudo o que restasse dele fosse o casco em chamas. Finalmente, o navio afundou entre as ondas, e de sua tripulação de 2.000 homens apenas 110 sobreviveram. Os destroços da Batalha do Atlântico pertenceriam aos U-boats [submarinos alemães].”


(pp. 56-57)

fonte: JORDAN, David. Atlas da II Guerra Mundial.
Alemanha versus Inglaterra. Volume I de III.
São Paulo: Escala, 2008.



mais sobre a Batalha do Estreito da Dinamarca
maio 1941


sobre o Bismarck


videos



movie Sink the Bismarck (1960)

 ...


Sobre a Batalha do Atlântico


Submarinos alemães contra navios mercantes dos Aliados


“Em 1941, os alemães ainda não tinham o número  de U-boats necessário para exigir controle do Atlântico. Além disso, melhorias na organização de comboios ingleses e o advento de um novo tipo de navio de escolta, a corveta, cuja produção era muito mais rápida, significavam que os próprios comboios eram bem mais protegidos. O crescente envolvimento do Canadá e dos EUA na guerra submarina também fortaleceu ainda mais o sistema de comboio inglês.

Em junho de 1941, os comboios já recebiam proteção por toda a jornada pelo Atlântico, e em setembro as forças norte-americanas se envolveram em uma guerra 'secreta' pelo Atlântico contra os U-boats, atacando todos os submarinos alemães que encontrassem, apesar de sua suposta neutralidade. Dessa forma, os U-boats alemães tinham que buscar suas presas cada vez mais longe para evitar destruição. A área de operação mais comum para os comandantes dos U-boats era o chamado 'intervalo do meio Atlântico'. Lá, fora do alcance da cobertura aérea aliada, os U-boats tinham seus maiores sucessos. Os submarinos alemães também encontraram um bom ponto de perseguição na longa costa oeste da África, perseguindo os comboios ingleses de Serra Leoa.”

p. 56

fonte: JORDAN, David. Atlas da II Guerra Mundial.
Alemanha versus Inglaterra. Volume I de III.
São Paulo: Escala, 2008.


...

Os U-Boats de Dönitz

“Karl Dönitz, almirante no comando da frota submersível alemã, é o principal artífice da estratégia voltada a estrangular a economia inglesa, interrompendo o fluxo de suprimentos pelas rotas do Atlântico. Sua frota de U-Boats (abreviatura em alemão de Unterseeboot) é o inimigo principal dos comboios americanos em rota para as costas inglesas. Em setembro de 1939, a frota de submersíveis alemães é de 57 unidades, passando a 140 em julho de 1942. seus ataques aos navios aliados atingem a intensidade máxima no inverno de 1942-43. operando tanto em latitudes árticas (contra navios que se dirigem aos portos da Rússia setentrional) como no Atlântico norte (partindo das bases francesas e norueguesas), os U-Boats do tipo IX (com autonomia de 20.000 km) se movem em 'bando'. Recebendo ordens de terra, concentram-se em áreas específicas do oceano e infligem pesadas perdas aos navios mercantes e às unidades de escolta. Os 'bandos' lançam, de preferência a contravento, ataques noturnos em imersão para explorar a maior velocidade dos submarinos em relação à das unidades de escolta. Sua ação na superfície será progressivamente ameaçada pela aviação aliada e pelas unidades especiais antissubmersíveis que se valem de tecnologias avançadas (incluindo o asdic, antecessor do sonar, capaz de detectar os submarinos em imersão e cargas em profundidade). A guerra submarina sofre uma reviravolta quando os aliados descobrem a chave de decodificação de Enigma, o que permitirá desviar muitos dos navios para longe das zonas de operação das 'alcateias de lobos'.

p. 96


fonte: FIORANI, Flavio. História Ilustrada da II Guerra Mundial. Vol. 1. SP: Larousse, 2009.



na Wikipedia


videos




auf Deutsch (nazi propaganda)


(nota: mais sobre a propaganda nazista em



….

seleção de textos: LdeM

.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Batalha de Creta (Operation Mercury)

 


Batalha de Creta

(Luftlandeschlacht um Kreta / Battle of Crete)

20/21 maio

Unternehmen Merkur / "Operation Mercury"


Após o rápido avanço sobre a península da Grécia a partir da Iugoslávia e da Bulgária, as forças alemãs forçaram as forças britânicas a recurarem rumo ao sul, rumo a ilha de Creta. O reduzido território cretense tornou-se assim um novo ponto de retirada, uma nova Dunkirk.

Mas as forças alemãs em breve passariam a ocupar – via ataques aéreos – as áreas da ilha, isolando as forças britânicas em algumas cidades e aldeias da área litorânea. Combates entre paraquedistas alemães e tropas britânicas se registravam por toda a ilha.

Baixas consideráveis de lado a lado, com maior proporção para as baixas dos paraquedistas alemães – tanto que as operações aero-transportadas foram evitadas em outros momentos do conflito mundial.



Vejamos uma fonte italiana.


O Salto Aéreo sobre Creta

“A paternidade do Sprung nach Kreta, ou salto sobre Creta, é do general Kurt Student, veterano da aviação da Primeira Guerra Mundial. A primeira das operações aerotransportadas alemãs do segundo conflito mundial deve consolidar as conquistas do Eixo nos Balcãs, culminando na tomada de Atenas no dia 27 de abril de 1941. em 20 de maio o lançamento de paraquedistas alemães colhe de surpresa os cerca de 35.000 efetivos da guarnição inglesa na ilha (coadjuvados por duas divisões gregas), comandados pelo general Bernard Freyberg. O sucesso dessa inédita variante da Blitzkrieg – os ingleses julgam impensável que o inimigo esteja em condições de conquistar Creta sem o controle do mar – se deve à combinação de dois elementos: o bombardeio aéreo dos aeroportos seguido da chegada dos paraquedistas. Embora Freyberg tenha sido informado da operação alemã e peça reforços, os comandos ingleses negam-lhe qualquer ajuda para não comprometer o segredo de Ultra, código com o qual foram decifradas as mensagens que os alemães trocaram entre si para aperfeiçoar os detalhes do ataque. De outro lado, Freyberg só dispõe de seis tanques e de poucos aviões que não estão em condições de interceptar as tropas aerotransportadas que chegam em planadores e aviões de transporte.

Depois de dez dias de domínio dos céus por parte da Luftwaffe – que torna inútil toda possibilidade de intervenção da Royal Navy (três cruzadores e seis caça-torpedeiros afundados), e apesar das graves perdas alemãs, Student garante a vitória na batalha. Os aeroportos de Maleme e Retimo, no norte da ilha, logo caem em mãos dos alemães. Os ingleses contam cerca de 3.000 entre mortos e feridos, 18.000 soldados são evacuados no curso de operações em que a aviação alemã destrói considerável quantidade de navios britânicos e 12.000 são feitos prisioneiros. Creta é um brilhante sucesso para os estrategistas alemães, e a bandeira do Reich tremula em uma zona estrategicamente vital para a frota naval britânica, que perde assim o controle do mar Egeu. A conquista da ilha, realizada com uma operação conduzida exclusivamente pelo ar, permanece uma das mais audazes empresas militares de todo o conflito. Mas o elevado número das perdas (cerca de 4.000 mortos e outros tantos feridos) dissuadirá os alemãs de empreender novas ações aerotransportadas semelhantes em território inimigo. Pouco depois inicia-se, nas montanhas da ilha, a resistência dos guerrilheiros gregos, ajudados por alguns sobreviventes ingleses. Os alemãs abandonarão a ilha em 1944.”


(p. 93)

fonte: FIORANI, Flavio. História Ilustrada da II Guerra Mundial. Vol. 1. SP: Larousse, 2009.


...



link para o livro de Anthony Beevor
sobre a Batalha de Creta



na Wikipedia


fotos


.

videos



(em idioma grego)

sobre os soldados da Commonwealth
(New Zealand movie)

(auf Deutsch)(nazi-propaganda)


(nota: mais sobre a propaganda nazista em



LdeM

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O voo de Rudolf Hess rumo à Grã-Bretanha




O voo de Hess



As negociações – explícitas e nos bastidores – entre as autoridades nazistas e o novo governo (e os não-mais-governo, o grupo dos 'apaziguadores') estão ainda para serem completamente desveladas e elucidadas. Ainda mais se confiarmos nas suposições de entrelinhas de um jornalista, historiador amador, tal como Louis Kilzer, autor de “A Farsa de Churchill” (The Churchill's Deception, 1994).

Segundo Kilzer, os bastidores da História são mais surpreendentes e bizarros do que a História oficial, aquela escrita pelos vencedores. Aliás, vencedores que nunca declaram, revelam tudo. Há muita informação não-autorizada, não veiculada oficialmente. Daí dizer-se 'os bastidores', onde realmente ocorrem as decisões que depois serão formalizadas para 'constar nas atas'.

A começar pela campanha da Wehrmacht na Europa Ocidental em maio e junho de 1940, quando os belgas, os holandeses e os franceses foram derrotados, e os britânicos expulsos do continente – vide a Retirada em Dunkirk (Dunkerque). Nesse momento, o Führer ainda desejava 'negociar' com os britânicos – e assim 'parar' o conflito, ao menos no Ocidente. O objetivo de Hitler era 'neutralizar' a Grã-Bretanha, não 'derrotá-la'. O ditador preferia ter uma aliada do que uma inimiga. (Mas que governo britânico aceitaria uma hegemonia alemã na Europa?)

Assim se explicaria o 'Halt!', a parada das forças blindadas antes de chegarem até a cidade de Dunkirk em 24 de maio de 1940. Enquanto os generais insistiam em aniquilar as forças britânicas encurraladas no litoral, o ditador nazista mandou parar a ofensiva – por algumas horas – alegando necessidade de reduzir a lacuna entre blindados e infantaria, ou então o terreno instável para o avanço dos panzers. Outras fontes alegam que o Führer tenha ficado surpreso com a rapidez do avanço, e começou a suspeitar que 'tudo estava fácil demais', e que poderia estender demasiadamente as colunas e assim expor os flancos aos ataques inimigos.

Já o vencedor Churchill (em suas Memórias da II Guerra Mundial) alega que o 'milagre de Dunkirk' não foi obra de Hitler – que teria deixado os britânicos escaparem simplesmente – mas devido aos esforços da RAF que enfrentou as forças da Luftwaffe de Goering, a verdadeira encarregada de arrasar os que se retiravam, e possibilitou assim a evasão das tropas britânicas (e também francesas) entre os dias 26 de maio e 04 de junho.

“Se bem que fosse um total mistério, na época – e para muitos ainda permaneça assim – a ordem de parar em Dunquerque não foi nenhum mistério para os confederados mais próximos de Hitler. Para aqueles, como Hess, era apenas uma extensão racional de sua obsessão peculiar – a mesma que ele tinha desde 1923, quando Karl Haushofer foi posto na prisão de Landsberg. Era elementar: Hitler queria preservar, e não destruir, a Grã-Bretanha. Ele estava lutando sua guerra paradoxal com esse intento.

Cursos d'água, ou estradas, ou medo do flanco sul, tudo poderia ter motivado Hitler ao mandar deterem os tanques. Mas no final das contas nada poderia desculpar a loucura militar de sua ação. Ele tinha deixado escapar o inimigo, que poderia ser derrotado com um mínimo de esforço.

Se há lógica, ela deve vir de uma formulação mais simples. Pois, por mais que desculpasse ou racionalizasse sua ordem, Hitler deixou que as forças inglesas escapassem porque ele – feitas todas as contas – não as via ainda como inimigas. De fato, não podia vê-las como tal, e jamais veria assim. Os ingleses eram nórdicos. Deveriam ser aliados.”


fonte: KILZER, Louis. A Farsa de Churchill. RJ, Revan. p. 245


para relembrar o 'milagre de Dunquerque'


É possível encontrar explicações variadas sobre o mesmo evento. Constituem-se assim as 'correntes historiográficas', segundo já abordamos antes (ver abaixo os links), nas quais as interpretações se sobrepõem aos eventos oficialmente descritos na didática de História. Os bastidores das batalhas, e das decisões políticas, não são 'apresentados' em sala de aula, ou em livros didáticos. Temos a História simplificada dos manuais.


Temos o evento e suas interpretações. Por exemplo, o milagre de Dunquerque. Aconteceu, foi registrado. Mas por que? Por que Hitler deixou os britânicos se evadirem? Para poder negociar em seguida? O ditador nazista contava com um enérgico Winston Churchill? Ou o 'milagre' aconteceu por que os aviadores britânicos resistiram aos ataques da Luftwaffe? Afinal são as duas versões mais veiculadas. A primeira – uma ajudinha de Hitler – favorecia os interesses alemães, enquanto a segunda – o sucesso da Operação Dínamo – encheu de orgulho os derrotados britânicos de volta para casa.


As versões simplesmente servem a um ou outro interesse. Cabe ao historiador chegar a uma versão mais 'confiável', mais embasada em provas – documentos ou testemunhos – que estejam além dos interesses de uma parte ou outra. O que é difícil – como ser imparcial? Portanto, temos de conviver com as 'versões'.


Afinal, A/ Hitler sempre desejou invadir a URSS. Mas ele não conseguiu acordo com as potências (França e Grã-Bretanha) e daí invadiu a Europa Ocidental em 1940, para neutralizar o inimigos. B/ Hitler sempre quis dominar o mundo, daí lutar ora contra França e Grã-Bretanha, ora contra URSS (e depois EUA). C/ Hitler quis apoio – ou neutralidade – da Grã-Bretanha para poder invadir a URSS – mas quando não conseguiu, então proclamou a 'guerra total' – e logo 'mundial' – que levou o ditador aos extremos da 'guerra de extermínio' e ao 'holocausto'.

Aqui, a versão C tem aspectos das versões A e B – no argumento seguinte: Hitler não conseguiu acordo com as potências ocidentais, logo radicalizou. Assim, muitos neonazistas insistem que Hitler foi levado até as últimas consequências, enquanto o o ditador teria desejado 'parar' a guerra ainda em 1940. enquanto comunistas alegam que os capitalistas ocidentais fizeram de tudo para desviar as forças nazistas contra o 'país dos proletários', a URSS.

Em caso de negociações, o III Reich teria desocupado os países ocidentais, e em seguida se dirigido para o leste. Aliás, era um movimento útil aos britânicos sob ataque: desviar a violência nazista para as estepes russas. Tanto que Stálin sempre desconfiou do 'jogo duplo' das potências ocidentais: apaziguamento com Hitler até que o Führer 'fugiu ao controle'.

Para resistir aos nazistas, os Aliados – por enquanto os britânicos – passaram a imitar métodos nazistas (com centralização, militarização, campos de concentração, serviços secretos, comandos de leite, etc), enquanto os nazistas passavam a usar as negociações de 'bastidores' - antes no currículo dos ocidentais. A Conferência de Munique seria um exemplo explícito disso: como negociar e garantir os próprios interesses. Assim a Tchecoslováquia foi sacrificada em 1938-39.


Hess: mensageiro da paz?


A imagem do demente Rudolf Hess nos julgamentos em Nuremberg, depois da guerra, é a de um insensato fanático que 'faria tudo de novo' pela 'honra' da Alemanha. Ele se dizia orgulhoso de haver trabalhado ao lado do 'grande líder' e não se arrependia. Sua missão seria evitar uma guerra entre os povos nórdicos e uni-los contra a 'bolchevização' da Europa, e do mundo.

Assim, sendo uma espécie de mártir para os neonazistas, Hess foi elevado a categoria de 'mensageiro da paz' de um regime militarista, quando as versões da suposta negociação com os britânicos foram desveladas. Hess teria agido com a aprovação do Führer para apaziguar os ânimos entre os nórdicos alemães e britânicos. Os critérios raciais para um racista estavam acima de um histórico de interesses controversos – entendia ele de geopolítica? Quando a Grã-Bretanha aceitaria uma hegemonia alemã na Europa?

Com a aprovação de Hitler, sim. Mesmo quando a primeira coisa que o líder nazista fez foi declarar a insanidade de Hess quando o voo se revelou um fracasso. Os britânicos aprisionaram Hess e foi como prisioneiro que o vice-Führer encontrou a morte um quarto de século depois.

Hess – e Hitler – precisavam afastar o enérgico e belicoso Churchill do poder. Somente assim poderiam negociar com um suposto 'Partido da paz' que seria uma alternativa ao Primeiro-Ministro Lord-da-Guerra. (É aquela imagem de Churchill que encontramos nos livros de John Lukacs e Ronald Lewin. Um Churchill que não negocia com nazistas.) Um 'partido da paz'? Sim, conservadores que poderiam voltar a 'política do apaziguamento' de 1938-1939. E assim Hitler se ocuparia apenas da 'frente leste' (já em planejamento, datada para o início de 1941, e adiada duas vezes).


“Segundo um relato, desde outubro de 1940, Adolf Hitler e Rudolf Hess haviam estabelecido como alvo a Escócia, um grande lance para trazer uma paz anglo-germânica de forma que Hitler pudesse invadir a União Soviética. Os dois haviam mesmo preparado uma história para disfarçar, se a missão saísse errada. “Nesse caso improvável” diz-se que Hess falou, “você poderia declarar publicamente que não tinha conhecimento das minhas intenções e podia me denunciar como um traidor da causa Nacional Socialismo.” (A Farsa de Churchill, p. 309)


A propriedade rural, na Escócia, para a qual rumava o aeroplano pilotado por Hess, era pertencente ao Duque de Hamilton, um conservador, oficial na força aérea, com contatos nos círculos de poder alternativos a Churchill. Assim, justamente assim Hess e Hitler acreditaram. Pois era assim que eles deviam ver o tal 'partido da paz'. Partido Que não passaria de uma 'farsa' de Churchill para atrair os nazistas, evitar um embate direto, e melhor ainda, desviá-los para a Rússia.

Exatamente no momento em que as forças britânicas eram expulsas de todo o continente europeu (vide as derrotas na Grécia) e também no norte da África, havia a possibilidade de uma 'negociação' intermediada pelo vice-Führer em pessoa. Bastava continuar a farsa – como se o oficial Duque de Hamilton fosse mesmo um contato forte dos anti-Churchill – e assim atrair Hess para um 'conversa' na Escócia.

Enquanto continuava a bombardear a Grã-Bretanha, dia após dia, Hitler ainda esperava um acordo com os britânicos ? Ou tudo não passava de um disfarce para os preparativos de guerra contra os soviéticos? (Afinal, eram três jogadores: ao líder russo era agradável assistir ao conflito anglo-germânico, assim como seria do interesse do primeiro-ministro um embate sangrento entre III Reich e URSS. Apenas quando Hitler não venceu Stálin, em fins de 1941, é que Churchill se interessou em manter o Exército Vermelho na luta, para afastar os alemães dos territórios e interesses britânicos )

“Como sempre, os generais de Hitler não sabiam precisamente o que estava acontecendo. No fim de novembro de 1940, [o general] Halder escreveu: “É animador ver que o Führer esteja de novo se tornando interessado na operação Leão Marinho.” Em 5 de dezembro, era a operação Otto, logo rebatizada como Barbarossa, que era a primeira. A Leão Marinho, instruiu Hitler a seus generais, podia “ser deixada fora de consideração”. No dia 13, Halder sublinhou essa passagem em seu diário, depois de ouvir de Hitler: Nós não estamos procurando um conflito com a Rússia.” Cinco dias mais tarde, ele despachou a Diretriz nº 21, especificando que o próximo conflito seria com a Rússia. Entretanto, no mesmo dia ele mesclou essa decisão com uma extenuante necessidade de paz com a Grã-Bretanha. Escreveu Halder: “Ele (Hitler) está sempre pensando em fazer a paz com a Inglaterra à expensas da França.” (A Farsa de Churchill, p. 311)



E Josef Stálin? O que sabia do futuro conflito com os alemães? Afinal, o Secretário-Geral esperava a derrota da Grã-Bretanha. E sobretudo adiar qualquer ameaça nazista. Assim, enquanto esperava a invasão alemã do Egito, e do Oriente Médio – fonte de petróleo ! - o ditador russo aceitava todo informe sobre animosidades alemãs como um 'truque' dos ocidentais.

Enquanto isso, o desejo de Churchill era empurrar os alemães para as estepes russas. Uma mútua aniquilação num combate russo-germânico era plenamente cabível aos interesses britânicos. Mas todo esse desejo por uma guerra no Leste deveria ser camuflado, ainda mais depois de dezembro de 1941, quando os alemães foram detidos diante de Moscou, e os russos provaram que podiam resistir – daí o movimento de Churchill – e do presidente Roosevelt – em se colocar 'ao lado' dos russos, como veremos.

Kilzer lembra da hesitação de Churchill em abrir uma segunda frente na Europa – para assim auxiliar os russos que sofriam todo o peso bélico da Wehrmacht – o que soaria como um 'colaboracionismo' – enquanto no livro de Lewin (“Churchill – O Lord da Guerra” ) há todo um esforço para explicar as ações 'hesitantes' do primeiro-ministro como se fossem 'prudência' e 'senso estratégico'. A demora dos Aliados em abrir uma 'segunda frente' foi o motivo que confirmaria as desconfianças de Stálin que, logo após a derrota dos nazistas, se voltaria contra as potências ocidentais na chamada “Guerra Fria”.

Encontramos muitos destes argumentos em textos de revisionistas, de neo-nazistas e de comunistas – onde Churchill é visto como um político 'hesitante', quando não um 'negociante', um 'jogador de jogo duplo', um anticomunista numa aliança bizarra - sendo que todos diferem da versão oficial: a de que Hitler queria dominar o mundo e que encontrou pela frente a determinação de um líder carismático que o suplantou, o Lord da guerra Winston Churchill, que contou com o apoio bélico do 'arsenal da democracia', os Estados Unidos da América. Afinal, os vencedores escrevem a História.



Mai/11


Por Leonardo de Magalhaens

 .

mais sobre as 'correntes historiográficas'

 .
mais sobre o caso Hess


num site neonazista (onde Hess é um pacifista!)

.

videos


(documentário inglês, mas postado por neonazista)


.