quinta-feira, 12 de maio de 2011

O voo de Rudolf Hess rumo à Grã-Bretanha




O voo de Hess



As negociações – explícitas e nos bastidores – entre as autoridades nazistas e o novo governo (e os não-mais-governo, o grupo dos 'apaziguadores') estão ainda para serem completamente desveladas e elucidadas. Ainda mais se confiarmos nas suposições de entrelinhas de um jornalista, historiador amador, tal como Louis Kilzer, autor de “A Farsa de Churchill” (The Churchill's Deception, 1994).

Segundo Kilzer, os bastidores da História são mais surpreendentes e bizarros do que a História oficial, aquela escrita pelos vencedores. Aliás, vencedores que nunca declaram, revelam tudo. Há muita informação não-autorizada, não veiculada oficialmente. Daí dizer-se 'os bastidores', onde realmente ocorrem as decisões que depois serão formalizadas para 'constar nas atas'.

A começar pela campanha da Wehrmacht na Europa Ocidental em maio e junho de 1940, quando os belgas, os holandeses e os franceses foram derrotados, e os britânicos expulsos do continente – vide a Retirada em Dunkirk (Dunkerque). Nesse momento, o Führer ainda desejava 'negociar' com os britânicos – e assim 'parar' o conflito, ao menos no Ocidente. O objetivo de Hitler era 'neutralizar' a Grã-Bretanha, não 'derrotá-la'. O ditador preferia ter uma aliada do que uma inimiga. (Mas que governo britânico aceitaria uma hegemonia alemã na Europa?)

Assim se explicaria o 'Halt!', a parada das forças blindadas antes de chegarem até a cidade de Dunkirk em 24 de maio de 1940. Enquanto os generais insistiam em aniquilar as forças britânicas encurraladas no litoral, o ditador nazista mandou parar a ofensiva – por algumas horas – alegando necessidade de reduzir a lacuna entre blindados e infantaria, ou então o terreno instável para o avanço dos panzers. Outras fontes alegam que o Führer tenha ficado surpreso com a rapidez do avanço, e começou a suspeitar que 'tudo estava fácil demais', e que poderia estender demasiadamente as colunas e assim expor os flancos aos ataques inimigos.

Já o vencedor Churchill (em suas Memórias da II Guerra Mundial) alega que o 'milagre de Dunkirk' não foi obra de Hitler – que teria deixado os britânicos escaparem simplesmente – mas devido aos esforços da RAF que enfrentou as forças da Luftwaffe de Goering, a verdadeira encarregada de arrasar os que se retiravam, e possibilitou assim a evasão das tropas britânicas (e também francesas) entre os dias 26 de maio e 04 de junho.

“Se bem que fosse um total mistério, na época – e para muitos ainda permaneça assim – a ordem de parar em Dunquerque não foi nenhum mistério para os confederados mais próximos de Hitler. Para aqueles, como Hess, era apenas uma extensão racional de sua obsessão peculiar – a mesma que ele tinha desde 1923, quando Karl Haushofer foi posto na prisão de Landsberg. Era elementar: Hitler queria preservar, e não destruir, a Grã-Bretanha. Ele estava lutando sua guerra paradoxal com esse intento.

Cursos d'água, ou estradas, ou medo do flanco sul, tudo poderia ter motivado Hitler ao mandar deterem os tanques. Mas no final das contas nada poderia desculpar a loucura militar de sua ação. Ele tinha deixado escapar o inimigo, que poderia ser derrotado com um mínimo de esforço.

Se há lógica, ela deve vir de uma formulação mais simples. Pois, por mais que desculpasse ou racionalizasse sua ordem, Hitler deixou que as forças inglesas escapassem porque ele – feitas todas as contas – não as via ainda como inimigas. De fato, não podia vê-las como tal, e jamais veria assim. Os ingleses eram nórdicos. Deveriam ser aliados.”


fonte: KILZER, Louis. A Farsa de Churchill. RJ, Revan. p. 245


para relembrar o 'milagre de Dunquerque'


É possível encontrar explicações variadas sobre o mesmo evento. Constituem-se assim as 'correntes historiográficas', segundo já abordamos antes (ver abaixo os links), nas quais as interpretações se sobrepõem aos eventos oficialmente descritos na didática de História. Os bastidores das batalhas, e das decisões políticas, não são 'apresentados' em sala de aula, ou em livros didáticos. Temos a História simplificada dos manuais.


Temos o evento e suas interpretações. Por exemplo, o milagre de Dunquerque. Aconteceu, foi registrado. Mas por que? Por que Hitler deixou os britânicos se evadirem? Para poder negociar em seguida? O ditador nazista contava com um enérgico Winston Churchill? Ou o 'milagre' aconteceu por que os aviadores britânicos resistiram aos ataques da Luftwaffe? Afinal são as duas versões mais veiculadas. A primeira – uma ajudinha de Hitler – favorecia os interesses alemães, enquanto a segunda – o sucesso da Operação Dínamo – encheu de orgulho os derrotados britânicos de volta para casa.


As versões simplesmente servem a um ou outro interesse. Cabe ao historiador chegar a uma versão mais 'confiável', mais embasada em provas – documentos ou testemunhos – que estejam além dos interesses de uma parte ou outra. O que é difícil – como ser imparcial? Portanto, temos de conviver com as 'versões'.


Afinal, A/ Hitler sempre desejou invadir a URSS. Mas ele não conseguiu acordo com as potências (França e Grã-Bretanha) e daí invadiu a Europa Ocidental em 1940, para neutralizar o inimigos. B/ Hitler sempre quis dominar o mundo, daí lutar ora contra França e Grã-Bretanha, ora contra URSS (e depois EUA). C/ Hitler quis apoio – ou neutralidade – da Grã-Bretanha para poder invadir a URSS – mas quando não conseguiu, então proclamou a 'guerra total' – e logo 'mundial' – que levou o ditador aos extremos da 'guerra de extermínio' e ao 'holocausto'.

Aqui, a versão C tem aspectos das versões A e B – no argumento seguinte: Hitler não conseguiu acordo com as potências ocidentais, logo radicalizou. Assim, muitos neonazistas insistem que Hitler foi levado até as últimas consequências, enquanto o o ditador teria desejado 'parar' a guerra ainda em 1940. enquanto comunistas alegam que os capitalistas ocidentais fizeram de tudo para desviar as forças nazistas contra o 'país dos proletários', a URSS.

Em caso de negociações, o III Reich teria desocupado os países ocidentais, e em seguida se dirigido para o leste. Aliás, era um movimento útil aos britânicos sob ataque: desviar a violência nazista para as estepes russas. Tanto que Stálin sempre desconfiou do 'jogo duplo' das potências ocidentais: apaziguamento com Hitler até que o Führer 'fugiu ao controle'.

Para resistir aos nazistas, os Aliados – por enquanto os britânicos – passaram a imitar métodos nazistas (com centralização, militarização, campos de concentração, serviços secretos, comandos de leite, etc), enquanto os nazistas passavam a usar as negociações de 'bastidores' - antes no currículo dos ocidentais. A Conferência de Munique seria um exemplo explícito disso: como negociar e garantir os próprios interesses. Assim a Tchecoslováquia foi sacrificada em 1938-39.


Hess: mensageiro da paz?


A imagem do demente Rudolf Hess nos julgamentos em Nuremberg, depois da guerra, é a de um insensato fanático que 'faria tudo de novo' pela 'honra' da Alemanha. Ele se dizia orgulhoso de haver trabalhado ao lado do 'grande líder' e não se arrependia. Sua missão seria evitar uma guerra entre os povos nórdicos e uni-los contra a 'bolchevização' da Europa, e do mundo.

Assim, sendo uma espécie de mártir para os neonazistas, Hess foi elevado a categoria de 'mensageiro da paz' de um regime militarista, quando as versões da suposta negociação com os britânicos foram desveladas. Hess teria agido com a aprovação do Führer para apaziguar os ânimos entre os nórdicos alemães e britânicos. Os critérios raciais para um racista estavam acima de um histórico de interesses controversos – entendia ele de geopolítica? Quando a Grã-Bretanha aceitaria uma hegemonia alemã na Europa?

Com a aprovação de Hitler, sim. Mesmo quando a primeira coisa que o líder nazista fez foi declarar a insanidade de Hess quando o voo se revelou um fracasso. Os britânicos aprisionaram Hess e foi como prisioneiro que o vice-Führer encontrou a morte um quarto de século depois.

Hess – e Hitler – precisavam afastar o enérgico e belicoso Churchill do poder. Somente assim poderiam negociar com um suposto 'Partido da paz' que seria uma alternativa ao Primeiro-Ministro Lord-da-Guerra. (É aquela imagem de Churchill que encontramos nos livros de John Lukacs e Ronald Lewin. Um Churchill que não negocia com nazistas.) Um 'partido da paz'? Sim, conservadores que poderiam voltar a 'política do apaziguamento' de 1938-1939. E assim Hitler se ocuparia apenas da 'frente leste' (já em planejamento, datada para o início de 1941, e adiada duas vezes).


“Segundo um relato, desde outubro de 1940, Adolf Hitler e Rudolf Hess haviam estabelecido como alvo a Escócia, um grande lance para trazer uma paz anglo-germânica de forma que Hitler pudesse invadir a União Soviética. Os dois haviam mesmo preparado uma história para disfarçar, se a missão saísse errada. “Nesse caso improvável” diz-se que Hess falou, “você poderia declarar publicamente que não tinha conhecimento das minhas intenções e podia me denunciar como um traidor da causa Nacional Socialismo.” (A Farsa de Churchill, p. 309)


A propriedade rural, na Escócia, para a qual rumava o aeroplano pilotado por Hess, era pertencente ao Duque de Hamilton, um conservador, oficial na força aérea, com contatos nos círculos de poder alternativos a Churchill. Assim, justamente assim Hess e Hitler acreditaram. Pois era assim que eles deviam ver o tal 'partido da paz'. Partido Que não passaria de uma 'farsa' de Churchill para atrair os nazistas, evitar um embate direto, e melhor ainda, desviá-los para a Rússia.

Exatamente no momento em que as forças britânicas eram expulsas de todo o continente europeu (vide as derrotas na Grécia) e também no norte da África, havia a possibilidade de uma 'negociação' intermediada pelo vice-Führer em pessoa. Bastava continuar a farsa – como se o oficial Duque de Hamilton fosse mesmo um contato forte dos anti-Churchill – e assim atrair Hess para um 'conversa' na Escócia.

Enquanto continuava a bombardear a Grã-Bretanha, dia após dia, Hitler ainda esperava um acordo com os britânicos ? Ou tudo não passava de um disfarce para os preparativos de guerra contra os soviéticos? (Afinal, eram três jogadores: ao líder russo era agradável assistir ao conflito anglo-germânico, assim como seria do interesse do primeiro-ministro um embate sangrento entre III Reich e URSS. Apenas quando Hitler não venceu Stálin, em fins de 1941, é que Churchill se interessou em manter o Exército Vermelho na luta, para afastar os alemães dos territórios e interesses britânicos )

“Como sempre, os generais de Hitler não sabiam precisamente o que estava acontecendo. No fim de novembro de 1940, [o general] Halder escreveu: “É animador ver que o Führer esteja de novo se tornando interessado na operação Leão Marinho.” Em 5 de dezembro, era a operação Otto, logo rebatizada como Barbarossa, que era a primeira. A Leão Marinho, instruiu Hitler a seus generais, podia “ser deixada fora de consideração”. No dia 13, Halder sublinhou essa passagem em seu diário, depois de ouvir de Hitler: Nós não estamos procurando um conflito com a Rússia.” Cinco dias mais tarde, ele despachou a Diretriz nº 21, especificando que o próximo conflito seria com a Rússia. Entretanto, no mesmo dia ele mesclou essa decisão com uma extenuante necessidade de paz com a Grã-Bretanha. Escreveu Halder: “Ele (Hitler) está sempre pensando em fazer a paz com a Inglaterra à expensas da França.” (A Farsa de Churchill, p. 311)



E Josef Stálin? O que sabia do futuro conflito com os alemães? Afinal, o Secretário-Geral esperava a derrota da Grã-Bretanha. E sobretudo adiar qualquer ameaça nazista. Assim, enquanto esperava a invasão alemã do Egito, e do Oriente Médio – fonte de petróleo ! - o ditador russo aceitava todo informe sobre animosidades alemãs como um 'truque' dos ocidentais.

Enquanto isso, o desejo de Churchill era empurrar os alemães para as estepes russas. Uma mútua aniquilação num combate russo-germânico era plenamente cabível aos interesses britânicos. Mas todo esse desejo por uma guerra no Leste deveria ser camuflado, ainda mais depois de dezembro de 1941, quando os alemães foram detidos diante de Moscou, e os russos provaram que podiam resistir – daí o movimento de Churchill – e do presidente Roosevelt – em se colocar 'ao lado' dos russos, como veremos.

Kilzer lembra da hesitação de Churchill em abrir uma segunda frente na Europa – para assim auxiliar os russos que sofriam todo o peso bélico da Wehrmacht – o que soaria como um 'colaboracionismo' – enquanto no livro de Lewin (“Churchill – O Lord da Guerra” ) há todo um esforço para explicar as ações 'hesitantes' do primeiro-ministro como se fossem 'prudência' e 'senso estratégico'. A demora dos Aliados em abrir uma 'segunda frente' foi o motivo que confirmaria as desconfianças de Stálin que, logo após a derrota dos nazistas, se voltaria contra as potências ocidentais na chamada “Guerra Fria”.

Encontramos muitos destes argumentos em textos de revisionistas, de neo-nazistas e de comunistas – onde Churchill é visto como um político 'hesitante', quando não um 'negociante', um 'jogador de jogo duplo', um anticomunista numa aliança bizarra - sendo que todos diferem da versão oficial: a de que Hitler queria dominar o mundo e que encontrou pela frente a determinação de um líder carismático que o suplantou, o Lord da guerra Winston Churchill, que contou com o apoio bélico do 'arsenal da democracia', os Estados Unidos da América. Afinal, os vencedores escrevem a História.



Mai/11


Por Leonardo de Magalhaens

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mais sobre as 'correntes historiográficas'

 .
mais sobre o caso Hess


num site neonazista (onde Hess é um pacifista!)

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videos


(documentário inglês, mas postado por neonazista)


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