segunda-feira, 9 de junho de 2014

Dia D - o maior desembarque anfíbio





 
O maior desembarque anfíbio

A reação das tropas germânicas

     “Foi este, então o começo. Os primeiros invasores do Dia D, quase dezoito mil americanos, britânicos e canadenses, distribuíram-se ao longo dos flancos do campo de batalha da Normandia. Entre eles, ficavam as cinco praias em que se realizaria a invasão principal e, além do horizonte, aproximando-se inexoravelmente, a poderosa frota de invasão de cinco mil navios. O primeiro dos navios, USS Bayfield, transportando o comandante da Força U da Marinha, o contra-almirante D. P. Moon, encontrava-se nesse momento a uns vinte quilômetros da praia Utah, preparando-se para lançar âncora.

      Lentamente, o grande plano de invasão estava começando a desdobrar-se – e os alemães ainda permaneciam cegos, alheios a tudo. Houve muitas razões. O mau tempo, sua falta de reconhecimento aéreo (somente alguns aviões tinham sido lançados a sobrevoar as áreas de embarque nas semanas anteriores: todos tinham sido abatidos), a crença teimosa de que a invasão devia realizar-se em Pas-de-Calais, a confusão e superposição de seus próprios comandos e o fracasso em levar a sério as mensagens destinadas ao movimento de resistência, que haviam sido devidamente decifradas – tudo isso exercera alguma influência. Até mesmo suas instalações de radar falharam naquela noite. Aquelas que não haviam sido bombardeadas, tinham ficado confusas em função dos aeroplanos aliados que haviam sobrevoado a costa, espalhando pacotes de 'janelas', tiras de folhas de estanho que recobriam as telas de radar com sinais falsos, conhecidos como 'neve'. Uma única estação tinha enviado seu relatório. Declarava somente: 'Tráfego normal ao longo do Canal.'

      Mais de duas horas haviam transcorrido desde que os primeiros paraquedistas desceram ao solo. Somente agora os comandantes alemães da Normandia estavam começando a perceber que alguma coisa importante poderia estar ocorrendo. Os primeiros relatórios isolados estavam começando a chegar e, lentamente, como um paciente despertando da anestesia, os alemães se acordavam.” pp. 184-185

      “Na França, os generais do OB West e do Grupo de Exército B [germânico] sentaram-se para esperar o desenrolar dos fatos. Eles haviam alertado suas forças e convocado as reservas blindadas: agora, a próxima decisão pertencia aos Aliados. Ninguém fazia noção da magnitude do próximo assalto. Ninguém sabia – ou sequer podia adivinhar – o tamanho da frota aliada. E, embora tudo apontasse para a Normandia, ninguém realmente tinha certeza de onde seria desfechado o ataque principal. Os generais alemães, indubitavelmente, tinham feito tudo quanto estava a seu alcance. O resto dependia dos soldados comuns da Wehrmacht que guarneciam as costas, subitamente, eles haviam adquirido grande importância. A partir de suas fortificações costeiras, os soldados do Reich olhavam para o mar, imaginando se esse era mais um alerta de treinamento ou se, finalmente, chegara ao ataque verdadeiro.

      O major Werner Pluskat, em seu bunker acima da praia Omaha, não recebera qualquer notícia de seus superiores desde a uma hora da madrugada. Estava com frio, cansado e exasperado. Sentia-se totalmente isolado. Não podia entender por que não recebera qualquer relatório ou ordem, nem do quartel-general regimental, nem do QG da Divisão. Para falar a verdade, o próprio fato de que seu telefone permanecera silencioso durante toda a noite era um bom sinal: deveria significar que nada de sério estava acontecendo. Mas... e os paraquedistas? E as formações maciças de esquadrilhas? Pluskat não conseguia livrar-se da inquietação, que parecia roer-lhe os ossos. Mais uma vez ele girou as lunetas de artilharia e esquadrinhou o mar; à esquerda, ele identificou a massa escura da península de Cherbourg e começou outra lenta varredura do horizonte. Os mesmos bancos de brumas baixas foram ampliados diante de seus olhos, os mesmos pontos em que a água refletia a luz oscilante do luar, o mesmo mar encapelado e inquieto. Nada havia mudado. Tudo parecia cheio de paz.” pp. 217-218
 


Desembarques avançam nas cinco praias

      “O ritmo aumentava. Ao largo das praias americanas, cada vez mais barcos cheios de soldados se juntavam às irrequietas embarcações de assalto que rodeavam incessantemente as naves de que tinham sido descidas. Empapados, enjoados, cheios de desconforto, eram justamente esses homens que liderariam a marcha sobre a Normandia, através das praias Omaha e Utah. Nas áreas de transporte, o transbordamento estava em plena atividade. Era uma operação complexa e perigosa. Os soldados carregavam tanto equipamento que mal conseguiam se mover. Cada um trazia um salva-vidas de borracha e, além das armas, bornais, ferramentas para cavar trincheiras, máscaras de gás, estojos de primeiros socorros, cantis, facas e rações, todos traziam quantidades adicionais de granadas, explosivos e munição muitas vezes até 250 cartuchos. Mais ainda, muitos homens estavam carregando o equipamento necessário para executar suas tarefas especializadas. Alguns homens calculam que pesavam pelo menos centro e cinquenta quilos enquanto balançavam ao longo dos tombadilhos a caminho de seus barcos de assalto. Toda essa parafernália era necessária, mas parecia ao major Gerden Johnson, da 4ª Divisão de Infantaria, que seus homens estavam sendo 'forçados a caminhar em passo de tartaruga'. O tenente Bill Williams, da 29ª, achou que seus homens estavam tão sobrecarregados que 'não lhes sobrariam forças para combater'. O praça Robert Mozgo, olhando para baixo, desde o costado de seu transporte e vendo a embarcação de assalto que se esbarrava contra o casco e subia e descia da forma mais enjoativa com o movimento das ondas, pensou que, se ele e seu equipamento pudessem embarcar em um desses botes, 'metade da batalha já estaria ganha...' ” pp. 223-224

      “As grandes rampas quadradas dos barcos de assalto, por enquanto ainda erguidas nas proas, avançavam de frente sobre cada onda, e a água verde, gelada e espumante, recobria a todos. Não havia heróis ansiosos por glória nesses barcos – apenas homens congelados, temerosos e nauseados, tão apertados uns contra os outros, tão sobrecarregados de equipamento pesado que, frequentemente, não havia lugar para vomitar, exceto sobre os companheiros. […]

      De um momento para outro, a guerra assumiu um caráter pessoal. As tropas que se dirigiam para a praia Utah viram um barco de controle, que conduzia uma das ondas de ataque, empinar subitamente para fora das águas e explodir. Segundos depois, cabeças surgiram à superfície e os sobreviventes tentaram salvar-se, agarrando-se aos destroços. Uma segunda explosão seguiu-se quase imediatamente. A tripulação de uma balsa de desembarque, tentando descarregar quatro dos trinta e dois tanques anfíbios destinados à praia Utah, tinha lançado a rampa diretamente sobre uma mina marítima submersa. A frente da embarcação saltou para cima e o sargento Orris Johnson, em uma lancha próxima, ficou congelado de horror, enquanto um tanque 'era arremessado a mais de trinta metros no ar, dava lentamente uma cambalhota, mergulhava de novo na água e desaparecia'. […]

      Centenas de homens que se dirigiam para a praia Utah viram os cadáveres e escutaram os berros e gritos de socorro dos homens que se afogavam. […]

      A visão dos corpos flutuando na água, a fadiga e a tensão da longa viagem desde os navios-transporte e a gora a agourenta proximidade das extensões de areia lisa estendidas frente às dunas da praia Utah arrancaram violentamente os homens de sua letargia. […]

      Nas águas ao largo da praia Omaha ocorrera um desastre. Quase metade da força de tanques anfíbios, destacada para apoiar as tropas de assalto, havia afundado. O plano requeria sessenta e quatro desses tanques, que seriam lançados ao mar entre três e cinco quilômetros de distância da costa. Daí em diante, eles teriam de se locomover pela força de seus próprios motores até a praia. Trinta e dois deles tinham sido designados para a área da 1ª Divisão – os setores Easy Red, Fox Green e Fox Red. Os batelões que os transportavam atingiram suas posições, as rampas de deslanche foram baixadas e vinte e nove tanques foram descidos nas ondas encapeladas. Os veículos anfíbios, que tinham um aspecto muito estranho, com seus grandes balões de lona cheios de ar lembrando as saias enfunadas de uma mulher vadeando um riacho, mas que nos testes haviam demonstrado ser capazes de suportar todo o peso do veículo na superfície da água, começaram a furar as ondas em direção à praia. Então, a tragédia surpreendeu os homens do 741º Batalhão Blindado. Sob os golpes pesados das ondas, as 'asas aquáticas' começaram a se rasgar, os suportes rebentaram, os motores foram inundados e, um após o outro, vinte e sete dos tanques afundaram. Os tripulantes, saíram às pressas pelas escotilhas, inflando os salva-vidas e saltando no mar. Alguns conseguiram inflar também barcos salva-vidas de borracha. Outros desceram até o fundo em seus ataúdes de aço.” pp. 239-243


      “Por detrás das defesas, a própria praia estava deserta: nada nem ninguém se movia sobre ela. Os barcos foram chegando cada vez mais perto. Quatrocentos e cinquenta metros … quatrocentos metros... Nada de fogo inimigo. Através de ondas da altura de um metro e vinte a um metro e meio, as embarcações de assalto lançaram-se pra a frente; agora, o grande bombardeio começou a deixar a zona da praia, indo atingir alvos mais para o interior. Os primeiros barcos estavam a uns 350 metros da praia quando os canhões alemães – os mesmos canhões que poucos ainda acreditavam tivessem sido capazes de sobreviver a um bombardeio aéreo e marítimo tão furioso e tão intenso – abriram fogo.” p. 245



fonte: RYAN, Cornelius. O Mais Longo dos Dias. [The Longest Day, 1959] trad. William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2008.


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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Vanguarda do Dia D : paraquedistas





 

O Dia D : invasão Aliada da Normandia

A vanguarda: caça-minas no anoitecer de 5 de junho 1944

      “Ao largo da costa francesa, um pouco antes das nove horas da noite [de 5 de junho], apareceu uma dúzia de pequenos barcos. Moviam-se silenciosamente na fímbria do horizonte, tão próximo das praias que suas tripulações podiam ver claramente as casas da Normandia. Os barcos passaram sem ser percebidos. Acabaram sua tarefa e retornaram. Eram caça-minas britânicos – a vanguarda da mais poderosa armada que jamais fora reunida.

      Porque agora, cruzando o Canal da Mancha, cortando as águas cinzentas e agitadas, uma falange de navios flutuava inexoravelmente em direção à Europa de Hitler – o poder e a fúria do mundo livre finalmente desencadeados. Eles avançavam incansáveis, fileira após fileira, seguindo as dez rotas marítimas paralelas que haviam sido traçadas, ocupando uma extensão de trinta e cinco quilômetros de largura, cinco mil navios de todos os tamanhos e formatos possíveis. Havia os novos e velozes transportadores de tropas de ataque, os lentos cargueiros corroídos de ferrugem, os pequenos navios transatlânticos de passageiros, os pequenos vapores que faziam cabotagem pelos portos do Canal, além de navios-hospitais, velhos transportadores de combustível, pequenos navios costeiros e enxames de rebocadores fumacentos e ruidosos. Havia colunas infindáveis de navios de desembarque de pequeno calado – grandes veículos marítimos que balouçavam ao ritmo das ondas, alguns deles com quase cento e trinta e cinco metros de comprimento. Muitos desses e dos demais barcos de transporte mais pesados carregavam barcos menores de desembarque para o verdadeiro assalto às praias – um total de mais de mil e quinhentos. À frente dos comboios avançavam verdadeiras procissões de caça-minas, cúteres da Guarda Costeira, lançadores de boias e lanchas a motor. Balões de defesa contra ataques aéreos voavam acima das embarcações. Esquadrilhas de aviões de combate teciam essa cavalgada fantástica de navios atulhados de homens , canhões, tanques, veículos motorizados e os mais variados suprimentos, deixando de fora apenas um certo número de pequenas unidades navais desgarradas, estava um formidável conjunto de 702 belonaves.

[…]

      Lentamente, pesadamente, essa grande armada se movia através do Canal. Seguia um padrão de tráfego demarcado minuto a minuto, de um tipo que jamais fora tentado antes. Os navios se derramavam para fora dos portos britânicos e se moviam ao longo das costas em rotas demarcadas para dois comboios paralelos, convergindo para a área de concentração ao sul da ilha de Wight. Lá eles eram classificados ou encontravam os próprios lugares, cada um deles assumindo uma posição cuidadosamente predeterminada na força que se destinava à praia particular para a qual fora designado. Saindo da área de concentração, logo apelidada de Piccadilly Circus, os comboios se dirigiam para a França ao longo de cinco rotas demarcadas por boias flutuantes. E, à medida que se aproximavam da Normandia, estes cinco caminhos se dividiam em dez canais, dois para cada praia – um para tráfego rápido, outro para navegação lenta. Bem na frente, logo após a ponta-de-lança dos caça-minas, encouraçados e cruzadores, estavam os navios de comando, cinco transportes de ataque eriçados de antenas de rádio e radar. Esses postos de comando flutuantes seriam os centros nervosos da invasão.

      Por toda parte havia navios. Para os homens que estiveram a bordo, essa histórica armada ainda é lembrada como a visão 'mais impressionante e inesquecível' de suas vidas.” pp. 114-115; 117


Como reagiram as tropas germânicas ?

      “Passava um pouco das dez e um quarto dessa noite quando o tenente-Coronel Meyer, chefe do Serviço de Contra-Espionagem do 15º Exército alemão, saiu às pressas de seu escritório. Em sua mão provavelmente se encontrava a mais importante mensagem que os alemães haviam interceptado em todo o decorrer da Segunda Guerra Mundial. Meyer sabia agora que a invasão ocorreria dentro das próximas quarenta e oito horas. Com essa informação, os Aliados podiam ser jogados de volta ao mar. A mensagem, captada de uma transmissão da BBC destinada ao movimento de resistência francês, era o segundo verso do poema de [Paul] Verlaine: 'Blessent mon coeur d'une langueur monotone' (Ferem meu coração com um langor monótono).

      Meyer lançou-se para dentro da sala de jantar, onde o general Hans Von Salmuth, oficial-comandante do 15º Exército, jogava bridge com seu chefe de estado-maior e dois outros oficiais.

-General! - disse Meyer, ofegante. - A mensagem, a segunda parte, chegou!

Von Salmuth deliberou por um momento e então deu ordem para colocar o 15] Exército em prontidão total. Quando Meyer saía apressadamente da sala, Von Salmuth estava novamente olhando para as cartas de sua mão.

-Eu sou raposa velha – o próprio Von Salmuth recorda-se de haver dito na ocasião para não ficar muito excitado com isso.

      De volta a seu escritório, Meyer e seu pessoal imediatamente notificaram por telefone o OB West, quartel-general de Von Rundstedt. A seguir, também por telefone, alertaram o OKW, o quartel-general do próprio Hitler [Adolf H, ditador alemão]. Simultaneamente, todos os demais comandos foram alertados via teletipo.

     E novamente, por razões que nunca foram explicadas satisfatoriamente, o 7º Exército não foi notificado. Nesse momento, a frota aliada ainda precisaria de um pouco mais de quatro horas para atingir as áreas de transferência das tropas para as lanchas de assalto, ao largo das cinco praias normandas; dentro de três horas, dezoito mil paraquedistas seriam lançados sobre os campos e sebes progressivamente mais escuros – diretamente na zona do único exército alemão que nunca foi alertado do Dia D.” pp. 123-125


Alemães temem outro alarme falso

     “A essa altura [madrugada do dia 6 de junho 1944], relatórios vagos e contraditórios estavam sendo filtrados até os postos de comando do 7ºExército [alemão] em toda a Normandia; por toda parte, os oficiais tentavam avaliá-los. Haviam poucos dados a sopesar – silhuetas humanas entrevistas aqui, tiros disparados acolá, uma paraquedas pendurado em uma árvore mais adiante. Tomados em seu conjunto, eram pistas indicadoras de alguma coisa – mas de quê? Somente 570 militares aliados aerotransportados haviam descido. Era justamente o número necessário para criar o pior tipo de confusão.

     Os relatórios que chegavam eram fragmentados, inconclusivos, tão espalhados que até mesmo os soldados mais experientes estavam céticos e atormentados por dúvidas. Quantos homens haviam descido – dois ou duzentos? Seriam tripulações de bombardeiros abatidos que tinham saltado antes da queda? Estaria ocorrendo uma série de ataques da Resistência francesa? Ninguém tinha certeza, nem mesmo aqueles, como o general Reichert, da 711ª Divisão, que tinham visto os paraquedistas face a face. Reichert pensava que era uma incursão aérea a seu próprio QG, e foi essa a conclusão incluída no relatório transmitido a seu comandante de Corpo. Só muito mais tarde as notícias chegaram ao QG do 15º Exército, onde foram devidamente registradas no diário de guerra, com a anotação obscura: 'Não há detalhes'.

      Tantos alarmes falsos tinham sido dados no passado, que todo mundo mostrava uma cautela que chegava a ser dolorosa. Os comandantes da Companhia consideravam duas vezes antes de transmitirem relatórios aos postos de comando de seus batalhões. Enviavam patrulhas para verificar e verificar novamente. Os comandantes de Batalhão mostravam ainda maior prudência antes de passarem as informações aos oficiais regimentais. Quanto ao que realmente ocorreu e que informações de fato chegaram nos diversos quartéis-generais durante esses primeiros minutos do Dia D, há tantos relatos quanto participantes. Porém um fato parece claro: com base em relatórios tão localizados e imprecisos , ninguém se dispunha a dar alarme nesse momento – um alarme que, mais tarde, poderia demonstrar-se falso. E assim, o minutos foram passando. pp. 147-148


Os dramas e as baixas dos paraquedistas das tropas aerotransportadas

     “O inimigo mais sinistro nesses minutos de abertura do Dia D não eram os homens, mas a natureza. As precauções contra o desembarque de paraquedistas, que haviam sido tomadas por iniciativa de Rommel [Marechal de campo, o comandante alemão], pagaram bons dividendos. Os lençóis d'água e os atoladouros do vale do rio Dives artificialmente inundado demonstraram ser armadilhas mortais. Muitos dos homens da 3ª Brigada caíram diretamente nessa área, como se fossem confetes retirados de um saco e espalhados ao acaso. Para esses paraquedistas, um azar trágico seguia ao outro. Alguns pilotos, envolvidos por nuvens espessas, pensaram que a embocadura do Dives fosse a do orne e largaram os homens sobre um labirinto de pântanos e alagadiços.

[…]

     O número de paraquedistas que morreu nos baixios do [rio] Dives nunca será conhecido com exatidão. Os sobreviventes contaram que os pântanos eram atravessados por um labirinto de valas, com mais de dois metros de profundidade e um metro e vinte de largura, cujo fundo estava recoberto de um limo grudento. Um homem sozinho, carregado de armas, munição e equipamento pesado, não tinha a menor chance de sair para fora de um desses alagados. As mochilas de lona molhadas praticamente dobravam de peso e os homens que conseguiram sobreviver tiveram de abandonar todo o equipamento. E muitos homens que conseguiram, com muita luta, atravessar os pântanos, afogaram-se no rio, alguns à distância de apenas alguns metros da outra margem, onde a terra estava seca.” pp. 157-158


fonte: RYAN, Cornelius. O Mais Longo dos Dias. [The Longest Day, 1959] trad. William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2008.


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terça-feira, 27 de maio de 2014

Preâmbulos do Dia D










 







Preâmbulos do Dia D






Defesas alemãs contra a invasão dos Aliados


 
“[O Marechal de campo ] Rommel aproveitava vantajosamente cada técnica nova ou avanço recente. Onde ele tinha poucos canhões, posicionava baterias de lança-foguetes ou morteiros. Em um lugar, ele chegara a instalar tanques robôs em miniatura denominados 'golias'. Esses dispositivos, capazes de transportar mais de meia tonelada de explosivos, podiam ser guiados por controle remoto a partir das fortificações e descer às praias, onde eram detonados entre os soldados ou entre os lanchões de desembarque.

Praticamente a única coisa que faltava no arsenal de armas medievais reunido por Rommel eram caldeirões de chumbo derretido para derramar sobre os atacantes – e, de certo modo, ele tinha o equivalente moderno: lança-chamas automáticos. Em certas posições ao longo da frente, teias de tubos partiam de tanques de querosene camuflados até atingir os caminhos cobertos de relva na entrada das praias. Bastava apertar um botão para que o avanço dos soldados fosse instantaneamente engolido pelas chamas.

Rommel tampouco esquecera a ameaça de paraquedistas ou de tropas aerotransportadas por planadores. Por trás da linha de fortificações, todas as zonas mais baixas foram inundadas e, em cada campo aberto dentro de um âmbito de doze ou treze quilômetros a partir das margens do Canal [da Mancha], foram enfiadas estacas pontiagudas ligadas a explosivos. Arames para fazer tropeçar os soldados foram estendidos entre as estacas. Ao serem tocados, faziam automaticamente explodir minas antipessoais ou obuses ativados.

Rommel organizara uma sangrenta festa de recepção para as tropas aliadas. Nunca na história das guerras modernas um conjunto de defesas mais poderoso ou mortal tinha sido preparado para uma força invasora. Entretanto, mesmo assim, Rommel não estava contente. Ele queria mais casamatas, mais obstáculos nas praias, mais minas, mais canhões, mais tropas. Acima de tudo, ele queria as maciças divisões panzer que estavam estacionadas como reserva em pontos distantes da costa. […] pp. 34-35


Eisenhower comanda as forças invasoras

“A partir desse reboque, [o general Dwight] Eisenhower comandava quase três milhões de soldados aliados. Mais de metade de seu imenso comando era composta por americanos: cerca de um milhão e setecentos mil soldados, marinheiros, aviadores e guardas costeiros. As forças conjuntas britânicas e canadenses totalizavam cerca de um milhão e, além disso, havia os combatentes franceses e contingentes poloneses, tchecos, belgas, noruegueses e holandeses. Nunca antes um americano tinha comandado tantos homens de tantas nacionalidades ou suportado uma carga de responsabilidades tão impressionante.

[…]

Quatro meses antes, na diretiva que o [i. e. Eisenhower] nomeava comandante supremo, os chefes do Estado-Maior Conjunto de Washington haviam explicitado sua missão em um único, mas expressivo, parágrafo. A redação era a seguinte: 'O senhor deverá entrar no continente da Europa e, em conjunção com os comandantes das demais nações Unidas, assumir as operações destinadas a atingir o coração da Alemanha e a destruição de suas forças armadas...'

Nessa única sentença se encontravam o alvo e propósito do ataque. Mas para o mundo inteiro dos Aliados, isso deveria ser muito mais do que uma operação militar. O próprio Eisenhower descrevia sua missão como 'uma grande cruzada' -uma cruzada que deveria acabar de uma vez por todas com a monstruosa tirania que tinha lançado o mundo inteiro em sua guerra mais sangrenta, estraçalhando um continente e colocado mais de trezentos milhões de pessoas em regime de escravidão. (De fato, nessa época ninguém podia sequer imaginar a extensão total da barbárie nazista que havia inundado a Europa – os milhões que tinham desaparecido nas câmaras de gás e nas fornalhas dos crematórios assépticos de Heinrich Himmler [chefe da Gestapo e das SS] , os milhões que tinham sido arrebatados em seus próprios países e submetidos a trabalho escravo, uma tremenda percentagem dos quais jamais retornaria, os outros milhões que tinham sido torturados até a morte, executados como reféns, ou exterminados pelo simples expediente de deixá-los morrer de fome.) O propósito inalterável da grande cruzada não era simplesmente vencer a guerra, mas destruir o nazismo e terminar uma era de selvageria sem paralelo em momento algum da história mundial.

Mas primeiro a invasão tinha de ser realizada com sucesso. Se falhasse, a derrota final da Alemanha poderia ainda levar anos.” [pp. 63-66]



Arsenal preparado para a invasão

Por volta do mês de maio [de 1944], a Inglaterra meridional parecia um imenso arsenal. Escondidas nas florestas, pilhas de munição formavam verdadeiras montanhas. Distribuídos ao longo das charnecas, parachoques contra parachoques, havia tanques, caminhões com lagartas, carros blindados, caminhões militares padronizados, jipes e ambulâncias – mais de cinquenta mil veículos de transporte terrestre. Através dos campos, viam-se longas linhas de morteiros e canhões antiaéreos, grande quantidade de material pré-fabricado, desde tendas de campanha Nissen até coberturas para faixas de pouso e imensos estoques de equipamento destinado a movimentar grandes volumes de terra, desde bulldozers até escavadeiras. Nos depósitos centrais, havia imensas quantidades de comida, roupas e suprimentos médicos, desde pílulas contra enjoo até 124 mil leitos de hospital. Mas a visão mais assombrosa de todas eram os vales cheios de longas filas de material de transporte ferroviário: quase mil locomotivas novas em folha, quase vinte mil carros-tanque e vagões de transporte de carga que seriam usados para substituir o equipamento francês espatifado durante os combates, depois que as cabeças-de-ponte nas praias tivessem sido conquistadas e consolidadas.” p. 68

fonte: RYAN, Cornelius. O Mais Longo dos Dias. [The Longest Day, 1959] trad. William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2008.



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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Preparações para o Dia D - Defesas alemãs














Preparações para o Dia D [Operação Overlord]


A operação Overlord, a invasão da Europa pelos Aliados, começou precisamente quinze minutos após a meia-noite de 6 de junho de 1944 – na primeira hora de um dia que seria para sempre conhecido como o Dia D. Nesse momento, alguns homens especialmente escolhidos da 82ª e da 101ª divisões Aerotransportadas do exército americano saltaram de seus aviões à luz do luar sobre a Normandia. Cinco minutos mais tarde e a oitenta quilômetros de distância, um pequeno grupo de homens da 6ª Divisão Aerotransportada britânica também pulou de seus aeroplanos. Esses homens exerciam a função de batedores e tinham a missão de acender fogueiras para iluminar as zonas de lançamento dos paraquedistas e tropas de infantaria transportadas por planadores, que deveriam segui-los em breve.

Os exércitos aerotransportados dos Aliados estavam claramente demarcando os limites extremos do campo de batalha da Normandia. Entre eles e ao longo da costa francesa haviam sido escolhidas cinco praias para o início da invasão: Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword. Durante as horas que precederam o amanhecer, enquanto os paraquedistas combatiam nas sebes escuras da Normandia, a maior frota que o mundo jamais conhecera começou a tomar posições ao largo dessas praias – quase cinco mil navios, transportando mais de duzentos mil soldados, marinheiros e guardas costeiros. A partir das 6h30min da manhã, precedidos por um maciço bombardeio aéreo e naval, alguns milhares desses homens avançaram através das águas até a praia, na primeira onda da invasão.” pp. 11-12


A questão da condição climática: em maio foi melhor
Rommel esperava a ofensiva aliada simultânea à ofensiva russa

[O marechal-de-campo] Rommel tinha bastante confiança de que poderia deixar seu QG nessa época. Agora que passara o mês de maio – em que o tempo tinha sido perfeito para o ataque aliado – , ele tinha chegado à conclusão de que a invasão ainda não começaria por diversas semanas. Sentia-se tão confiante que até mesmo estabelecera um prazo para a finalização de todos os seus programas de construção de obstáculos antiinvasão. Sobre sua escrivaninha, havia uma ordem para o 7º e o 15º Exércitos: 'Todo esforço possível' – dizia o documento – 'deve ser feito para completar os obstáculos, de tal modo que um desembarque na maré baixa só se torne possível mediante um extremo custo para o inimigo... o trabalho deve ser acelerado … sua finalização deve ser informada a meu quartel-general até o dia 20 de junho'.

Ele agora concluía – do mesmo modo que Hitler e o alto comando alemão – que a invasão ocorreria ou simultaneamente à ofensiva de verão do Exército Vermelho ou logo depois. [Aqui referência à ofensiva planejada pela Operação Bragation, comandada pelo General Zhukov. Mais info em http://sgmsegundaguerramundialww2.blogspot.com.br/2014/05/1944-frente-oriental-preparativos-da-op.html ] O ataque russo, conforme todos sabiam, não poderia começar antes do degelo tardio dos campos congelados da Polônia e, portanto, eles não achavam que a ofensiva pudesse ser montada até o final de junho.

No oeste, as condições climáticas vinham piorando há vários dias, e, segundo parecia, o tempo iria ficar ainda pior.” p. 23


A 'muralha do Atlântico' toma forma a partir de 1942

Logo depois de sua chegada [em novembro 1943], Rommel realizara uma inspeção rápida e agitada da Muralha do Atlântico – e os resultados o deixaram consternado. Somente em poucos lugares ao longo da costa as fortificações maciças de concreto e aço haviam sido finalizadas : nos principais portos e estuários dos rios e sobre os pontos mais elevados que dominavam as passagens marinhas, mais ou menos desde as colinas que ficavam acima de Le Havre até a Holanda. No resto da orla marítima, as defesas encontravam-se nos mais diversos estágios de construção. Em alguns lugares, o trabalho nem sequer começara. Era verdade que a Muralha do Atlântico era uma tremenda barreira, mesmo em seu incompleto estado atual. Onde tinha sido acabada, estava cheia de canhões pesados. Mas não eram suficientes para satisfazer Rommel. Nada era suficiente para interromper o tipo de assalto gigantesco que Rommel – sempre recordando sua derrota esmagadora às mãos de Montgomery, durante os combates do ano anterior na África setentrional – sabia perfeitamente que estava por chegar. Perante seu olhar crítico, a Muralha do Atlântico era uma farsa. Com ironia, ele a denunciava como um 'devaneio da mente de Hitler, um castelo de nuvens'.

Apenas dois anos antes, não existia qualquer muralha.

[…]

A partir do outono de 1941, [o ditador alemão Adolf Hitler] começou a falar a seus generais sobre a transformação da Europa em uma 'fortaleza inexpugnável'. E em dezembro, depois que os Estados unidos entraram na guerra, o Führer bradou ao mundo que 'um cinturão de pontos fortemente defendidos e gigantescas fortalezas vai de Kirkenes [na fronteira entre a Noruega e a Finlândia] até os Pireneus [na fronteira franco-espanhola]... e é minha inquebrantável decisão tornar essas trincheiras inexpugnáveis contra os assaltos de qualquer inimigo'.

Era uma fanfarronada tão descabida quanto impossível. Descontando as irregularidades no contorno da costa, esta linha, que ia do Oceano Ártico ao norte até a Baía de Biscaia no sul, estendia-se por quase cinco mil quilômetros.

Mesmo no ponto mais estreito do Canal da Mancha, exatamente em frente da Grã-Bretanha, as fortificações não existiam. Mas Hitler estava obcecado por suas concepções de fortalezas. […]

Pouco havia sido feito para levantar as fortificações. Em 1942, enquanto a maré da guerra começava a voltar-se contra Hitler, grupos de comandos britânicos começaram a fazer incursões ao longo da fortaleza 'inexpugnável' da Europa. Então ocorreu o mais sangrento ataque dos comandos, em que mais de cinco mil heróicos canadenses desembarcaram em Dieppe. [Mais info sobre o Dieppe Raid ou Operation Jubilee em http://www.warmuseum.ca/cwm/exhibitions/newspapers/operations/dieppe_e.shtml ] Era como se a cortina de sangue que anunciava o início da invasão tivesse sido aberta. Os estrategistas britânicos ficaram sabendo até que ponto os alemães haviam fortificado os portos. Os canadenses tiveram 3.369 baixas, com novecentos mortos. A incursão foi desastrosa, mas causou um choque tremendo no espírito de Hitler. A Muralha do Atlântico, conforme ele trovejou perante seus generais, deveria ser finalizada com urgência. A construção deveria ser apressada 'fanaticamente'.

E realmente foi. Milhares de trabalhadores escravos labutaram noite e dia para erguer as fortificações. Foram derramados milhões de toneladas de concreto; tanto que, por toda a Europa ocupada pelas tropas de Hitler, tornou-se impossível conseguir cimento para qualquer outra coisa. Quantidades avassaladoras de aço foram encomendadas, mas esse artigo estava tão escasso que os engenheiros foram forçados a trabalhar sem ele. Como resultado, poucos abrigos subterrâneos ou casamatas tinham cúpulas giratórias, para cujas torres de metralhadoras o aço era indispensável, determinando que o campo de alcance dos canhões ficasse desse modo restrito. Tão grande foi a demanda de material e equipamento que partes da velha Linha Maginot francesa e das fortificações alemãs correspondentes (a Linha Siegried) foram desmanteladas, a fim de serem instaladas na Muralha do Atlântico. No final de 1943, embora a muralha estivesse longe de estar pronta, mais de meio milhão de homens trabalhava nas obras de defesa e as fortificações se haviam transformado em uma realidade ameaçadora.” pp. 26-29 [trechos]

fonte: RYAN, Cornelius. O Mais Longo dos Dias. [The Longest Day, 1959] trad. William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2008.


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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Preparativos para Operação Overlord (Dia D)











1944


Preparativos para a Operação Overlord (Dia D)


Quando [o general Dwight] Eisenhower começou a ajustar a imensa e pesada máquina de invasão, durante os primeiros meses de 1944, dúvidas e hesitações tomaram conta dalguns de seus mais importantes subordinados. Por exemplo, três divisões aeroterrestres saltariam na Normandia várias horas antes do ataque anfíbio. Sua tarefa principal consistiria em impedir que os alemães se deslocassem contra as forças anfíbias durante as primeiras horas da invasão, momento em que as tropas de terra transportadas por mar estariam mais vulneráveis. Depois, os paraquedistas deveriam garantir às tropas desembarcadas nas praias a saída para o interior do solo francês.

A 6ª Divisão Aeroterrestre britânica deveria saltar à esquerda da área de invasão e fixar a frente próximo da foz do rio Orne. As 82ª e 101ª Divisões americanas saltariam à direita da frente de invasão e se fixariam na extremidade da linha na península Cotentin.

Leigh-Mallory [Sir Trafford Leigh-Mallory, comanda as Forças Aéreas Expedicionárias Aliadas] ficou seriamente preocupado com a presença de forte contingente alemão precisamente nos locais onde as duas divisões deveriam saltar. Ele previu que se Eisenhower insistisse em que os desembarques se realizassem conforme programado, as baixas na 101ª seriam enormes, podendo alcançar até 70 por cento da unidade.

Depois de estudar o problema, Eisenhower considerou as operações aeroterrestres absolutamente necessárias. Ele estava convencido de que o índice de baixas previstos por Mallory não seria nem de longe alcançado.

Mas sua ansiedade levou-o a passar parte do último dia antes da invasão com essas tropas. Ele animou-se ao vê-las tão entusiasmadas. Todos lhe asseguraram que estavam prontos para partir e dar cumprimento à tarefa de que tinham sido incumbidos.

Realizada a tarefa, ficou provado que Eisenhower estava certo. As baixas registradas entre as tropas aeroterrrestres, cuja contribuição para o êxito do ataque anfíbio foi imensa, haviam sido relativamente leves.

Leigh-Mallory, dias após a invasão, desculpou-se por ter concorrido para aumentar ainda mais as enormes preocupações que afligiam Eisenhower na véspera da operação.

A mais meticulosamente preparada operação anfíbia, jamais tentada em escala tão avantajada, a Overlord estava pronta para começar quando o tempo, inesperadamente, se encheu de fúria. Marés e fases da lua são previsíveis, mas tempestades, não. Quando os ventos ficaram mais violentos, agitando fortemente o mar, e a chuva desabou torrencialmente sobre a Europa Ocidental, pareceu que a invasão malograria. Os aviões, com os céus inteiramente encobertos, não poderiam realizar as missões marcadas para os momentos que precederiam os desembarques. Os barcos pequenos afundariam, com os mares tão agitados, ou não chegariam às respectivas praias, e os soldados, mareados, não estariam em condições de lutar, se as alcançassem.

Mas se a Overlord fosse adiada até que o tempo melhorasse, várias semanas se passariam para que os desembarques pudessem ser reprogramados de forma a coincidirem com marés e lua favoráveis. Já então, grande parte do verão, o melhor período do ano para a campanha, teria passado.

Na noite de 3 de junho, Eisenhower foi até o QG de Ramsay, perto de Porstmouth, onde permaneceu durante os primeiros dias críticos da invasão. Seu meteorologista-chefe informou-lhe que um sistema de alta pressão estava-se deslocando, seguido de um sistema de baixa pressão, o que fazia prever mau tempo.

Às 04h30 de 4 de junho, véspera do dia programado para o ataque, os meteorologistas disseram que as condições marítimas seriam um pouco melhores do que se esperava inicialmente, mas o céu continuaria encoberto, o que impediria o funcionamento adequado das forças aéreas.

Mais tarde, naquele mesmo dia, os meteorologistas previram que as condições marítimas melhorariam, mas não o suficiente para que o apoio naval se fizesse de forma ideal e não prejudicasse as manobras dos barcos pequenos.

Eisenhower perguntou aos seus subordinados principais o que achavam deveria ser feito. Montgomery [ o general britânico] disse que queria prosseguir. Tedder e Leigh-Mallory manifestaram-se favoráveis ao adiamento da operação. Ramsay permaneceu neutro.

Depois de os ouvir, Eisenhower resumiu o ponto crítico do problema. As forças de terra, disse ele, não eram esmagadoramente poderosas. A operação só era viável porque os Aliados estavam em vantagem quanto à superioridade aérea. Sem essa vantagem, os desembarques seriam arriscados demais. Assim sendo, ele decidiu adiar os desembarques por 24 horas.

Ordens foram despachadas imediatamente para os navios, que retornaram aos portos, reabasteceram-se e prepararam-se para zarpar novamente no dia seguinte.” pp. 88 e 89


fonte: BLUMENSON, Martin. Eisenhower. Trad. Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Renes, 1976.



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terça-feira, 6 de maio de 2014

1944 Frente Oriental - Preparativos da Op. Bragation






1944

Frente Oriental

Movimentos da tropas soviéticas
Preparativos da Operação Bragation

      “Em princípios de março [de 1944], o Supremo Comando soviético [Stavka] decidiu lançar uma ofensiva em larga escala por intermédio da Primeira, Segunda e Terceira Frentes da Ucrânia, a fim de completar a libertação do território ocidental ucraniano, conhecido como a margem direita. A estratégia básica da ofensiva implicava o desfechar de golpes simultâneos ao longo da ampla frente que cobria toda a região que ia de Polesye ao estuário do Dnieper e por meio deles fraccionar o inimigo e destruí-lo em seguida.

     A Segunda Frente da Rússia Branca [Bielorússia], organizada a 24 de fevereiro [de 1944], na região situada entre a Primeira Frente da Rússia Branca e a Primeira Frente da Ucrânia, deveria atacar na direção da região de Kovel-Brest, enquanto a esta última caberia golpear na direção de Chertkov e Chernovtsy e, assim, cortar as rotas de retirada do Grupo de Exércitos do Sul, na região situada ao norte do rio Dniester. A Segunda Frente Ucraniana atacaria partindo da área de Zvenigorodka e tomaria o rumo de Uman e Iasi; a Terceira Frente Ucraniana, partindo de Krivoy Rog, dirigir-se-ia para Nikolayev e Odessa. A Quarta Frente da Ucrânia não tomaria parte nessas operações, mas deveria preparar-se para desfechar uma ofensiva na Crimeia.

      Durante os preparativos finais para a campanha, o Exército Vermelho sofreu séria perda. A 29 de fevereiro, enquanto viajava para visitar suas unidades, o General Vatutin foi seriamente ferido quando, com membros de seu Estado-Maior, rodava de carro por uma estrada, vítima de emboscada preparada por nacionalistas ucranianos. Vatutin ainda sobreviveu por mês e meio, depois de operado, vindo a falecer a 15 de abril.

     No dia 1º de março, [o general Georgi] Zhukov substituiu Vatutin no comando da Primeira Frente da Ucrânia e, dias depois, deu início à ofensiva de Chernovtsy, investindo contra o reduto defensivo alemão. Entre os dias 7 e 11 de março, as tropas de assalto de Zhukov capturaram toda a área de Volochisk-Cherny-Ostrov e cortaram o tráfego ferroviário Lvov – Odessa, no curso de um avanço que as levaram a mais de cem quilômetros do ponto de partida. Dubno, a antiga fortaleza, dando vistas a íngreme penhasco às margens do rio, onde o cossaco Taras Bulba [no romance de 1835, de Nicolai Gogol] combateu, caiu em poder das forças da Primeira Frente Ucraniana a 17 de março e no dia seguinte foi capturada a importante junção ferroviária de Zhmerinka. Kremenets caiu em poder dos russos a 19 de março, por meio de operação combinada, e no dia posterior, outro grande entroncamento ferroviário, o de Mogilev Podolski, foi capturado. As forças de Zhukov continuaram em ofensiva, e a 21 de março o I Exército de Tanques forçou a passagem do Dniester, ao mesmo tempo em que outras unidades atravessavam o rio Prut e reconquistavam Chernovtsy.

     Dando prosseguimento à sua ofensiva na direção oeste, as unidades de Zhukov derrotaram os alemães no sopé dos Cárpatos e atingiram as fronteiras da Tcheco-Eslováquia e da Romênia, capturando, também, a importante cidade de Tarnopol. Na noite de 15 de abril, os moscovitas ouviram as já familiares salvas que anunciavam as vitórias.

      A 15 de maio, [o Coronel-General Ivan] Konev assumiu o comando da Primeira Frente da Ucrânia, o que permitiu a Zhukov encarregar-se da preparação de uma grande ofensiva destinada a recapturar a República da Rússia Branca. Recebendo em código o nome de 'Bragation' (em homenagem ao grande herói da campanha de 1812, contra Napoleão), a operação previa o domínio do bolsão germânico na área de Vitebsk-Bobruisk-Minsk e um avanço geral na direção de Desna, Molodechno, Stalbtsy e Starobin.

     Os flancos das tropas alemãs que defendiam o saliente deveriam ser atacados por duas forças, o Grupo A, que consistia de unidades das Frentes do Báltico e da Rússia Branca, e o Grupo B, composto de unidades das Primeira e Segunda Frentes da Rússia Branca, e incluiriam setenta e sete divisões de infantaria e três blindadas, além de um corpo mecanizado e outro de cavalaria. A operação foi planejada no sentido de efetuar uma penetração de cerca de 150 quilômetros, em mais ou menos quarenta ou cinquenta dias. A Stavka, que examinou o plano de operações, nomeou [o General Aleksandr] Vasilevsky para coordenar as atividades do Grupo A e Zhukov, para as do Grupo B.” pp. 124-126


fonte: CHANEY Jr., Otto Preston. Zhukov – Marechal da União Soviética. Trad. Alcídio de Souza. Rio de Janeiro: Renes, 1976.


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