segunda-feira, 24 de março de 2014

1944 / o drama do Holocausto [Shoah]





1944


A sistemática do Holocausto [Shoah]

(trecho de A Lista de Schindler)

Durante as neves daquele ano, Plaszòvia [Plaszow] passou por uma adversa mudança nas condições sociais de todos os amantes do campo. Nos primeiros dias de janeiro de 1944, foi organizado um Konzentrationslager (Campo de Concentração) sob a autoridade central do General SS Oswald Pohl, do Escritório Econômico e Administrativo em Oranienburg, nas cercanias de Berlim. Subcampos de Plaszóvia – tais como o da Emalia [fábrica de esmaltados], de Schindler – também passaram a ser controladas em Oranienburg. Os chefes de polícia Scherner e Czurda perderam autoridade direta. Os salários de trabalho de todos os prisioneiros empregados por Oskar e Madritsch não foram mais para a Rua Pomorska mas para o escritório dp General Richard Glücks, chefe da Seção D (Campos de Concentração) de Pohl. Agora, quanto precisava de favores, Oskar não tinha de ir somente a Plaszóvia amaciar Amon [comandante Amon Goeth] e convidar Julian Scherner para jantar, mas também entrar em contato com certos funcionários do grande complexo burocrático de Oranienburg.


Oskar logo arranjou uma oportunidade de viajar para Berlim e travar conhecimento com as pessoas que iriam lidar com a sua ficha. Oranienburg tinha começado como um campo de concentração. Agora se tornara uma vasta organização administrativa. Nos escritórios da Seção D, eram regulamentados todos os aspectos da vida e da morte de prisioneiros. O seu chefe, Richard Glücks, tinha também a responsabilidade, de acordo com Pohl, de estabelecer o equilíbrio entre trabalhadores e candidatos às câmaras de gás, para a equação em que X representava trabalho e Y representava os próximos condenados.


[…]


Nessa sinistra chancelaria, alguns arquivos se referiam a discussões sobre qual o comprimento obrigatório do cabelo de um prisioneiro, material considerado utilizável economicamente 'na manufatura de meias para tripulações de submarinos e feltro de cabelo para calçados', ao passo que em outros se discutia se o formulário registrando 'casos de morte' devia ser arquivado por oito departamentos ou simplesmente citado por carta e apenso aos registros de pessoal, a fim de que as fichas de arquivo fossem atualizadas. E era nessa chancelaria que Herr Oskar Schindler de Cracóvia [Kraków] precisava falar do seu pequeno conjunto industrial em Zablocie. [...]”
pp. 231-32


Agora que Plaszóvia era – na linguagem dos burocratas – um campo de cocnentração, seus prisioneiros constataram ser menos perigoso deparar com Amon [Goeth, comandante]. Os chefes de Oranienburg não permitiam mais as execuções sumárias. Os tempos em que era fuzilado quem não descascasse batatas com bastante rapidez pertenciam ao passado. Agora só podiam se liquidados através de um processo legal. Tinha de haver um interrogatório e um relatório remetido em três cópias para Oranienburg. A sentença precisava ser confirmada não apenas pelo escritório do Genral Glück mas também pelo Departamento W (Empreendimentos Econômicos) do General Pohl. Se um comandante matasse algum dos trabalhadores essenciais, o Departamento W podia ver-se a braços com reivindicações de compensação. Allach-Munich, Ltd., por exemplo, fabricantes de porcelana, que usavam trabalho escravo de Dachau, tinham recentemente exigido uma indenização de 31.800 RM porque 'em resultado de epidemia de febre tifóide que surgiu em 1943, deixamos de ter à nossa disposição mão-de-obra de prisioneiros desde 26 de janeiro de 1943 até 3 de março de 1943. em nossa opinião temos direito à compensação, de acordo com a Cláusula 2 do Fundo de Compensação Comercial …'


O Departamento W ficava ainda mais obrigado a compensações, se a perda de mão-de-obra especializada era causada pelo zelo de algum oficial da SS rápido no gatilho.


Assim, para evitar a burocracia e as complicações departamentais, Amon passou a conter-se um pouco. As pessoas que apareciam na sua proximidade, na primavera e começo do verão de 1944, de certa forma se sentiam mais seguras, embora nada soubessem sobre o Departamento W e os Generais Pohl e Glücks. Para elas era um indulto tão misterioso quanto a própria demência de Amon.


Contudo, como Oskar tinha mencionado a henry Rosner, eles agora queimavam os corpos em Plaszóvia. Preparando-se para a ofensiva russa, a SS estava abolindo suas instituições no Leste. Treblinka, Sobibor e Belzec haviam sido evacuados no outono anterior. A Waffen SS, que os administrava, recebera ordem de dinamitar as câmaras de gás e crematórios, não deixar vestígio algum reconhecível, e fora transferida para a Itália, a fim de combater os guerrilheiros. O imenso complexo de Auschwitz, em terreno seguro no norte da Silésia, completaria a grande tarefa no Leste e, uma vez concluída, o crematório seria soterrado. Pois, sem a evidência do crematório, os mortos não podiam prestar testemunho, eram um sussurro no vento, uma poeira inconsistente nas folhas dos álamos.


Plaszóvia não era de solução tão simples, porque os seus mortos jaziam por toda parte em seu redor. No furor da primavera de 1942, cadáveres – sobretudo os das pessoas assassinadas nos últimos dois dias do gueto – eram jogados a esmo em valas comuns nos bosques. Agora, o Departamento D encarregou Amon de descobrir todas aquelas valas.


Os cálculos quanto à quantidade de corpos variam muito. Publicações polonesas, baseadas no trabalho da Comissão Central para investigação de Crimes nazistas na Polônia e em outras fontes de informação, afirmam que 150 mil prisioneiros, muitos deles em trânsito para outros locais, passaram por Plazsóvia e seus cinco subcampos. Desses, os poloneses acreditam que 80 mil morreram ali, muitos em execuções em massa dentro de Chujowa Górka ou vítimas de epidemias.


Essa estimativa desconcerta os sobreviventes de Plaszóvia que se lembram do horrendo trabalho de queimar os mortos. Afirmam que só o número de corpos, por eles exumados, atinge mais ou menos entre oito mil e dez mil – proporção apavorante, e que eles não têm a menor vontade de exagerar. A diferença entre as duas estimativas fica mais chocante, quando lembramos que execuções de poloneses, ciganos e judeus continuariam em Chujowa Górka e em outros pontos nas circunvizinhanças de Plaszóvia, durante quase todos aqueles anos, e que os próprios SS adotaram a prática de queimar corpos imediatamente após as execuções em massa no morro do forte austríaco. Além disso, Amon não iria conseguir realizar a sua intenção de remover dos bosques todos os corpos. Alguns milhares mais seriam encontrados em exumações no pós-guerra e hoje, quando os subúrbios de Cracóvia [Kraków] se aproximam cada vez mais de Plaszóvia, ainda são encontrados ossos nas escavações para fundações.


Oskar viu a enfiada de piras na elevação do terreno acima das oficinas, durante uma visita pouco antes de seu aniversário. Quando voltou, uma semana depois, a atividade havia aumentado. Os corpos eram desenterrados por prisioneiros que trabalhavam de rosto tapado. Em cobertores, padiolas e macas eram levados para o local da incineração e depositados sobre toras de madeira. A pira era arrumada camada por camada, e quando alcançava a altura do ombro de um homem, encharcada com combustível e acesa. Pfefferberg se horrorizara, vendo a vida temporária com que as chamas animavam os mortos, a maneira como os corpos se sentavam, atirando para longe as toras ardentes, os membros estirando-se, as bocas se escancarando como para um derradeiro grito. Um jovem SS da estação de despiolhamento corria entre as piras, sacudindo a pistola e esbravejando ordens frenéticas.


A fuligem dos mortos recaía nos cabelos dos vivos e sobre as roupas postas a secar nos varais do quintal dos oficiais subalternos. Oskar ficou pasmo ao ver a indiferença com que o pessoal do campo aceitava a fumaça, como se a fuligem no ar proviesse de alguma honesta e inevitável precipitação industrial. No ar esfumaçado, Amon saía a cavalo com Majola, ambos muito calmos em suas montarias. Leo John levava o filho de doze anos para apanhar sapos no terreno pantanoso da mata. As chamas e a fedentina não lhes perturbavam a vida quotidiana.”
pp. 241-243


fonte: KENEALLY, Thomas. A Lista de Schindler. 13ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1995.




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filme Schindler's List




sexta-feira, 14 de março de 2014

Discursos de Thomas Mann [ trechos ] 1944






Thomas Mann


Ouvintes Alemães – Discursos contra Hitler


[trechos de discursos de 1944]


30 de janeiro de 1944


Ouvintes alemães!

   “Quando lemos certas manifestações da propaganda nazista que continuam sendo difundidas de forma mecânica e quase inaudível, nos perguntamos se são o produto do isolamento doentio, do terrível afastamento do mundo e da realidade, se provêm de um inconformismo da loucura ou se significam a falsificação atrevida da razão, a insolente inversão de sentido da linguagem, a consciente distorção da verdade. “Olha-se para o mundo”, disse Goebbels, “e vem a pergunta sobre se a vida ainda teria algum sentido para a humanidade se nossos inimigos atingissem seu objetivo.” isso é insolência ou loucura? É talvez uma mistura das duas. Mas essa mistura é ainda mais repugnante do que cada uma delas separadamente. Já o mero fato de ouvir a palavra 'humanidade' vinda dessa boca nos revolve o estômago. De onde ele a tira? Faz parte de seu vocabulário? Será que lhe falta bom senso para reconhecer que em posições caracterizadas por certas doutrinas e atos – a posição nacional-socialista, por exemplo – é preciso se abster de determinadas palavras e conceitos para pertencerem a uma outra esfera, a uma contraesfera, e por não lhe dizerem respeito? Será que ele pensa que se pode simplesmente roubar, saquear e 'expropriar' no âmbito espiritual e moral como se faz no da realidade? Que ideia é essa de falar sobre 'humanidade'? Será que ele alguma vez acreditou nisso? Será que ele, seu Führer e todo seu bando, todos esses filósofos-carrascos e ajudantes de carrasco, não debocharam, eliminaram por decreto, abusaram e assassinaram a humanidade, a própria ideia de ser humano, sempre que puderam? E ele se preocupa humanamente com o sentido que a vida terá para a humanidade quando ela se livrar do nacional-socialismo! É isso, o nazismo, que ele toma pelo sentido da humanidade – ou seja, isso contra o que os povos sedentos de paz resolveram, pegando em armas tardia e desesperadamente, proteger sua humanidade, sua dignidade humana e sua liberdade diante da queda na escravidão bárbara. Leste e Oeste se sacrificam e sangram por terem se colocado a questão – razoável e própria dos espíritos saudáveis – sobre o sentido da vida no caso de a Alemanha nazista atingir seu objetivo, a saber, a submissão do mundo. Goebbels sabe disso, por isso utiliza o truque do deboche louco, ou da loucura debochada, de distorcer a pergunta.


[...]




28 de fevereiro de 1944


Ouvintes alemães!

[…]


     “Que vergonha pensar na hecatombe das vidas humanas que caíram vítimas do herói desolador desse livro [de Konrad Heiden, “Führer's Rise to Power”] e que ainda continuam caindo! Permitiram-lhe que dissesse: “Estou pronto a pagar com dois milhões de vidas alemãs para alcançar meu objetivo” - o objetivo de, após a profanação da Alemanha, profanar o mundo inteiro através do nacional-socialismo. Bem, a cifra de dois milhões foi há muito superada, mesmo se só fossem contados os alemães que morreram no campo de batalha. Mas a conta sangrenta da guerra total que o mundo teve se aprender com a Alemanha é bem outra, muito mais alta –e, claro, não é apenas uma conta alemã. Deve-se acrescentar as perdas da Rússia, que são ainda maiores. Deve-se ter em conta a colheita que a morte fez entre os povos violentados da Europa, entre poloneses e judeus, tchecos, gregos, noruegueses, holandeses, iugoslavos, os assassinatos em massa, os suicídios. Temos de acrescentar por antecipação os terríveis sacrifícios que os povos anglo-saxões ainda terão de trazer à batalha final, povos que, eles próprios, estão condenados a trazer morte e destruição por quererem a paz por tempo demais. E ainda teremos de somar o que o duende do mal, de quem o livro conta a história, terá custado ao mundo. Serão 20 ou 25 milhões de vidas? Talvez mais, muito mais, se for incluída toda a destruição causada diretamente. E para quê toda essa torrente de sangue? Para que um vazio, um zero, dele se inche como o ventre de uma aranha.

     A humanidade nunca vai se perdoar por ter deixado acontecer o que aconteceu e ainda vai acontecer. E nunca vai compreender por que um povo, o alemão, mesmo depois que toda ilusão e toda esperança se dissiparam, continua a lutar com coragem de leão, com louca tenacidade, até a Europa se transformar em um campo fumegante de ruínas habitado apenas por umas poucas criaturas que vagueiam como lobos – só para prolongar a vida de um punhado de notórios patifes e libertinos do poder cujo domínio é um peso para eles mesmo e definitivamente inaceitável para o resto do mundo.





28 de março de 1944


Ouvintes alemães!

      “Nos países livres, a guerra total, os bombardeios às cidades alemães e a miséria que eles trazem à população civil são um problema de consciência pública. Não faltam vozes na Inglaterra nem na América que condenem alto e bom som, sem medo – também sem nenhum impedimento - , essa terrível maneira de conduzir a guerra e que reclamam severamente que assim se desce ao nível infame do inimigo e se degrada a humanidade que se pretende defender. Esses protestos são altamente dignos e o sentimento que os origina não é estranho a nenhuma pessoa civilizada. O que aconteceu em Colônia, Hamburgo, Berlim e outros lugares é horrível e ajuda pouco dizer a si mesmo que brutalidade desmedida deve ser combatida com brutalidade desmedida; que aqui reina Nêmesis e que não se trata de uma ação e sim, muito mais, de um acontecimento de vingança. Certamente, a gritaria dos nazistas é desprezível; sua propaganda contra os 'hunos dos ares' nasceu morta e é mortalmente impotente. Mas trata-se da consciência da liberdade, dos atos trágicos que terá de cometer, daquilo que lhe é estranho e não natural, daquilo que por sua própria lei moral não deve fazer e, no entanto, por causa da proclamação da violência sobre a Terra, é obrigada a fazer. O dilema é difícil, inquietante e opressivo.


     E mesmo assim não é dilema algum. Uma só palavra ou notícia da terra dos nazis basta para eliminá-lo, para resolver a questão, para calar toda dúvida e nos fazer sentir que há uma infâmia da mentira, uma infâmia derradeira e diabolicamente atrevida, insuperável e insuportável, incompatível com a existência humana, uma infâmia que exige a chuva de fogo e enxofre e que só pode ser respondida de uma maneira: com bombas, com a aniquilação.

[…]

pp. 167- 174 [trechos]


Fonte: MANN, Thomas. Ouvintes alemães!: discursos contra Hitler (1940-1945). (Deutsche Hörer!) Trad. Antonio Carlos dos Santos e Renato Zwick. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.



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sobre a Campanha de bombardeio estratégico contra a Alemanha





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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

1944 - Campanha da Birmânia






 1944

Campanha da Birmânia
Forças britânicas resistem ao ataque japonês

“A Área Administrativa [em Sinzweya] resistiria de 6 a 24 de fevereiro, quando o passo de Ngakyedauk foi reaberto. [...] Alhures, as brigadas resistiam em suas posições, enquanto que a 26ª Divisão, apoiada pela 36ª, avançava para o sul, contra violenta oposição de forças japonesas, pequenas mas experientes.

Os japoneses haviam esperado conseguir superioridade aérea temporária sobre o campo de batalha, para impedir que o abastecimento aéreo pusesse termo a seus planos. Entre os dias 4 e 14 seus caças realizaram cerca de 350 incursões e seus bombardeiros atacaram Bawli Bazar, a ponte de Briasco e Sinzweya. Eles perderam 14 aparelhos, tendo causado danos, enquanto a RAF perdeu 11 caças. Portanto, as tentativas de abastecimento feitas pela RAF, apesar das escoltas aéreas, foram perigosas, tendo algumas delas, pelos riscos de eu se cercaram, de ser abandonadas. Alguns aviões de abastecimento, que tiveram de voar a 60 m de altitude para lançar com precisão os suprimentos que carregavam, foram derrubados por fogo antiaéreo japonês.

Mas a partir do dia 9 a RAF conseguiu certa superioridade aérea e, a despeito de mais algumas perdas, passou a fazer o abastecimento diariamente. Em cinco semanas, o Comando de Transporte de Tropas realizou 714 incursões e lançou 2.710 toneladas de suprimentos.

O apoio aéreo tático, por caças-bombardeiros, ajudou as forças de terra a repelir repetidos ataques da infantaria japonesa.” p. 77


“No dia 16, o impaciente Slim, decidido a conquistar uma vitória, agora que dispunha de seis divisões, ordenou a Christison que reiniciasse o avanço e desobstruísse a posição Túneis – Buthidaung. Recomendou-lhe também que fizesse a 81ª Divisão, que estava parada no Kaladan desperdiçando valiosas incursões de abastecimento aéreo, avançar de modo a colocar sob ameaça a retaguarda japonesa.

No dia 13, Slim disse a Giffard que estava muito satisfeito com a maneira como a batalha se desenrolava. O abastecimento aéreo, agora, funcionava bem. A 7ª e a 26ª Divisões se haviam encontrado em Taung Bazar. As brigadas avançadas da 7ª Divisão defendiam suas posições (os japoneses tinham agora poucos homens para atacá-las). A Área Administrativa estava sendo defendida e a 5ª Divisão destacara uma brigada de combate para atacar o passo de Ngakyedauk.

[...]

No dia 24, com a aprovação do Q-G de seu exército, o Tenente-General Hanaya abandonou a ofensiva ‘Ha-Go’. O 112º Regimento já se havia posto em retirada, mesmo sem ordens, devido à total falta de alimento.

Este foi o fim. Os japoneses retiraram-se tranquilamente. A batalha custara ao XV Corpo 3.560 baixas, mas do ponto de vista japonês foi um esforço muito louvável. Uma divisão japonesa havia, por algum tempo, lançado duas divisões em confusão, levando os britânicos a lançar contra ela seis divisões. A ofensiva ‘Ha-Go’ foi feita por 8.000 decididos soldados nipônicos, contra um total eventual de 180.000 soldados britânicos, que incluíam 27 batalhões indianos, 17 britânicos, 7 oeste-africanos e 5 gurkhas, além de 26 regimentos de artilharia. Nem todos, porém, foram envolvidos ou lançados em ação. O Tenente-General Hanaya, o Major-Generai Sakurai e apenas quatro coronéis foram combatidos por oito majores-generais britânicos e 27 brigadeiros. Algumas vezes, toda a 5ª Divisão indiana esteve, em defesa de sua posição, empenhada contra apenas um batalhão japonês.

Mas foi uma vitória importante para os britânicos e saudada como tal. Pela primeira vez era rechaçado por forças das potências ocidentais um ataque nipônico feito em parte do continente asiático. Os australianos haviam descoberto como fazer isto na Nova Guiné, 18 meses antes, mas eles compunham um grupo coeso e que tinham confiança uns nos outros.

Na realidade, o triunfo pertenceu a Slim. Foi sobretudo a sua determinação que fez as divisões manterem-se firmes diante do que parecia um desastre. Soldados indianos haviam lutado lado a lado com soldados britânicos com certo êxito. As divisões tinham visto que podiam confiar no abastecimento aéreo e que não precisariam recuar, se cortadas as suas comunicações rodoviárias.

Deu-se muita importância à vitória britânico-indiana no Arakan. [O Comandante Almirante Lorde Louis] Mountbatten divulgou uma ordem do dia cumprimentando todas as forças envolvidas no acontecimento.”   p. 79

Fonte: CALVERT, Michael. Campanha da Birmânia. Trad. Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Renes, 1978.


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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Formação da FEB - 1943/ 1944 - a cobra vai fumar?









FEB

Força Expedicionária Brasileira

1943 / 1944



Fileiras (quase) democráticas

“Em 1943, o Exército brasileiro tinha menos de cem mil homens em seus quadros. Em julho de 1943, depois da convocação geral, menos de três mil voluntários se apresentaram, e metade foi reprovada nos exames de seleção físicos e sanitários. No momento em que o alistamento voluntário não correspondeu às expectativas, teve lugar a convocação compulsória de reservistas, em grande parte provenientes das classes trabalhadoras – operários e agricultores -, que compunham a maioria populacional do Brasil. Os militares de carreira, os oficiais da reserva e um grande número de recrutas provenientes das capitais brasileiras representavam uma parte mais privilegiada da população. A FEB formava um quadro representativo fiel da sociedade brasileira da época.


Uma das grandes virtudes atribuídas à FEB era o caráter não segregacionista de suas fileiras. De fato, se comparada à política racista vigente nos Exércitos inglês e americano, em que tropas coloniais e negros eram abertamente segregados, usados apenas para serviços na retaguarda ou reunidos em tropas separadas, comandadas por oficiais brancos, a FEB eram de fato, uma tropa miscigenada.”

[...]


pp. 111-112




A arte do improviso


“Os novos equipamentos dos americanos não chegavam em quantidade suficiente para treinar o efetivo da FEB, problema que se estendeu de janeiro até julho de 1944, às vésperas da partida do primeiro escalão para a Itália. O 9º Batalhão de Engenharia, sediado em Aquidauana, Mato Grosso do Sul, foi obrigado a improvisar no treinamento de prospecção de minas terrestres. Seus integrantes pediram à população da cidade que doasse todas as latas de goiabada disponíveis, as quais seriam utilizadas com o propósito de simular minas enterradas para que fossem localizadas pelos novos detectores eletrônicos e, assim, possibilitassem os treinamentos em campo.


A chegada de alguns canhões americanos anticarro de 57 milímetros e obuseiros de 105 milímetros possibilitou o treino de uma parte da artilharia regimental, mas a maior parte dos soldados só teve contato com essas e outras modalidades de armamentos ao chegar à Itália. Os canhões de 155 milímetros, que formavam uma bateria da Artilharia Divisionária, foram entregues apenas na frente de combate.


A FEB tomava forma, e a opinião pública ficava sabendo pela imprensa sobre a mobilização – mesmo com a censura vigente -, ainda sob influência popular para uma resposta à agressão do Eixo. Havia certa empolgação geral, mas logo todos começaram a tomar conhecimento dos muitos problemas materiais e conceituais que se apresentavam nesse processo.


Os integrantes do governo que não gostariam de ver a FEB se tornar realidade deixavam vazar informações para minar os trabalhos necessários à sua organização. Eram os germanófilos em ação, que, mesmo com o distanciamento cada vez maior da Alemanha, ainda tentavam influenciar Vargas a não se alinhar com os Estados Unidos e alertá-lo sobre os perigos da concessão de poder a um grupo pró-democrático no Brasil. Entretanto, para o ditador brasileiro, as vantagens de uma empreitada como essa pareciam superar os contras.”

[…]

pp. 112-113




A cobra vai fumar?

“Se eram essas as condições oferecidas aos soldados a caminho do campo de batalha, com que disposição lutariam? Nesse cenário, surgiam dúvidas e questionamentos sobre a real possibilidade de o Brasil enviar seus soldados para a guerra, já que as metas a serem superadas se mostravam bastante difíceis. Havia um pessimismo generalizado, algo que resultou na frase que representava o pensamento sobre a FEB: “É mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil mandar soldados para a guerra.”


Dentro do grande número de histórias criadas por conta da formação da FEB, muita gente acreditou nos boatos de que a famosa frase sobre a cobra fumando teria sido pronunciada pelo próprio Hitler, mas certamente o líder nazista estava mais preocupado com a guerra em andamento – em especial, no sangrento front russo – do que com as dificuldades brasileiras em organizar sua força militar expedicionária.


Mesmo com a forte censura, o povo nas ruas tomava conhecimento da insuficiência do alistamento voluntário, da convocação compulsória de reservistas, das dificuldades em deixar o país guarnecido, caso as Forças Armadas fossem enviadas para além-mar, e da patente falta de recursos para equipar os soldados. A participação das associações estudantis nas fileiras de alistamento da FEB era inversamente proporcional às demonstrações por elas organizadas nas ruas das grandes cidades meses antes, quando pediam a declaração de guerra. Na verdade, dentro da FEB, poucos estudantes com idade para alistamento se apresentaram.”

pp. 114-115



fonte: BARONE, João. 1942: O Brasil e sua guerra desconhecida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.



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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Guerra no Pacífico - Ilhas Gilbert / Tarawa





Frentes de guerra no Pacífico


novembro 1943 - fevereiro 1944


AS ILHAS GILBERT


“Depois de expulsar as forças japonesas das ilhas Aleutas em meados de 1943, a atenção americana se voltou para a área do Pacífico Central das ilhas Gilbert. A conquista da ilha recebeu o codinome de Operação Galvânica, e o planejamento ficou por conta do Contra-Almirante Raymond A. Spruance. Spruance concluiu que as duas ilhas mais ao oeste, Makin e Tarawa, deveriam ser conquistadas, pois a ação neutralizaria as outras ilhas, que deixariam de receber abastecimentos. Makin foi atacada em 20 de novembro de 1943 e tomada depois de três dias de luta amarga, durante a qual apenas uma das oitenta guarnições japonesas se rendeu. Entre os americanos, 66 soldados foram mortos, e 150, feridos. Ainda assim, a operação em Makin foi relativamente fácil, mas a tomada de Tarawa seria muito diferente.


Uma das principais dificuldades em atacar Tarawa era a presença de recifes de coral submersos, que tornavam extremamente difícil a aproximação das embarcações e que deixariam os americanos vulneráveis ao fogo inimigo. Estava claro que veículos anfíbios de ataque (AMTRACs, ou 'tratores armados') teriam que ser usados. Quando o ataque começou, em 20 de novembro, as embarcações chegando à praia pararam nos corais, pois a água estava ainda mais baixa do que o antecipado – a força inteira foi obrigada a depender de carros-tanques e dos poucos soldados que conseguiram vencer as águas e chegar à praia, enfrentando fogo pesado.


Em certo ponto, parecia que as forças americanas não conseguiriam alcançar a praia, mas elas o fizeram. Os defensores japoneses lutaram até a morte – de uma guarnição de 4.750 homens, apenas 17 se renderam. A luta durou por três dias e mais de mil fuzileiros navais americanos morreram.”

[…]
pp. 220-221




TARAWA SANGRENTA


Batalha do Atol de Tarawa (20-23 de novembro de 1943)

Batalha do Atol de Makin (20-23 de novembro de 1943)


“Os ataques às Ilhas Gilbert e Marshall apontaram como a campanha de 'pular ilhas' deveria seguir. Certas ilhas importantes deveriam ser tomadas, mas outras, onde as guarnições japonesas ficariam isoladas pela perda das linhas de abastecimento, poderiam 'ficar em banho-maria'.


As campanhas foram notáveis por suas lutas ferozes. Tarawa foi difícil de atacar, pois o desembarque acabou sendo impossibilitado pelos corais de recife que cercavam as praias, e a natureza do terreno obrigou as forças americanas a desembarcar do lado oposto das linhas defensivas japonesas, em vez de tentar desembarcar em algum outro ponto do atol e flanquear os defensores. Da mesma forma, enquanto em Roi a ação foi relativamente simples por causa do sucesso do bombardeio preliminar, o terreno de vegetação fechada e os bunkers defensivos bem construídos em Namur e Kwajalein fizeram com que a ferocidade do bombardeio americano fosse mitigada, permitindo que os japoneses sustentassem uma resistência ferrenha contra os atacantes.


Além do valor estratégico, as batalhas no arquipélago das ilhas Gilbert e Marshall forneceram lições valiosas para operações futuras contra as ilhas em domínio japonês. Com a queda de todo o grupo Marshall em 23 de fevereiro de 1944, o cenário estava montado para a Batalha do Mar das Filipinas e a operação contra as ilhas Marianas.“ p. 212


fonte:JORDAN, David e WIEST, Andrew. Atlas da II Guerra Mundial. Volume III. Trad. Tatiana Napoli.São Paulo: Editora Escala, 2008.



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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Leningrado e Frente Carélia - janeiro 1944





Janeiro 1944


Frente Oriental


LENINGRADO E A FRENTE CARÉLIA


“Em janeiro de 1944, os alemães estavam envolvidos nos desastres no sul da União Soviética, e a atenção do Grupo de Exército do Norte estava focada na grande probabilidade de uma ofensiva soviética na Bielorrússia. Isso fez com que eles não percebessem as preparações para uma ação destinada a expulsar as forças alemãs dos arredores de Leningrado. A Frente Leningrado, do General Govorov, e a Frente Volkhov, do General Meretsov, se uniram para a ofensiva na área de Novgorod-Luga, com início em 14 de janeiro. Depois de uma hora de bombardeios, um ataque em massa da infantaria se voltou contra a primeira linha alemã. O ataque foi rápido, e durante os dias seguintes o 18º Exército alemão foi destruído.


Apesar desse sucesso, houve várias falhas no ataque russo. Muitos dos comandantes envolvidos na ofensiva tinham passado boa parte da guerra – se não toda – na área de Leningrado, sem ter tido a oportunidade de participar das (e aprender com as) ofensivas nas outras partes da União Soviética. Por isso, a fase inicial da operação foi marcada por erros táticos, como o uso de infantaria sem apoio e a falta de coordenação entre as divisões diferentes. Govorov ficou particularmente frustrado com estas falhas, pois suas forças pareciam incapazes de perseguir os alemães com a agilidade que ele desejava.


Mesmo os russos não sendo tão eficientes nessa área como nas outras, os alemães sofreram muitas perdas. As tropas se mantiveram organizadas e foram forçadas a recuar enquanto cidade após cidade caía diante dos soviéticos; mais uma vez, a lentidão da perseguição russa permitiu que eles evitassem o desastre. No entanto, apesar de decepcionados, os russos atingiram seu objetivo. Em 30 de janeiro, as forças alemãs tinham sido obrigadas a recuar entre 80 km e 100 km e desocupado a linha ferroviária ligando Moscou e Leningrado. Apenas em agosto todas as unidades alemãs foram expulsas da região de Leningrado, mas a batalha já estava vencida no fim de janeiro, e o cerco tinha terminado.


Restava ainda remover as forças finlandesas do território que ocupavam desde 1941. A Frente Volkhov, comandada pelo General Meretskov, foi enviada em fevereiro de 1944, enquanto as operações ao redor de Leningrado se desenvolviam, e recebeu o comando da Frente Carélia. Em 10 de junho, Meretskov lançou a ofensiva Svir-Petrozavodsk, e a Frente de Leningrado atacou o Istmo de Carélia, perto de Vyborg. As operações duraram até 9 de agosto, quando os finlandeses foram forçados a recuar para a linha que marcava a fronteira soviético-finlandesa em 1939. Cientes de que não havia mais nada a fazer, os finlandeses procuraram a paz, e o armistício foi assinado em 4 de setembro de 1944.

pp. 127-128



fonte:JORDAN, David e WIEST, Andrew. Atlas da II Guerra Mundial. Volume II. Trad. Tatiana Napoli.São Paulo: Editora Escala, 2008.




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