segunda-feira, 26 de março de 2012

Expansão Japonesa no Sudeste Asiático - 1942



Guerra no Pacífico

Expansão Japonesa no Sudeste Asiático


(Filipinas, Singapura, Burma, Índias Orientais Holandesas, Nova Guiné)


março-abril 1942


Ataques no Índico

“Os ataques no Oceano Índico foram um duro golpe para a força naval inglesa na área – e levaria bastante tempo para a Marinha Real ser capaz de operar ofensivamente contra o Japão.

O desastre teve origem nas operações das forças do Almirante Nagumo, que contornaram os navios ingleses nas proximidades e atacaram o Colombo e o Trincomalee no Sri Lanka.

Os ingleses foram prejudicados por informações incorretas fornecidas pelo serviço de inteligência, o que fez com que sua força principal estivesse reabastecendo a centenas de quilômetros de distância quando a frota japonesa atacou. Os navios ingleses antigos não conseguiram impedir os invasores; na realidade, dado o tempo de uso, é bastante discutível se eles teriam capacidade de impedir a ação, considerando sua vulnerabilidade em relação ao impressionante poder naval e aéreo dos porta-aviões japoneses.

No ataque, os desgastados cruzadores Dorsetshire e Cornwall foram afundados em 5 de abril, enquanto o porta-aviões Hermes, sem qualquer avião a bordo, foi afundado quatro dias depois no percurso de volta de Trincomalee. Surpreendido pelas aeronaves japonesas e totalmente sem defesas, o porta-aviões foia fundado em questão de minutos.

Durante os ataques no Oceano Índico, os japoneses foram consistentemente superiores à marinha Real, demonstrando o equívoco da crença pré-guerra de que uma força pequena com navios obsoletos seria suficiente para deter superioridade sobre a marinha japonesa.” p. 187


“Não foi apenas contra a esquadra norte-americana que as forças do Almirante Nagumo tiveram considerável sucesso no início da guerra no Pacífico. Três meses depois da Operação Havaí, Nagumo causou um golpe similar à Marinha Real Britânica em um ataque no Oceano Índico.

Em 19 de fevereiro de 1942, quatro dos porta-aviões de Nagumo iniciaram uma operação contra Darwin e Broome no noroeste da Austrália, afundando uma dúzia de navios e danificando seriamente as instalações da base e as próprias cidades, tudo ao custo da perda de apenas uma aeronave. A ação foi seguida por um descanso de quatro semanas enquanto navios e tripulações se preparavam para a próxima missão. Em 26 de fevereiro, os porta-aviões começaram a navegar pelo Oceano Índico.

O Oceano Índico era uma fonte de considerável preocupação para os ingleses. A Marinha Real tinha cinco couraçados e três porta-aviões na área, mas um dos porta-aviões estava obsoleto e quatro couraçados eram antigos e não chegariam perto do que quer que os japoneses usassem no ataque. O comandante da força inglesa, Almirante Sir James Somerville, foi cuidadoso ao lidar com seus recursos, levando em conta as informações do serviço de inteligência de um ataque japonês contra o Sri Lanka no início de abril. Somerville manteve sua força avançando para o oeste na luz do dia e seguindo na direção da esperada linha de aproximação japonesa durante a noite.

Infelizmente pra Somerville, as informações estavam erradas. Na tarde do dia 2 de abril de 1942, a maior parte de seus navios precisava reabastecer. Eles seguiram para a base no atol de Addu, deixando dois cruzadores, um destróier e o porta-aviões Hermes seguir para o Sri Lanka. Assim que os primeiros navios de Somerville chegaram a Addu, em 4 de abril, ele recebeu a notícia de que a frota de Nagumo tinha sido avistada a cerca de 640 km a sudeste da ilha. O Sri Lanka estava desprotegido e, mesmo que Somerville começasse a navegar imediatamente, não havia esperança de alcançar as forças de Nagumo.” pp. 191-192, 194


“Com grande riqueza de recursos naturais, especialmente petróleo, as Índias Orientais Holandesas eram um alvo extremamente tentador para o Japão. Os soldados desembarcaram na costa de Sarawak no dia 16 de dezembro e, no início de janeiro, estava claro para os comandos americano, inglês, holandês e australiano (ABDA) que uma invasão a toda força da colônia era iminente.

Os japoneses dividiram suas forças de invasão em Forçar do Leste, Oeste e Central, com a ideia de que elas iriam – como indicado pelos nomes – atacar as Índias Orientais Holandesas pelos lados leste e oeste. O conceito por trás do plano era elegantemente simples, com os japoneses conquistando terreno, consolidando rapidamente a conquista e então seguindo para o próximo objetivo. A Força Leste atacou primeiro, conquistando Célebes e depois Ambon, Timor e Bali. Os defensores no timor se dispersaram e conduziram uma campanha de guerrilha contra os invasores por mais de um ano antes que o último membro do grupo fosse morto, mas em todos os outros lugares os japoneses encontraram poucos obstáculos. Um esforço naval Aliado nos Estreitos de Lombok na noite de 19 para 20 de fevereiro surpreendeu os japoneses, mas foi derrotado e apenas atrasou em algumas horas a ofensiva.

A Força do Leste chegou a Java em 1º de março, junto com a Força do Oeste, que tinha conquistado Sumatra no caminho, e a Força Central, que tomou áreas costeiras importantes na ilha do Bornéu. A chegada foi precedida pela Batalha do Mar de Java, na qual as forças Aliadas tentaram parar os japoneses, mas foram completamente derrotadas, restando apenas quatro navios de sua frota. Em grande desvantagem numérica, estava claro que não havia chance para as forças Aliadas restantes em Java.

Quando os japoneses exigiram falar com os comandantes holandeses locais em 7 de março, deixaram claro que iriam trazer a capital javanesa abaixo se a rendição não viesse logo. Sem alternativa, as forças Aliadas restantes nas Índias Orientais se renderam no dia seguinte.” pp. 198, 200-201



Sucessos japoneses

“Os japoneses tiveram sucesso em todos os lugares que atacaram. Uma atitude de desprezo em relação a um poder militar supostamente inferior e atrasado fez com que as forças inglesas, americanas e holandesas não estivessem equipadas à altura, e a noção de que os japoneses poderiam ser combatentes habilidosos na selva não tinha sequer sido considerada.

Os resultados foram desastrosos para os Aliados. Em oito meses, o Japão expulsou a Inglaterra da Malásia, de Singapura e de Burma; os norte-americanos foram retirados das Filipinas e de seus territórios no Pacífico, e os holandeses foram completamente massacrados nas Índias Orientais Holandesas. Em junho de 1942, parecia quase inconcebível que o Japão pudesse ser parado no objetivo de se tornar o poder dominante no Pacífico.” p. 187


fonte: JORDAN, David & WIEST, Andrew. Atlas da II Guerra Mundial. Volume III de III. A Batalha no Pacífico. trad. Tatiana Napoli. São Paulo: Escala, 2008.



Ataque no Oceano Índico


“Ao fim de fevereiro de 1942, os japoneses tinham conquistado a maioria de seus objetivos nas Índias Orientais, Malásia e Filipinas e, com as bases do poder aéreo bem estabelecidas, os porta-aviões da 1ª Frota Aérea tiveram um mês de merecido descanso antes de começar a navegar para o Oceano Índico em 26 de março.”

“Relatórios de inteligência indicavam grandes chances de um ataque japonês contra Ceilão por volta do dia 1º de abril de 1942, e Somerville manteve sua força ainda completa direcionada para o oeste durante o dia, quando ele se considerava em grande desvantagem, seguindo para o leste durante a noite na direção esperada da aproximação japonesa. Embora corretas em essência, as informações de inteligência de Somerville estavam erradas a respeito da cronologia das ações. Na tarde de 2 de abril, a força inglesa precisava se abastecer com combustível e mantimentos e teve que voltar para Addu, continuando apenas com os cruzadores pesados HMS Cronwall e HMS Dorsetshire, o antigo porta-aviões HMS Hermes e o destroyer HMS Vampire. Por conta de outros compromissos, esses foram mandados para Ceilão.

Somerville mal tinha chegado em Addu na tarde de 4 de abril quando uma busca aérea localizou Naguno a menos de 645 km ao sudeste da ilha. Pegos de surpresa, os ingleses começaram a navegar imediatamente, mas sem esperanças de impedir o ataque. Na direção de Ceilão, estavam os dois cruzadores desprotegidos enviados por Somervile, que se prepararam para a carnificina. Como em Pearl Harbor, os japoneses escolheram um domingo antes do café da manhã para o ataque, e radares com bases na praia localizaram a força de 126 aeronaves conforme ela seguia para o alvo, Colombo.

Protegido pelas defesas organizadas da AA e pela Royal Air Force (RAF), a Força Aérea Real do Inglaterra, o porto tinha vários navios ancorados. Metade dos cerca de 40 caças que confrontaram os japoneses foram perdidos sem conseguir parar o ataque. Mas, depois de 30 minutos de ação, que tinha custado aos japoneses sete aeronaves, o porto ainda funcionava. Infelizmente, pouco antes do meio-dia, um hidroavião Aichi E13A 'Jake' do cruzador Tone avistou os dois cruzadores. Por mais de três horas, as aeronaves os perseguiram até terem ambos no centro de um ataque de 90 aviões. Sem qualquer tipo de cobertura, os navios ingleses afundaram em 20 minutos, causando a perda de mais de 400 vidas. Procurando recuperar o equilíbrio na batalha, Somerville acelerou para interceptar Nagumo no amanhecer de 6 de abril. Os japoneses vitoriosos não aceitaram o desafio, provavelmente para a sorte dos ingleses, que certamente teriam levado a pior.”

“O Almirante Nagumo reuniu suas aeronaves e tomou o caminho de volta para casa. Ele tinha conseguido derrotar os ingleses com tanta competência quanto derrotara os americanos e, pelo menos por ora, as águas que iam além do perímetro japonês estavam seguras. Embora os japoneses nunca mais fossem conseguir penetrar no Oceano Índico com tamanha força, a escala de suas atividades tinha garantido que uma contra-ofensiva demoraria para ser organizada.”

pp. 190-191



fonte: BISHOP, Chris. II Guerra Mundial: campanhas dia a dia: a Guerra no Pacífico, Volume 3. trad. Tatiana Napoli. São Paulo: Escala, 2009.



seleção: LdeM


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sexta-feira, 16 de março de 2012

Reações do Afrika Korps . jan - março 1942



Reações do Afrika Korps após a derrota
na Operação Crusader aliada


Janeiro - Março 1942


Após a Operação Crusader (novembro e dezembro de 1941), a ofensiva aliada contra as forças do Eixo (italianos e alemães), o Afrika Korps foi obrigado a recuar, devolvendo muito terreno aos atacantes. As tropas do general Rommel, perseguidas de Gazala a Bengazi, acabaram por se render em janeiro de 1942.

No livro de Kenneth Macksey, “Afrika Korps – Rommel no deserto”, temos um relato das reações do Eixo, em retirada e rearmamento, antes de novamente atacarem – então com sucesso, até a conquista de Tobrouk em junho de 1942.

“Enquanto que os britânicos desfrutavam de potencial humano suficiente para frequente substituição de homens na frente, os alemães lutavam sem cessar, enviando cada reforço diretamente para a linha de frente, para ali ficar.

Assim, os alemães, que julgavam ter perdido a “Operação Cruzado” por causa da falta de apoio aéreo, de suprimentos, de informações, de ajuda da Alemanha ou dos italianos, praticamente não sentiam o hálito frio do fracasso nesse momento. Poucos então, e menos ainda agora, perguntavam se a arremetida de Rommel para a fronteira, com a cessão de terreno vital para as forças inimigas no momento crítico, não seria a razão do fracasso. Porém, por mais brilhantes que tivessem sido Rommel e Cruewell na condução do Afrika Korps e na organização de todo o Grupo Panzer em, pleno calor da batalha, fatores de importância fundamental não estavam a seu lado, fatores como o tempo e material. Por conseguinte, só uma vitória avassaladora, em curto espaço de tempo, poderia resultar numa decisão final favorável ao Eixo, na África do Norte.”

“Por outro lado, o AK havia conseguido aumentar seus efetivos. Graças a travessia segura de comboios até Tripoli, os efetivos alemães em tanques subiram para 84 e os dos italianos, para 89; combustível e munição fluíam novamente, abrindo a possibilidade de por em operação a qualquer momento mais de 300 aviões alemães e italianos. Portanto, era chegado o momento – enquanto o Grupo Panzer desfrutava de vantagem temporária – de desfechar um golpe para eliminar a ameaça a Tripolitânia. Uma vez convencido de que seus recursos em transportes atendiam as prováveis necessidades. Rommel permitiu a incursão – mas evitou cuidadosamente informar aos seus colegas italianos ou ao Alto-Comando alemão, escondendo o plano inclusive ao Afrika Korps até cinco dias antes do seu início, 21 de janeiro.

Duas colunas alemãs partiram de Mersa Brega na noite de 20 de janeiro – uma delas, o Grupo Marcks, composta da 90ª Ligeira e parte da 21ª Panzer, percorrendo a estrada da costa: a outra, o Afrika Korps, contornando o flanco do deserto, ao longo de Wadi Faregh. Os britânicos recuaram, com o Grupo Marcks seguindo-os de perto, mas o AK ficou preso na areia fofa. […]

A fraqueza demonstrada fugia à compreensão do inexperiente Comandante do 8º Exército, o Tenente-General Ritchie, que via Rommel espichando o pescoço para dar-lhe 'uma oportunidade única de atingi-lo realmente duro', a despeito do fato de a 1ª Divisão Blindada estar sendo aniquilada pelo AK. Ia alta a tarde de 22 de janeiro quando a coluna Marcks, infiltrando-se por entre os espantados britânicos em Antelat, provocou o caos nos escalões de abastecimento da 1ª Divisão Blindada, até que, ao anoitecer, a 15ª Panzer conseguiu unir-se ao AK, uma vez mais, para a tarefa de explorar o sucesso inesperado.

Caracteristicamente, a 23 de janeiro o Q-G do Panzerarmee Afrika (o Exército Blindado da África), que havia sido elevado ao status de exército no dia anterior, atribulou-se com dissensões, já à beira da vitória. [...]”

Entenda-se dissensões entre os comandos italianos (que, ao não gostarem das ousadias de Rommel, que só fazia destacar a liderança e eficiência alemãs, logo proibiam avanços) e os alemães (que seguiam o 'Raposa do Deserto', sempre disposto a adiantar-se aos britânicos), até que o Afrika Korps atingiu a cidade de Bengazi, de onde se retiraram um mês antes.


Enquanto aproveitavam combustível conquistado dos britânicos, as tropas de Rommel avançavam, entre contra-ataques de flanco, recuperando terreno e empurrando os aliados rumo a Gazala.

“A 25 de janeiro, a frente tornou a explodir. O AK, avançando lentamente para o norte com a 15 ª Panzer, chocou-se com a 1ª Divisão Blindada, reduzindo-a a confusão total, até que, como um tigre movido a corda, o avanço alemão, feito a 24 km/h, parou de repente em Msus, como se a corda houvesse acabado. Faltava gasolina. Rommel chegara, em escala reduzida, ao estágio da noite do 'Totensonntag'. A força blindada britânica, enfraquecida e espalhada, colocara a infantaria à beira do aniquilamento, e o comando britânico só tardiamente compreendera a importância de seu rápido colapso. Ritchie ainda falava de ação ofensiva quando lhes restavam menos de 40 tanques, e visava a conservar Bengazi ainda na crença de que suas forças móveis pudessem dominar o flanco do deserto. Mas Bengazi jamais poderia ser outra Tobruk, mesmo que se tivesse iniciado um processo defensivo adequado. Todavia, também Rommel podia fazer muito pouco, até que lhe tivessem trazido suprimentos extras e que o campo de batalha recém-conquistado fosse vasculhado, em busca do que pudesse sustentar seu próximo avanço devolvendo a mobilidade ao Afrika Korps.

[…]

No dia seguinte [29 janeiro], Rommel entrou em Bengazi, trazendo no bolso um comunicado de Mussolini, autorizando-o a começar o avanço que vinha de terminar, seguido , quase que imediatamente, de outro cabograma promovendo-o a Coronel-General. Suas provisões aumentaram muito, seu nome transformou-se num símbolo de esperança na Alemanha, para compensar os reveses impostos pelos russos a Wehrmacht, que a fizeram recuar das cercanias de Moscou. Agora, Rommel gostaria de ganhar mais, atacando mais para leste; porém, com as reservas de combustível que mal davam para a jornada, quanto mais para um batalha que encontrasse no caminho, não ousava pensar nisso. Só podia sondar – o que era de enlouquecer, porque suas perdas materiais haviam sido leves e seus homens estavam descansados e cheios de confiança nele. Além disso, Rommel podia contar, entre sues admiradores, com os soldados do 8º Exército, que reconheciam nelo o tipo de gênio tristemente ausente entre seus próprios líderes. Até mesmo Churchill ajudou a consolidar sua imagem, referindo-se a Rommel como 'um grande general' – em parte como desculpa, mas também com um toque de melancolia.

Na verdade, Churchill mostrou maior admiração por Rommel do que por Mussolini ou seus generais. Estes, apenas atormentavam o general germânico, advertindo-o para não ir longe demais, dizendo-lhe que is suprimentos de combustível haviam acabado e que seu plano apoiava-se apenas na defesa da Tripolitânia e nada mais. A falta de orientação de Berlim confundia Rommel, como sempre acontecera, pois a estratégia de Hitler omitia a costa africana, enquanto seus olhos estavam voltados para a Rússia e , dentro em pouco, para os campos petrolíferos do Cáucaso. Para os que trabalhavam em Berlim e Roma naquele inverno, o Oriente Médio parecia distante demais. Ideias de combinar um movimento pelo Cáucaso com um avanço por Suez até o Iraque já preocupara a imaginação do Eixo, mas os golpes de Estado pró-Eixo na Síria, Iraque e Pérsia haviam sido laboriosamente anulados pelos britânicos e russos no verão anterior. Agora, em 1942, o Feldmarechal Kesselring, responsável sobretudo pelo abastecimento da área do Mediterrâneo, pouco podia fazer para influenciar os planos do Eixo, quando estes não abrangiam o palco europeu.”


fonte: MACKSEY, Kenneth. Afrika Korps – Rommel no deserto. Rio de Janeiro, Renes, 1974. trad. N Japour. pp. 57, 60, 62, 65-67.



mais sobre o Afrika Korps






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seleção de textos: LdeM

segunda-feira, 5 de março de 2012

Frente Oriental - Reações soviéticas após a Defesa de Moscou


 
Frente Oriental


Reações soviéticas após a Defesa de Moscou
(dezembro 1941/ fevereiro 1942)


fonte: Zhukov. Marechal da União Soviética. Rio de Janeiro: Renes, 1976. trad. Alcídio M. de Souza. pp. 91-93.


Num exame crítico da situação, feito durante o inverno de 1941/42, Zhukov diz em suas memórias que os chefes, no alto comando, avaliaram de forma bastante incorreta a situação existente em Vyazma. Subestimaram a capacidade de recuperação dos alemães e, o que foi pior, ordenaram uma ofensiva (marcada para março) numa ocasião que os soldados estavam exaustos e se registrava aguda falta de material e equipamentos. Zhukov acrescenta que a situação era tão ruim, que cada vez que era convocado à Stavka, nada mais fazia senão suplicar a Stalin que lhe enviasse canhões anticarro, pistolas e, pelo menos, uma quantidade mínima de obuses e munição para suas peças de artilharia. O que quer que conseguisse, era rapidamente enviado às unidades mais necessitadas.

Zhukov recorda, ademais, a desesperadora situação em que vivia, no tocante à escassez de munições, citando estatísticas, a fim de provar o que assevera. Da munição planejada para ser entregue nos primeiros dez dias de janeiro, a Frente do Ocidente recebeu, apenas, um por cento de obuses de 82 mm e entre vinte e trinta por cento de obuses de outros tipos. Durante todo o mês, a quantidade recebida orçou em apenas 2,7 por cento dos obuses de 55 mm necessários, 36 por cento dos 120 mm, 55 por cento dos 82 mm e 44 por cento das granadas de artilharia.

A cota estatuída para fevereiro não foi entregue e dos 316 vagões de munições que deveriam ser entregues nos primeiros dias, nenhum foi enviado. A munição para os foguetes era tão escassa que as unidades que os utilizavam tiveram que ser enviadas para a retaguarda. “É difícil de acreditar”, lembra Zhukov, “mas tivemos que estabelecer limites de um ou dois tiros por canhão, por dia, e isto durante uma operação ofensiva!”


A 14 de fevereiro, Zhukov escreveu a Stalin: “A experiência de combate nos mostra que a escassez de munições impede o correto apoio da artilharia e, desde que o sistema de fogo inimigo não foi destruído, nossas tropas, ao atacar posições defensivas não neutralizadas, sofrem perdas pesadíssimas, sem obter os resultados desejados.”

A 1º de fevereiro, reconhecendo a multiplicidade de tarefas do Comando do Ocidente e a necessidade de assegurar maior coordenação entre as Frentes de Kalinin e do Ocidente, a Stavka restabeleceu o cargo de Comandante-Chefe do Comando do Ocidente e nomeou Zhukov para ocupá-lo, acumulando-o com suas obrigações de comandante da Frente do Ocidente.

À época em que a Stavka decidiu reforçar as Frentes do Comando do Ocidente, em fins de fevereiro e princípios de março, os alemães estavam reagrupando e reforçando suas unidades. As operações levadas a cabo pelos alemães em fins de fevereiro redundaram em pesado castigo para os russos. O já destroçado XXIX Exército, cercado pelas forças de Guderian durante os contra-ataques realizados no início daquele mês e reduzido a cerca de seis mil homens, só com muita dificuldade conseguiu romper o cerco, e assim mesmo deixando atrás de si toda a artilharia.

Tornava-se cada vez mais difícil para os exaustos soldados russos sobrepujar a resistência alemã. As frequentes solicitações de Zhukov, no sentido de que lhe fosse permitido conservar e consolidar suas posições, eram sumariamente recusadas. Stalin insistia em que se continuasse a ofensiva. “Se você não obtiver sucesso hoje, poderá obtê-lo amanhã. Se o inimigo não pode ser obrigado a recuar aí diante de nossos ataques, os resultados poderão fazer se sentir em outros setores da frente.”

Mas o curioso é que nenhum avanço foi feito, nem pela Frente de Kalinin, nem pela do Sudoeste. A Frente de Leningrado e a ala direita da Frente Noroeste estavam empenhadas em luta sangrenta, tanto quanto as unidades que combatiam na região meridional do país. “Apesar das perdas elevadas e da falta de resultados estratégicos”, recorda Zhukov com amargura, “a Stavka exigiu novamente, em diretiva enviada a 20 de março, que as missões anteriormente determinadas para as diversas Frentes tivessem prosseguimento, com renovado vigor. Mas com os insignificantes reforços recebidos, as Frentes do Comando do Ocidente não puderam cumprir a tarefa […]”.


Durante a contra-ofensiva de janeiro a março, as tropas da Frente do ocidente avançaram de 60 a 90 quilômetros, em alguns setores. Zhukov declara, no entanto, em suas memórias, que as forças soviéticas poderiam ter, inquestionavelmente, obtido resultados melhores, se lhe tivesse sido permitido concentrar maior quantidade de tropas em sua Frente, a fim de capitalizar o sucesso da contra-ofensiva iniciada em dezembro. As Frentes de Leningrado, Volkhov e Noroeste ficaram estacionárias, porque lhes faltaram homens e materiais necessários para abrir as defesas alemãs. Pela mesma razão, a ofensiva levada a cabo pelas Frentes Sudoeste e Meridional tiveram, também, fôlego curto.

Mesmo assim, concluiu Zhukov, esses problemas, de maneira alguma, podem minimizar a importância da vitória soviética na grande batalha que se travou diante de Moscou. A sangrenta campanha fez os alemães recurar, em média, cerca de duzentos e cinquenta quilômetros, nos vários setores que dominavam. A razão principal de não ter conseguido os soviéticos vencer em definitivo, diz Zhukov, pode ser encontrada na escassez de blindados. Sem eles, como a própria guerra evidenciou, torna-se impossível levar a termo operações ofensivas com objetivos definidos e em larga escala. Somente com tanques poderosos e formações mecanizadas “é possível flanquear o inimigo com rapidez, penetrar em sua retaguarda e, depois, cercar e dizimar suas unidades.”

Zhukov saíra vitorioso das batalhas que travara ao longo do ano de 1941 e nas campanhas do início do ano de 1942. Mas novas crises já se avizinhavam, e Stalin, insistentemente, o chamava para, às pressas, tentar resolvê-las.”



fonte: Zhukov. Marechal da União Soviética. Rio de Janeiro: Renes, 1976. trad. Alcídio M. de Souza. pp. 91-93.



seleção: LdeM



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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Queda de Singapura / A Queda da Birmânia



Fevereiro 1942

A guerra do Pacífico



“Depois de Pearl Harbor, o objetivo do Japão era capitalizar o fator surpresa e estender rapidamente seu domínio no Pacífico e na Ásia oriental, para obrigar os Estados Unidos a uma paz negociada que ratificasse as conquistas territoriais japonesas. Semelhante à estratégia nazista, a chave do sucesso japonês é uma vitória rápida e espetacular com o objetivo de interromper o fluxo da ajuda americana à China, expulsar o domínio britânico da Ásia e garantir para si o fornecimento vital de petróleo, borracha e matérias-primas. Esse projeto de domínio continental também tem um forte componente ideológico: o Japão não esconde a ambição de se apresentar como o libertador dos povos asiáticos da secular opressão do colonialismo branco. Contando com uma relação de forças favorável, Tóquio abandona toda cautela, mas cometerá dois graves erros de avaliação estratégica e política. O primeiro é a quase inevitável decisão de jogar todas as cartas na perspectiva de um conflito de curta duração. O segundo consiste na avaliação falha da capacidade de reação dos Estados unidos. Quando o rádio anuncia o ataque a Pearl Harbor, os americanos abandonam toda reserva neutralista e entram em guerra unidos contra o agressor. A poderosa máquina bélica e industrial americana será o fator decisivo em determinar a sorte da guerra do Pacífico.”


O Colapso da Grã-Bretanha na Malásia

“Enquanto está em curso a operação contra Pearl Harbor, o Japão desencadeia a ofensiva contra as possessões britânicas na Ásia. Em poucos dias a frota aérea e naval inglesa em Hong Kong é destruída pelos bombardeios. Em 26 de dezembro os japoneses (provenientes de Cantão) dominam a colônia britânica. A resistência dos tailandeses, conquistados para a causa japonesa, é pouco mais que simbólica. Menos de uma semana depois os japoneses penetram na Malásia setentrional e rechaçam as tropas inglesas para a ilha-fortaleza de Cingapura, onde em um raio de cinco quilômetros se amontoam cerca de cinco milhões de fugitivos. Cingapura era o 'Gibraltar do Extremo Oriente' e um símbolo da dominação do império britânico no oceano Índico. A fortaleza, erguida em 1938, é munida de canhões tais que tornam inexpugnável a um ataque vindo do mar. Quando as operações terrestres mal se iniciaram, as duas meninas dos olhos da esquadra naval inglesa no Pacífico, porém, já tinham sido despachadas: em 10 de dezembro de 1941 um arrasador ataque combinado de aviões torpedeiros e bombardeiros japoneses afunda os encouraçados Prince of Wales e Repulse.

Donos do ar e do mar, os japoneses multiplicam os desembarques de tropas na Malásia. Sua ofensiva terrestre subverte toda previsão inglesa: os blindados e a infantaria japoneses abrem caminho na floresta e avançam com surpreendente rapidez nas plantações de seringueiras. Na metade de janeiro, o XXV Exército japonês de Tomoyuki Yamashita – que percorreu cerca de 700 km em apenas cinco semanas – chegou a poucos quilômetros da ilha fortaleza. As reservas de água, víveres e munições estão praticamente a zero. Depois de encarniçados combates, o general Arthur F. Percival - comandante da fortaleza de Cingapura – levanta a bandeira branca no dia 15 de fevereiro de 1942. A desastrosa condução da campanha na Malásia culmina com a rendição de mais de 80.000 soldados entre ingleses, australianos, indianos e voluntários malaios que se batiam contra um contingente de 50.000 japoneses. Com a mais desonrosa capitulação de sua história militar, o prestígio do império britânico no Oriente desmorona.”



Março 1942

Queda da Birmânia


“No fim de dezembro de 1941 os japoneses tomam conta da Birmânia, apoiados por incursões aéreas a partir da Tailândia, que devastam grande parte das instalações portuárias de Rangum. O objetivo principal de Tóquio é interromper o fluxo de suprimentos aos nacionalistas chineses que percorrem a linha ferroviária que liga Rangum a Mandalay e dali prossegue através de uma zona montanhosa até Lashio, onde começa o 'caminho da Birmânia', que, depois de uma tortuosa trilha de montanhas, chega a Kunning, no sudoeste da China. Uma vez bloqueado um ataque chinês na fronteira setentrional, os nipônicos conquistam rapidamente o apoio de uma população local que não hesita em se livrar de uma administração britânica opressiva e ineficiente e acolher os novos invasores como libertadores. No dia 8 de março de 1942 Rangum cai, e no dia 15 de maio Lashio capitula.

Depois de uma retirada de cerca de 1.500 km, uma parte dos 60.000 britânicos chega a Assam (ao norte, em direção da China) e outros contingentes de infantaria, que se dirigem para oeste, põem-se a salvo ao cruzar a fronteira indiana. Superioridade aérea e melhores técnicas de combate decretam o sucesso dos japoneses, que em maio detêm o controle total do país. Porta de acesso à Índia – a pérola do império inglês na Ásia -, a Birmânia será doravante teatro de uma guerra travada em condições ambientais extremas, onde a temperatura no verão chega a 55 graus na estação das monções as chuvas chegam a uma precipitação de 40 cm ao dia.”

pp. 153-155 e157


fonte: FIORANI, Flavio. História Ilustrada da II Guerra Mundial. Volume 2. São Paulo: Larousse, 2009. trad. Ciro Mioranza


seleção: LdeM

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a queda de Singapura




sobre a estrada da Birmânia



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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Avanço japonês ameaça domínios britânicos




Avanço japonês ameaça domínios britânicos


Afundamento dos navios Repulse e Prince of Wales

A Queda de Singapura


Janeiro / Fevereiro 1942


“Em princípios de dezembro [de 1941] as perspectivas pareciam melhores. Depois da abertura inábil da operação Crusader e da perda do controle por parte de Cunningham, Auchinleck assumira a direção da batalha com uma ordem: “Atacar e perseguir. Com todos os meios e por toda parte.”A vitória estava ao alcance das mãos. Na Rússia, os alemães haviam sido detidos; no dia 5 de dezembro Hitler suspendeu a ofensiva contra Moscou, durante o inverno, e a contra-ofensiva soviética foi desencadeada no dia seguinte. No Extremo Oriente, porém, a esquadra de navios-aeródromos [i.e. porta-aviões] japonesa já se fizera ao mar. No dia 7 de dezembro sucederam o ataque contra Pearl Harbor, o bombardeio de Cingapura e o início dos desembarques na Tailândia e Malaia. Nos dois dias seguintes registraram-se os assaltos contra Hong Kong, Guam, Midway, ilha Wake e filipinas; os encouraçados Repulse e Prince of Wales foram afundados. Inopinadamente, a guerra atingira uma nova dimensão.

Em princípios de 1941, o Primeiro-Ministro da Austrália, Robert Menzies, voou para Londres, via Cingapura, com a única finalidade de discutir o que considerava ser a ameaça japonesa. Antes da reunião no Ministério do Exterior, no dia 26 de fevereiro, na qual apresentou seus pontos de vista, Menzies alinhou algumas ideias. A última delas era a seguinte:

7. Devemos dizer ao Japão, o mais cedo possível, “até onde poderá ir”. O apaziguamento não traz nenhum bem. É preciso definir o limite das coisas. Devo esforçar-me ao máximo, em Londres, para deixar bem claro esta posição. Por que não podemos receber um grupo de caças retirado da África do Norte? Por que não se consegue um compromisso concreto a respeito do reforço naval de Cingapura? Nesta altura dos acontecimentos, promessas nebulosas só agradarão e fortalecerão os japoneses, e mais ninguém.”

Não se definiu o limite de nada. Entre fevereiro e novembro ninguém disse ao Japão 'até onde poderia ir' – isto é, ninguém o ameaçou com uma reação militar à agressão, com uma reação suficientemente potente para obrigar o grupo militarista japonês a alterar o caminho que decidira trilhar. A essência do problema era simples e aparecia de forma crua na anotação de Menzies. Entretanto, era igualmente simples o motivo do fracasso em encarar o problema. Em ultima análise, tratava-se de responsabilidade do Primeiro-Ministro inglês e do Presidente dos Estados Unidos. Mas cada um deles, a seu modo, achava-se impotente.

Churchill viu nitidamente a razão da falta de poder de Roosevelt. Quando a situação aproximava-se do clímax, definiu o problema em uma carta endereçada a Smuts, no dia 9 de novembro:

“Creio não me ser útil, na atual conjuntura, dirigir um apelo pessoal a Roosevelt no sentido de que entre na guerra. Não devemos subestimar as dificuldades constitucionais que o tolhem. Ele pode agir como chefe do Executivo, mas só o Congresso pode declarar guerra. Ele chegou a ponto de dizer-me: 'Jamais posso declarar guerra; posso guerrear. Se eu tiver que pedir ao Congresso que declare guerra, eles serão capazes de levar três meses discutindo o assunto.' A Lei do Serviço Militar Obrigatório, sem a qual o Exército americano teria se desintegrado, foi aprovada por maioria de um único voto... Nos Estados Unidos a opinião pública pode ser convencida aos poucos, mas no Congresso não há outra coisa a fazer a não ser contar os votos. Naturalmente, se eu vislumbrar um meio de ajudar a transferir esta situação para um plano mais elevado, farei todo o possível...”

[…] Na realidade, Roosevelt achava-se impotente não por desconhecimento das coisas, mas por causa do peso morto da opinião pública americana. Portanto, todos os protestos e propostas, todas as advertências e sanções da parte de Washington em 1941 – até mesmo o embargo econômico imposto em julho – careciam de força (e Tóquio sabia disto), porque Roosevelt não podia recorrer à ameaça maior que era a guerra. Ele conseguira vencer a poliomielite, mas a legalidade constituía uma forma mais sutil de paralisia. De fato, a limitação de seus poderes era tão séria que Churchill e seus Chefes de Estado-maior, bem como os chefes americanos, viviam apavorados com a possibilidade de o Japão declarar guerra só à Inglaterra; isto criaria um problema grave, e talvez, insuperável para o Presidente; o de praticar a primeira ação.

[…]

Da forma como Churchill os via, os fatos tornavam-no tão impotente quanto Roosevelt. Os engajamentos em curso eram tão grandes e os recursos da Inglaterra tão reduzidos que não sobrava nada substancial para ser encaminhado ao Extremo Oriente. Se a América não fosse uma aliada, seria irrelevante o pouco que pudesse sobrar. Ainda assim, seria melhor desdobrá-lo onde pudesse ser utilizado com o maior proveito: no Oriente Médio e na Rússia. Se a América se tornasse uma aliada, no fim tudo acabaria bem. A este respeito Churchill foi explícito e impenitente:

“Confesso que a ameaça japonesa permanece na minha mente como que dentro de uma penumbra perigosa, em comparação com as nossas outras necessidades. Sinto que os Estados Unidos entrariam na guerra se o Japão nos atacasse. Se os Estados Unidos não se juntarem a nós, não teremos meios pra defender as Índias Orientais Holandesas ou mesmo o nosso próprio império no oriente. Por outro lado, ficarei contente por ser atacado, caso a agressão japonesa arraste a América para a guerra. É nisto que eu confio. Durante o ano de 1941, as nossas prioridades são: primeiro, a defesa da ilha, aí incluídas a ameaça de invasão e a guerra anti-submarina; segundo, a luta no Oriente Médio e no Mediterrâneo; terceiro, depois de junho, os suprimentos para a União Soviética; e, por último, a resistência contra um ataque japonês.”

[…]

Se o preço da acomodação, exigido pelos Estados Unidos, fosse a entrega das conquistas japonesas na China, não seria possível imaginar que o Alto Comando, em Tóquio, viesse a aceitar uma tal humilhação. Por outro lado, se os embargos econômicos impostos pela Inglaterra, Estados Unidos e Holanda, em julho, não fossem revogados, a nação japonesa teria que escolher entre lutar ou perecer. (As reservas no Japão eram tão reduzidas que, ao ser imposto o bloqueio, o Imperador foi informado de que o combustível existente só poderia abastecer a esquadra durante um ano e meio, em situação de guerra). Assim, o aumento da pressão que precedeu Pearl Harbor, e o próprio ataque, encontrou Churchill despreparado e forçou-o a adotar medidas apressadas, tiradas 'do bolso do colete'. E ele registrou em suas memórias: 'na guerra, a exasperação é uma calamidade que leva consigo a vantagem da surpresa'. Por previdência, poderia ter acrescentado: e coloca o homem no qui vive.

O desastre que Churchill ajudou a ocorrer foi o resultado de uma cadeia curiosa de causa e efeito. Em mensagem expedida da baía de Placentia, ele anunciou que, em breve, como consequência da Conferência do Atlântico [em agosto de 1941], Roosevelt advertiria os japoneses para o fato de que qualquer avanço maior para o sul implicaria na abertura de hostilidades. (Como já vimos, na realidade o presidente tinha ideia diferente). Diante disto, o Almirantado reexaminou a possibilidade de reforçar a Esquadra do Oriente. Existia um plano, a longo prazo, para colocar no oceano Índico, até março de 1942, 7 encouraçados, 1 navio-aeródromo, 10 cruzadores e cerca de 24 contratorpedeiros. Todavia, a disponibilidade de navios de guerra era muito reduzida; a curto prazo, Pound [Almirante Comandante da Frota britânica] propôs o envio de 4 encouraçados antigos para o Índico, juntamente com o deslocamento, em médio prazo, de mais 3 encouraçados, devendo todos eles ficarem baseados em Ceilão. Churchill não gostou da proposta. O que ele queria era um navio moderno e rápido, para operar como dissuasor dentro do triângulo Simonstown – Aden – Cingapura. Durante várias semanas, o Almirantado defendeu seu ponto de vista com amplitude e firmeza, mas o primeiro-Ministro decidiu o contrário. Não há a menor dúvida a este respeito. Churchill confessou a verdade na mensagem enviada aos primeiros -ministros da Comunidade Britânica, em fins de outubro:

“3. Neste ínterim, a fim de dissuadir ainda mais o japão, estamos enviando, já, o nosso encouraçado mais moderno, Prince of Wales, para juntar-se ao Repulse no oceano Índico. Isto está sendo feito sob protesto do Comandante-Chefe da Esquadra metropolitana e constitui um sério risco que corremos. (os grifos são do autor; logo em seguida a 'Esquadra metropolitana', Churchill deveria ter acrescentado 'e Primeiro Lorde do Mar e seu estado-maior') . Dentro de pouco tempo o Prince of Wales aparecerá na Cidade do Cabo. Além disso, assim que estiverem prontos, os quatro encouraçados da classe 'R' deslocar-se-ão para os mares do oriente. Mais tarde, o Repulse será substituído pelo Renown, o qual dispõe de maior autonomia.

4. Na minha opinião, o Prince of Wales constituirá o melhor dissuasor possível; faremos todo o esforço para poupá-lo ao máximo. Entretanto, devo esclarecer que o deslocamento do Prince of Wales será reexaminado quando o navio chegar à Cidade do Cabo, seja por causa da ameaça que representaria um aparecimento do Tirpitz, seja por causa de outras possibilidades operacionais que venham a ocorrer antes da incorporação à esquadra do Duke of York, em dezembro.”

Estes dois itens levantavam dois pontos importantes. O primeiro é a ausência de qualquer referência a um navio-aeródromo; todavia, como o próprio Churchill admitiu, 'um elemento essencial' do seu plano era a inclusão do navio-aeródromo blindado Indomitable. O plano continuou em vigor apesar do encalhe, com avarias, do Indomitable ocorrido no dia 3 de novembro ao largo de Kingston, na Jamaica.

[…]

O fim da história é bem conhecido. Diante do primeiro indício de desembarques japoneses na Malaia, o Almirante Sir Tom Phillips lançou seus dois encouraçados na luta, sem cobertura aérea – se bem que não houvesse disponibilidade de meios para constituir uma cobertura aérea digna deste nome. No dia 10 de dezembro os navios foram atacados por uma força japonesa de aviões lançadores de torpedos e bombardeiros, uma força especialmente treinada para atacar navios. Entre 11h30min e 13h20min, os japoneses afundaram os dois encouraçados e os ingleses ainda perderam um terço dos 3.000 tripulantes.”

[…]


pp. 142-148 [trechos]

fonte: LEWIN, Ronald. Churchill O Lorde da Guerra. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exérito, 1979. trad. Cel Álvaro Galvão.


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Sobre o afundamento dos navios Repulse e Prince of Wales






seleção: LdeM

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

1942 - A situação militar e industrial dos EUA




1942


A situação militar e industrial dos EUA



fonte: PERKINS, Dexter. A Época de Roosevelt. 1932-1945. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1967. trad. Edilson Alkimim Cunha



Mas, voltando a 1941, para manter a unidade nacional durante a guerra era ao mesmo tempo necessário e conveniente procurar fazer com que os grupos econômicos do país continuassem satisfeitos. O sucesso nesse sentido é um testemunho não só da liderança do Presidente, mas também da capacidade de líderes no Congresso de formular políticas acertadas. Apesar das deficiências no programa da guerra, apesar das concessões a interesses especiais, as linhas gerais de ação no campo nacional conseguiram manter de modo notável o moral da nação.

Grandes setores das classes comerciais, como vimos, desaprovavam o governo de Roosevelt. No início da guerra na Europa havia uma considerável relutância em arriscar capital na indústria bélica e o progresso foi lento até 1941. mas um passo importante tinha sido dado antes de Pearl Harbor; aos comerciantes tinha sido permitido deduzir os gastos de capital sobre um período de cinco anos em vez do período comum de vinte anos. Além disso, foi atenuado um imposto substancial sobre lucros excessivos por uma provisão de que depois da guerra as despesas de reconversão poderiam ser usadas para cobrir o imposto. O empresariado então entrou na guerra sob estímulo positivo do governo para que levasse avante a grande empresa da produção de guerra.

O que fez a indústria americana nessas circunstâncias foi fenomenal. A produção industrial quase dobrou entre 1940 e 1944. nos campos onde existiam grandes deficiências, os resultados foram realmente surpreendentes. Tomemos, por exemplo, a navegação. Obviamente, a guerra requeria uma enorme expansão da marinha mercante americana. As devastações do submarino alemão foram em grande parte enfrentadas pelo gênio industrial de Henry Kaiser. Em 1941 o número de navios mercantes construídos era ainda pequeno. Aumentara cinco vezes mais por volta de 1944. Idêntica expansão teve lugar com relação aos vasos de guerra. Não menos de 746 navios foram produzidos entre 1941 e 1944, além de 24.000 barcaças de desembarque. Ou tomemos os registros na aviação. Os críticos do Presidente chamaram-no de romântico quando em 1940 falou da produção de aviões numa proporção de 50.000 por ano. Mas esse número foi superado antes do fim da guerra. A indústria aeronáutica que produziu 12.000 aviões em 1940 produziu 8 vezes esse número em 1944 !

O que a indústria americana fez pelo desenvolvimento da navegação e da produção de aviões constitui, naturalmente, apenas uma parte da história. As necessidades do exército eram satisfeitas numa escala colossal (como, por exemplo, pela fabricação de milhares de tanques e de quase 2.750.000 metralhadoras) e uma imensa ajuda era dada aos aliados do país. Para a União Soviética foram mandados caminhões, tanques e aviões. Para a Grã-Bretanha, quantidades ainda maiores de material bélico. Pode-se afirmar com segurança que não houve nenhuma produção nem mesmo remotamente aproximada à dos Estados Unidos nos anais de um conflito internacional.

Um dos grandes triunfos do engenho americano foi no campo da borracha. As conquistas japonesas no Oriente tinham cortado a principal fonte de suprimento desse importantíssimo material. Depois de um período inicial de confusão surgiu uma indústria de borracha sintética. Por volta de 1944, essa indústria nascente, ajudada pelo racionamento da borracha para fins não bélicos e pelas reservas de borracha natural, pôde satisfazer às necessidades das forças armadas e manter em pleno funcionamento a grande máquina militar. Uma autêntica emergência nacional tinha sido eficientemente superada.

A história da produção de guerra americana poderia ser quase indefinidamente estendida, mas seu resultado direto convém ser considerado aqui. Tinha sido fácil durante a década de 30 subestimar a capacidade do homem de negócios americano. Era de primeira importância agora, quando a nação se defrontava com um grande problema, que ele se mostrasse à altura dos acontecimentos. E os efeitos sobre seu próprio moral estavam entre os resultados mais significativos da própria guerra. O empresariado, que estivera em maus lençóis nos primeiros anos do New Deal, voltava agora a ser o que era.

Mas a manutenção do moral empresarial não era mais importante do que o manejo da questão do trabalho. O ano de 1941 tinha sido conturbado nesse campo dos negócios da nação. Tinha havido uma grande greve na indústria carvoeira pouco antes de Pearl Harbor e o acordo tinha representado uma concessão substancial às exigências do trabalho. Era evidente que a própria guerra poderia conduzir agora a rompimentos da paz industrial. De outro lado, a deflagração do conflito foi encarada pelos líderes dos operários num espírito patriótico. Os dirigentes tanto da AFL como do CIO fizeram um compromisso de evitar a greve. Duas semanas e meia apenas depois do ataque japonês, reuniu-se em Washington uma conferência de dirigentes de empresas e operários e se declarou a favor de que as disputas industriais deviam se resolvidas pacificamente e pela criação de uma junta de trabalho que resolvesse as controvérsias que os disputantes não pudessem solucionar. Em janeiro de 1942 o Presidente criou por decreto a Junta do Trabalho de Guerra (WLB), com quatro membros representando o trabalho, quatro representando as empresas e quatro representando o público. O presidente era William H. Davis, advogado registrado, cujo engenho, humor e paciência tornavam-no eminentemente apto para o exercício do cargo.” pp. 133-135


O crescente poder do trabalho no período da guerra modificou inegavelmente o equilíbrio de forças na ordem política e social. Mas, considerando-se o problema mais atentamente, verifica-se o importante fato de que durante a guerra houve uma extraordinária paz industrial. A porcentagem de greves declinou, na média, cerca de um terço com relação aos anos imediatamente precedentes. Mais de 400.000 acordos voluntários foram aprovados pela WLB [Work Labor Board] ; mais de 20.000 controvérsias foram resolvidas e só em cerca de um quarto de 1 por cento das disputas foi necessário que o Presidente interviesse. Apreciado empiricamente, o programa adotado deve ser considerado como um grande sucesso na manutenção da produção e na harmonia industrial.

A atuação da indústria e do trabalho americanos na manutenção de altos níveis de produtividade durante a guerra estava à altura da expansão agrícola. Ali, como nos outros dois casos, um chamariz era apresentado ao grupo interessado. Os preços agrícolas poderiam subir até 110 por cento da paridade. Os resultados foram fenomenais. Em 1944 os agricultores americanos estavam cultivando 30.000.000 de acres a mais do que em 1940; houve um aumento formidável na produção de trigo, de gado e de suínos; e os Estados Unidos puderam não só satisfazer suas necessidades internas como também enviar imensas quantidades de produtos alimentícios para os aliados. Um preço tinha de ser pago por essa grande realização: não seria fácil parar os motores e fazer voltar a produção ao normal quando a guerra terminasse. Mais uma vez, entretanto, julgado de um ponto de vista imediato, um grande sucesso foi alcançado na satisfação das necessidades de guerra.” pp. 139



fonte: PERKINS, Dexter. A Época de Roosevelt. 1932-1945. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1967. trad. Edilson Alkimim Cunha




sobre os sindicatos AFL – CIO


mais sobre a War Labor Board (WLB)





seleção: LdeM