quinta-feira, 15 de maio de 2014

Preparativos para Operação Overlord (Dia D)











1944


Preparativos para a Operação Overlord (Dia D)


“Quando [o general Dwight] Eisenhower começou a ajustar a imensa e pesada máquina de invasão, durante os primeiros meses de 1944, dúvidas e hesitações tomaram conta dalguns de seus mais importantes subordinados. Por exemplo, três divisões aeroterrestres saltariam na Normandia várias horas antes do ataque anfíbio. Sua tarefa principal consistiria em impedir que os alemães se deslocassem contra as forças anfíbias durante as primeiras horas da invasão, momento em que as tropas de terra transportadas por mar estariam mais vulneráveis. Depois, os paraquedistas deveriam garantir às tropas desembarcadas nas praias a saída para o interior do solo francês.

A 6ª Divisão Aeroterrestre britânica deveria saltar à esquerda da área de invasão e fixar a frente próximo da foz do rio Orne. As 82ª e 101ª Divisões americanas saltariam à direita da frente de invasão e se fixariam na extremidade da linha na península Cotentin.

Leigh-Mallory [Sir Trafford Leigh-Mallory, comanda as Forças Aéreas Expedicionárias Aliadas] ficou seriamente preocupado com a presença de forte contingente alemão precisamente nos locais onde as duas divisões deveriam saltar. Ele previu que se Eisenhower insistisse em que os desembarques se realizassem conforme programado, as baixas na 101ª seriam enormes, podendo alcançar até 70 por cento da unidade.

Depois de estudar o problema, Eisenhower considerou as operações aeroterrestres absolutamente necessárias. Ele estava convencido de que o índice de baixas previstos por Mallory não seria nem de longe alcançado.

Mas sua ansiedade levou-o a passar parte do último dia antes da invasão com essas tropas. Ele animou-se ao vê-las tão entusiasmadas. Todos lhe asseguraram que estavam prontos para partir e dar cumprimento à tarefa de que tinham sido incumbidos.

Realizada a tarefa, ficou provado que Eisenhower estava certo. As baixas registradas entre as tropas aeroterrrestres, cuja contribuição para o êxito do ataque anfíbio foi imensa, haviam sido relativamente leves.

Leigh-Mallory, dias após a invasão, desculpou-se por ter concorrido para aumentar ainda mais as enormes preocupações que afligiam Eisenhower na véspera da operação.

A mais meticulosamente preparada operação anfíbia, jamais tentada em escala tão avantajada, a Overlord estava pronta para começar quando o tempo, inesperadamente, se encheu de fúria. Marés e fases da lua são previsíveis, mas tempestades, não. Quando os ventos ficaram mais violentos, agitando fortemente o mar, e a chuva desabou torrencialmente sobre a Europa Ocidental, pareceu que a invasão malograria. Os aviões, com os céus inteiramente encobertos, não poderiam realizar as missões marcadas para os momentos que precederiam os desembarques. Os barcos pequenos afundariam, com os mares tão agitados, ou não chegariam às respectivas praias, e os soldados, mareados, não estariam em condições de lutar, se as alcançassem.

Mas se a Overlord fosse adiada até que o tempo melhorasse, várias semanas se passariam para que os desembarques pudessem ser reprogramados de forma a coincidirem com marés e lua favoráveis. Já então, grande parte do verão, o melhor período do ano para a campanha, teria passado.

Na noite de 3 de junho, Eisenhower foi até o QG de Ramsay, perto de Porstmouth, onde permaneceu durante os primeiros dias críticos da invasão. Seu meteorologista-chefe informou-lhe que um sistema de alta pressão estava-se deslocando, seguido de um sistema de baixa pressão, o que fazia prever mau tempo.

Às 04h30 de 4 de junho, véspera do dia programado para o ataque, os meteorologistas disseram que as condições marítimas seriam um pouco melhores do que se esperava inicialmente, mas o céu continuaria encoberto, o que impediria o funcionamento adequado das forças aéreas.

Mais tarde, naquele mesmo dia, os meteorologistas previram que as condições marítimas melhorariam, mas não o suficiente para que o apoio naval se fizesse de forma ideal e não prejudicasse as manobras dos barcos pequenos.

Eisenhower perguntou aos seus subordinados principais o que achavam deveria ser feito. Montgomery [ o general britânico] disse que queria prosseguir. Tedder e Leigh-Mallory manifestaram-se favoráveis ao adiamento da operação. Ramsay permaneceu neutro.

Depois de os ouvir, Eisenhower resumiu o ponto crítico do problema. As forças de terra, disse ele, não eram esmagadoramente poderosas. A operação só era viável porque os Aliados estavam em vantagem quanto à superioridade aérea. Sem essa vantagem, os desembarques seriam arriscados demais. Assim sendo, ele decidiu adiar os desembarques por 24 horas.

Ordens foram despachadas imediatamente para os navios, que retornaram aos portos, reabasteceram-se e prepararam-se para zarpar novamente no dia seguinte.” pp. 88 e 89


fonte: BLUMENSON, Martin. Eisenhower. Trad. Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Renes, 1976.



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terça-feira, 6 de maio de 2014

1944 Frente Oriental - Preparativos da Op. Bragation






1944

Frente Oriental

Movimentos da tropas soviéticas
Preparativos da Operação Bragation

      “Em princípios de março [de 1944], o Supremo Comando soviético [Stavka] decidiu lançar uma ofensiva em larga escala por intermédio da Primeira, Segunda e Terceira Frentes da Ucrânia, a fim de completar a libertação do território ocidental ucraniano, conhecido como a margem direita. A estratégia básica da ofensiva implicava o desfechar de golpes simultâneos ao longo da ampla frente que cobria toda a região que ia de Polesye ao estuário do Dnieper e por meio deles fraccionar o inimigo e destruí-lo em seguida.

     A Segunda Frente da Rússia Branca [Bielorússia], organizada a 24 de fevereiro [de 1944], na região situada entre a Primeira Frente da Rússia Branca e a Primeira Frente da Ucrânia, deveria atacar na direção da região de Kovel-Brest, enquanto a esta última caberia golpear na direção de Chertkov e Chernovtsy e, assim, cortar as rotas de retirada do Grupo de Exércitos do Sul, na região situada ao norte do rio Dniester. A Segunda Frente Ucraniana atacaria partindo da área de Zvenigorodka e tomaria o rumo de Uman e Iasi; a Terceira Frente Ucraniana, partindo de Krivoy Rog, dirigir-se-ia para Nikolayev e Odessa. A Quarta Frente da Ucrânia não tomaria parte nessas operações, mas deveria preparar-se para desfechar uma ofensiva na Crimeia.

      Durante os preparativos finais para a campanha, o Exército Vermelho sofreu séria perda. A 29 de fevereiro, enquanto viajava para visitar suas unidades, o General Vatutin foi seriamente ferido quando, com membros de seu Estado-Maior, rodava de carro por uma estrada, vítima de emboscada preparada por nacionalistas ucranianos. Vatutin ainda sobreviveu por mês e meio, depois de operado, vindo a falecer a 15 de abril.

     No dia 1º de março, [o general Georgi] Zhukov substituiu Vatutin no comando da Primeira Frente da Ucrânia e, dias depois, deu início à ofensiva de Chernovtsy, investindo contra o reduto defensivo alemão. Entre os dias 7 e 11 de março, as tropas de assalto de Zhukov capturaram toda a área de Volochisk-Cherny-Ostrov e cortaram o tráfego ferroviário Lvov – Odessa, no curso de um avanço que as levaram a mais de cem quilômetros do ponto de partida. Dubno, a antiga fortaleza, dando vistas a íngreme penhasco às margens do rio, onde o cossaco Taras Bulba [no romance de 1835, de Nicolai Gogol] combateu, caiu em poder das forças da Primeira Frente Ucraniana a 17 de março e no dia seguinte foi capturada a importante junção ferroviária de Zhmerinka. Kremenets caiu em poder dos russos a 19 de março, por meio de operação combinada, e no dia posterior, outro grande entroncamento ferroviário, o de Mogilev Podolski, foi capturado. As forças de Zhukov continuaram em ofensiva, e a 21 de março o I Exército de Tanques forçou a passagem do Dniester, ao mesmo tempo em que outras unidades atravessavam o rio Prut e reconquistavam Chernovtsy.

     Dando prosseguimento à sua ofensiva na direção oeste, as unidades de Zhukov derrotaram os alemães no sopé dos Cárpatos e atingiram as fronteiras da Tcheco-Eslováquia e da Romênia, capturando, também, a importante cidade de Tarnopol. Na noite de 15 de abril, os moscovitas ouviram as já familiares salvas que anunciavam as vitórias.

      A 15 de maio, [o Coronel-General Ivan] Konev assumiu o comando da Primeira Frente da Ucrânia, o que permitiu a Zhukov encarregar-se da preparação de uma grande ofensiva destinada a recapturar a República da Rússia Branca. Recebendo em código o nome de 'Bragation' (em homenagem ao grande herói da campanha de 1812, contra Napoleão), a operação previa o domínio do bolsão germânico na área de Vitebsk-Bobruisk-Minsk e um avanço geral na direção de Desna, Molodechno, Stalbtsy e Starobin.

     Os flancos das tropas alemãs que defendiam o saliente deveriam ser atacados por duas forças, o Grupo A, que consistia de unidades das Frentes do Báltico e da Rússia Branca, e o Grupo B, composto de unidades das Primeira e Segunda Frentes da Rússia Branca, e incluiriam setenta e sete divisões de infantaria e três blindadas, além de um corpo mecanizado e outro de cavalaria. A operação foi planejada no sentido de efetuar uma penetração de cerca de 150 quilômetros, em mais ou menos quarenta ou cinquenta dias. A Stavka, que examinou o plano de operações, nomeou [o General Aleksandr] Vasilevsky para coordenar as atividades do Grupo A e Zhukov, para as do Grupo B.” pp. 124-126


fonte: CHANEY Jr., Otto Preston. Zhukov – Marechal da União Soviética. Trad. Alcídio de Souza. Rio de Janeiro: Renes, 1976.


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terça-feira, 22 de abril de 2014

1944 Preparações da Operação Overlord






1944


Preparações da Operação Overlord


“A escolha de Eisenhower foi debatida e decidida no transcurso da conferência realizada no Cairo. Churchill, quando Roosevelt lhe falou no nome do general americano, disse-lhe que ficaria encantado em ter Eisenhower no comando. Quando os dois líderes se reuniram com Stálin em Yalta, Roosevelt comunicou ao russo que Eisenhower comandaria a operação.

Depois das conferências do Cairo e de Yalta, Roosevelt parou em Túnis, na volta a Washington. Eisenhower voou de Argel para avistar-se com ele. No carro em que se deslocavam do aeroporto para a cidade, Roosevelt disse-lhe displicentemente: 'Bem, Ike, você vai comandar a 'Overlord'.

Eisenhower ficou realmente surpreso, pois esperava que Marshall comandasse a invasão.

Na realidade, não havia medida mais lógica do que a indicação de Eisenhower para a tarefa. Em termos de experiência e capacidade demonstrada, bem como em termos de resultados obtidos, ninguém melhor que ele para dirigir tão grande e tão complexo esforço.

Eisenhower fora muito longe, no ano e meio de comando, desde que fora nomeado com certa apreensão, para conduzir a Operação Tocha.

Para ajudá-lo a realizar a invasão e a campanha do noroeste europeu, Eisenhower criou o Q-G Supremo da Força Expedicionária Aliada (SHAEF), que era muito parecido, na forma, ao QGFA, de estrutura basicamente americana, mas com seções de equipes anglo-americanas integradas.

Bedell Smith acompanhou Eisenhower, para chefiar o Estado-Maior do general; Tedder foi nomeado Subcomandante Supremo aliado; Carl Spaatz dirigia os bombardeiros estratégicos aliados; Bradley estava no comando do 1º Exército americano e também do 1º Grupo de Exército americano. Patton comandaria o 3º Exército americano. Embora Eisenhower planejasse entregar a Alexander o comando das tropas de terra britânicas, Churchill preferiu deixá-lo no Mediterrâneo, indicando Montgomery para o cargo.

Encerrando a lista dos elementos de cúpula da grande invasão vinham Sir Trafford Leigh-Mallory, que dirigiria as Forças Aéreas Expedicionárias Aliadas, incumbidas de debilitar as defesas inimigas, Sir Henry Ramsay, comandante naval aliado, responsável pelo transporte dos soldados pelo Canal e que os apoiaria quando desembarcassem.

Para substituto eventual de Eisenhower, Churchill nomeou H. Maitland Wilson, que comandara os britânicos no Oriente Médio. Para comandar os contigentes americanos no Mediterrâneo, na qualidade de oficial mais graduado daquela área, foi indicado o americano Jacob L. Devers, que voou de Londres para Argel, a fim de dirigir a concentração americana para a Overlord.


A grande tarefa, na execução da Overlord, eram a colocação de tropas em terra e o reforço adequado dessas tropas, para o avanço subsequente na direção da Alemanha. O Passo de Calais, do outro lado do Canal, em sua parte mais estreita, era o local óbvio para os desembarques; perto de Antuérpia, um dos grandes portos da Europa, ele se abria para o caminho mais direto para a Alemanha. Mas as defesas alemãs eram naturalmente mais poderosas no Passo de Calais, onde, segundo supunham os germânicos, seria feito o ataque.

Para frustrar a expectativa deles, os Aliados desembarcariam na Normandia, na costa da Baía do Sena. Depois de tomarem a península de Cotentin, que lhes daria o porto de Cherburgo, os Aliados se deslocariam de Caen pela planície de Falaise, que lhes ofereceria terreno plano para aeródromos, e depois diretamente para Paris. […]


Depois de passar as duas primeiras semanas de janeiro de 1944 nos Estados unidos, Eisenhower foi para Londres e estudou o plano COSSAC detalhadamente. A leitura do plano da Operação Overlord, de autoria de Morgan, convenceu-o, e a Montgomery e Smith, de que o ataque inicial teria de ser bem mais amplo e mais forte. Três divisões, as quais Morgan fora limitado, devido à escassez de barcaças de desembarque, eram insuficientes, na opinião de Eisenhower, para assegurar o êxito.

A fim de obter mais barcaças de desembarque, o Dia D foi adiado de princípios de maio para 5 de junho. Isto daria aos fabricantes americanos e britânicos mais tempo para produzir os vasos necessários. Além disso, como os desembarques de Anzio estivessem preparados e exigissem a retenção de barcaças de desembarque no Mediterrâneo, foi sugerido o cancelamento da invasão do sul da França, a chamada Operação Bigorna [Anvil].


[…]


Churchill insistiu em Anzio. Como Eisenhower continuasse favorável à Bigorna, estabeleceu-se um meio-termo. Os desembarques no sul da França foram adiados. Em lugar de ocorrerem simultaneamente com a Overlord, a Bigorna seria desencadeada depois que os Aliados tomassem Roma. Então as barcaças e navios de desembarque seriam usados par deslocar algumas forças da Itália para o sul da França.” [pp. 86 e 88]


fonte: BLUMENSON, Martin. Eisenhower. Trad. Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Renes, 1976.



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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Burma 1944 - Batalhas de Imphal e Kohima





IMPHAL E KOHIMA

Vitória do Exército Esquecido


Março de 1944: com base no pensamento que o ataque é geralmente
a melhor forma de defesa, o 15º Exército japonês ataca em Burma


Os eventos que levaram à batalha por Kohima começaram na noite de 7 de março de 1944, quando o Tenente-General Renya Mutaguchi, que comandava o 15º Exército japonês, lançou a Operação U-go, enviando suas divisões pelo rio Chindwin em um ataque batizado de 'A Marcha para Deli'. Na primeira fase estariam as conquistas de grandes armazéns e centros de administração que os ingleses tinham construído Imphal.


Ataques diversionários foram lançados ao sul de Imphal, mas, além do ataque principal ao almoxarifado militar, o passo mais importante foi o deslocamento da 31ª Divisão, do Tenente-General Sato, que cruzou o Chindwin em 15 de março e seguiu para o pequeno povoado de Kohima na vila Naga, com um espaço aberto no qual o destacamento de tropas armadas treinaram, um campo de reforços onde soldados que retornavam de licença ou deixavam o hospital esperavam a próxima ação, o bangalô do comissário local com um jardim no terraço e uma quadra de tênis e sua posição tática vital no comando da única estrada pela qual os reforços ingleses podiam seguir para Imphal vindos do fim da ferrovia de Manipur.



Defesa Britânica Rápida


Eles enfrentaram um perímetro de defesa rapidamente organizado com cerca de 1.500 homens, a maioria do 4º Royal West Kents, acrescidos de homens da força para-militar indiana Assam Rifles (recuando de posições avançadas de onde observavam e tentavam atrasar o avanço de Sato) e os extraordinariamente corajosos aldeões de Naga. Uma formação vital inglesa, a qual os primeiros invasores japoneses desconheciam, era uma bateria de metralhadoras de 94 mm localizada no lado oposto de uma montanha em Jotsoma, a 3,2 km do oeste de Kohima, formada por atiradores da 161ª Brigada Indiana.


Em questão de horas, os japoneses do 58º Regimento receberam provas da ferocidade do grupo – e, o Royal West Kents, da teimosia dos adversários. Os japoneses varreram Kohima da vila Naga à montanha Jail e, na noite de 6 de abril, conseguiram conquistar mais dois locais dentro do perímetro de defesa, conhecidos como D.I. S. e F.S.D. Mas as unidades de ataque foram aniquiladas na manhã seguinte pelo contra-ataque dos Royal West Kents.


No entanto, a essa altura, mais e mais membros dos 12.000 homens da infantaria de Sato e seus atiradores estavam chegando, e o próprio comandante estava confiante que em 48 horas venceria. Sete dias depois, sua confiança estava abalada. Na noite de 13 de abril, ataques em massa de grupos de soldados foram parados pela teimosa infantaria de defesa, ajudada pela mira incrivelmente acurada dos atiradores de Jotsoma. Eles conseguiram desfazer as formações japonesas, deram cobertura para os grupos de defesa e saquearam os sobreviventes assim que receberam ordens de voltar.


No dia seguinte, reforços para os aflitos ingleses chegaram a Jotsoma e começaram a planejar abrir caminho com explosões pelos últimos 3,2 km. Isso se mostrou extremamente difícil. O atraso necessário de 24 horas foi quase fatal, pois, durante aquela noite, os japoneses tinham explodido a localidade F.S.D. Com todas as bombas e morteiros que tinham; o perímetro de defesa começou a se desintegrar, e as posições em F.S.D. E na sua vizinha Kukri Piquet foram perdidas. Mas, às 08hs do dia 18 de abril, os ingleses em Jotsoma e nos arredores responderam com um bombardeio devastador à altura e, sob essa proteção, conseguiram aliviar a guarnição original.


A batalha, no entanto, ainda não tinha acabado. No lado britânico, brigadas da 2ª divisão avançavam pela estrada de Dimapur, enquanto, no lado japonês, mais e mais membros da 31ª Divisão de Sato eram posicionados. Como não havia espaço físico para as duas divisões (inglesa e japonesa) operarem na área de Kohima, ações para encurralar o inimigo foram tentadas pelos dois lados no entorno de Kohima. A situação era tal que uma taxa de avanço de 1,6 km por dia sem nenhuma oposição inimiga era aceita como média. Quando em 27 de abril, uma chuva torrencial começou a cair, o avanço se tornou quase impossível, e problemas como diarreia e disenteria causaram mais baixa do que armas e bombas.


Durante todo tempo esse, na parte central da cadeia de montanhas de Kohima, o núcleo da batalha continuava em combate. Os Durhams enfrentaram um ataque na montanha Garrison que custou a Sato tantas baixas que ele ordenou que não fossem mais realizados ataques noturnos e enviou uma mensagem dura para Mutaguchi reclamando do tempo que ele demorava para conquistar Imphal e da total falta de apoio e de abastecimento em Kohima.”
pp. 218-219



fonte: BISHOP, Chris & McNAB, Chris. II Guerra Mundial: campanhas dia a dia. Vol. 3 - A Guerra no pacífico 1942-1945. trad. Tatiana Napoli. São Paulo: Ed. Escala, 2009.


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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Campanhas dos Aliados - início de 1944







Preocupações dos Aliados no início de 1944


Preparativos para o Dia D


“O engajamento em Anzio [porto da Itália, alvo da Operation Shingle] , principalmente o atraso imprevisto na execução da ampliação da cabeça de praia, teve várias consequências; [Winston ] Churchill [primeiro-ministro britânico] viu-se obrigado a aceitar o cancelamento ou a preterição de projetos, alguns dos quais lhe eram caros. Esvaiu-se qualquer esperança tênue de realizar uma ação contra Rhodes; em princípios de fevereiro os Chefes de Estado-maior comunicaram 'o abandono de qualquer esforço para trazer a Turquia para a guerra o mais breve possível.' No Extremo Oriente frustraram-se os planos que Mountbatten elaborara para Pigstick, uma operação anfíbia de escala menor do que a ambiciosa operação Buccaneer. No dia 28 de dezembro, quando recebeu o 'tudo azul' de Roosevelt para a operação contra Anzio, Churchill enviou um telegrama para Londres: 'Concordo que deveria ser Pigstuck [porco enterrado], ao invés de Pigstick [mata porco].' O mais importante de tudo foi que os impasses em Monte Cassino e na operação Shingle criaram necessidades tão grandes de reforços, e consequentemente de navios, - em fevereiro previu-se para os dois meses seguintes uma movimentação de 276.000 homens e 34.000 viaturas – que o General Wilson, Comandante-Chefe do teatro de operações do Mediterrâneo, informou aos Chefes de Estado-maior, no dia 22 de fevereiro: 'Opino pelo cancelamento de Anvil.'


Afinal, aí estava algo que Churchill poderia aprovar. Durante o período de convalescença, em Marrakesh, o Primeiro-ministro recebeu Montgomery, em viagem para a Inglaterra a fim de assumir sua função em Overlord. Na véspera do Ano Novo [de 1944] Churchill entregou-lhe o plano Cossac, a respeito do qual Eisenhower já manifestara seu desagrado a Montgmorey. O general examinou o plano durante a noite e comunicou a Churchill, pela manhã: 'A minha primeira impressão é que o presente plano é impraticável.' Na realidade, os dois comandantes que haveriam de travar as batalhas concretamente tinham chegado a uma conclusão igual a de Churchill, ao examinar pela primeira vez as propostas de Morgan na época da conferência de Quebec: era preciso ampliar a frente do assalto e aumentar o valor da força de desembarque. Os Chefes de Estado-Maior ingleses também sentiam dúvidas a respeito do plano. Mas a ampliação da frente e as divisões a serem adicionadas implicavam em mais embarcações de desembarque, mais navios cargueiros, mais navios de guerra e mais aviões. E de que forma poderiam ser obtidos, em janeiro de 1944, a não ser cancelando ou preterindo Anvil e desmarcando a data de Overlord, já firmemente prometida a Stalin para maio?


Quando Churchill regressou a Londres já encontrou o trabalho adiantado. Uma revisão do plano Overlord original, realizada pelo próprio Cossac e pelos chefes de Estado-Maior sob a inspiração de Montgomery, confirmou as novas necessidades. No dia 10 de janeiro Montgomery solicitou a Eisenhower 'que entrasse na briga e obtivesse aquilo que se desejava'. Em 23 de janeiro o Comandante Supremo (que sempre fora favorável a Anvil) estava tão convencido da nova realidade que enviou telegrama aos Chefes do Estado-Maior Conjunto, órgão ao qual era subordinado, comunicando que o plano Overlord deveria ser ampliado, que Anvil, reduzido em suas proporções, deveria ser conservado a título de ameaça para o inimigo e que, se necessário, a operação Overlord deveria ser adiada por um mês. (Nesta altura dos acontecimentos, só Churchill pareceu compreender que dois elementos vitais, lua e maré, forçavam o adiamento por prazo igual a um mês.)

[…]

“Enquanto isto, arrastava-se a luta difícil e indecisa em Anzio e nas montanhas italianas, sem oferecer esperanças nem de um sucesso em curto prazo, nem de uma consequente diminuição das necessidades em homens e navios. Simplesmente não havia o suficiente para todos. Todavia, no dia 24 de março, após a segunda solicitação do General Wilson, os americanos afinal concordam em adiar Anvil para julho e transferir do teatro de operações do Mediterrâneo as embarcações de assalto solicitadas por Overlord. Ora, esses desentendimentos entre os aliados nada significavam se comparados com o que acontecia entre os ingleses. No dia 4 de março o General Ismay, o leal e astuto chefe do estado-maior de Churchill, escreveu-lhe anunciando que:

'… deparamo-nos com toda a certeza com um choque de opinião entre o Gabinete de Guerra e seus assessores militares; não se pode descartar a possibilidade de alguns assessores solicitarem demissão. Na atual conjuntura uma divergência desse vulto, indesejável em qualquer ocasião, configuraria uma catástrofe. Todos consideram Overlord uma operação bastante arriscada. É preciso proporcionar a ela todas as oportunidades de sucesso.'


Quando Ismay escreveu 'o Gabinete de Guerra', evidentemente estava querendo dizer 'o Primeiro-ministro'. Relembrando 1940, o charuto, o 'V' feito com os dedos, as mensagens radiofônicas vibrantes, o cidadão comum não poderia imaginar quão perigosamente perto do rompimento estavam as relações entre o Primeiro-Ministro e seus Chefes de Estado-Maior, e isto apenas três meses antes do Dia D, acontecimento que coroaria o desempenho de Churchill como Grande Comandante.”
pp. 275-278


fonte: LEWIN, Ronald. Churchill – O Lorde da Guerra. Trad. Cel. Álvaro Galvão. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1979.



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Operation Shingle – Battle of Anzio – janeiro 1944




Batalha em Monte Cassino – Itália, janeiro – maio 1944



Operation Culverin – planejada para a Sumatra



Operation Overlord – Battle of Normandy – junho 1944



Operation Dragoon – ou Anvil - sul da França – agosto 1944




História do COSSAC




segunda-feira, 24 de março de 2014

1944 / o drama do Holocausto [Shoah]





1944


A sistemática do Holocausto [Shoah]

(trecho de A Lista de Schindler)

“Durante as neves daquele ano, Plaszòvia [Plaszow] passou por uma adversa mudança nas condições sociais de todos os amantes do campo. Nos primeiros dias de janeiro de 1944, foi organizado um Konzentrationslager (Campo de Concentração) sob a autoridade central do General SS Oswald Pohl, do Escritório Econômico e Administrativo em Oranienburg, nas cercanias de Berlim. Subcampos de Plaszóvia – tais como o da Emalia [fábrica de esmaltados], de Schindler – também passaram a ser controladas em Oranienburg. Os chefes de polícia Scherner e Czurda perderam autoridade direta. Os salários de trabalho de todos os prisioneiros empregados por Oskar e Madritsch não foram mais para a Rua Pomorska mas para o escritório dp General Richard Glücks, chefe da Seção D (Campos de Concentração) de Pohl. Agora, quanto precisava de favores, Oskar não tinha de ir somente a Plaszóvia amaciar Amon [comandante Amon Goeth] e convidar Julian Scherner para jantar, mas também entrar em contato com certos funcionários do grande complexo burocrático de Oranienburg.


Oskar logo arranjou uma oportunidade de viajar para Berlim e travar conhecimento com as pessoas que iriam lidar com a sua ficha. Oranienburg tinha começado como um campo de concentração. Agora se tornara uma vasta organização administrativa. Nos escritórios da Seção D, eram regulamentados todos os aspectos da vida e da morte de prisioneiros. O seu chefe, Richard Glücks, tinha também a responsabilidade, de acordo com Pohl, de estabelecer o equilíbrio entre trabalhadores e candidatos às câmaras de gás, para a equação em que X representava trabalho e Y representava os próximos condenados.


[…]


Nessa sinistra chancelaria, alguns arquivos se referiam a discussões sobre qual o comprimento obrigatório do cabelo de um prisioneiro, material considerado utilizável economicamente 'na manufatura de meias para tripulações de submarinos e feltro de cabelo para calçados', ao passo que em outros se discutia se o formulário registrando 'casos de morte' devia ser arquivado por oito departamentos ou simplesmente citado por carta e apenso aos registros de pessoal, a fim de que as fichas de arquivo fossem atualizadas. E era nessa chancelaria que Herr Oskar Schindler de Cracóvia [Kraków] precisava falar do seu pequeno conjunto industrial em Zablocie. [...]”
pp. 231-32


…
“Agora que Plaszóvia era – na linguagem dos burocratas – um campo de cocnentração, seus prisioneiros constataram ser menos perigoso deparar com Amon [Goeth, comandante]. Os chefes de Oranienburg não permitiam mais as execuções sumárias. Os tempos em que era fuzilado quem não descascasse batatas com bastante rapidez pertenciam ao passado. Agora só podiam se liquidados através de um processo legal. Tinha de haver um interrogatório e um relatório remetido em três cópias para Oranienburg. A sentença precisava ser confirmada não apenas pelo escritório do Genral Glück mas também pelo Departamento W (Empreendimentos Econômicos) do General Pohl. Se um comandante matasse algum dos trabalhadores essenciais, o Departamento W podia ver-se a braços com reivindicações de compensação. Allach-Munich, Ltd., por exemplo, fabricantes de porcelana, que usavam trabalho escravo de Dachau, tinham recentemente exigido uma indenização de 31.800 RM porque 'em resultado de epidemia de febre tifóide que surgiu em 1943, deixamos de ter à nossa disposição mão-de-obra de prisioneiros desde 26 de janeiro de 1943 até 3 de março de 1943. em nossa opinião temos direito à compensação, de acordo com a Cláusula 2 do Fundo de Compensação Comercial …'


O Departamento W ficava ainda mais obrigado a compensações, se a perda de mão-de-obra especializada era causada pelo zelo de algum oficial da SS rápido no gatilho.


Assim, para evitar a burocracia e as complicações departamentais, Amon passou a conter-se um pouco. As pessoas que apareciam na sua proximidade, na primavera e começo do verão de 1944, de certa forma se sentiam mais seguras, embora nada soubessem sobre o Departamento W e os Generais Pohl e Glücks. Para elas era um indulto tão misterioso quanto a própria demência de Amon.


Contudo, como Oskar tinha mencionado a henry Rosner, eles agora queimavam os corpos em Plaszóvia. Preparando-se para a ofensiva russa, a SS estava abolindo suas instituições no Leste. Treblinka, Sobibor e Belzec haviam sido evacuados no outono anterior. A Waffen SS, que os administrava, recebera ordem de dinamitar as câmaras de gás e crematórios, não deixar vestígio algum reconhecível, e fora transferida para a Itália, a fim de combater os guerrilheiros. O imenso complexo de Auschwitz, em terreno seguro no norte da Silésia, completaria a grande tarefa no Leste e, uma vez concluída, o crematório seria soterrado. Pois, sem a evidência do crematório, os mortos não podiam prestar testemunho, eram um sussurro no vento, uma poeira inconsistente nas folhas dos álamos.


Plaszóvia não era de solução tão simples, porque os seus mortos jaziam por toda parte em seu redor. No furor da primavera de 1942, cadáveres – sobretudo os das pessoas assassinadas nos últimos dois dias do gueto – eram jogados a esmo em valas comuns nos bosques. Agora, o Departamento D encarregou Amon de descobrir todas aquelas valas.


Os cálculos quanto à quantidade de corpos variam muito. Publicações polonesas, baseadas no trabalho da Comissão Central para investigação de Crimes nazistas na Polônia e em outras fontes de informação, afirmam que 150 mil prisioneiros, muitos deles em trânsito para outros locais, passaram por Plazsóvia e seus cinco subcampos. Desses, os poloneses acreditam que 80 mil morreram ali, muitos em execuções em massa dentro de Chujowa Górka ou vítimas de epidemias.


Essa estimativa desconcerta os sobreviventes de Plaszóvia que se lembram do horrendo trabalho de queimar os mortos. Afirmam que só o número de corpos, por eles exumados, atinge mais ou menos entre oito mil e dez mil – proporção apavorante, e que eles não têm a menor vontade de exagerar. A diferença entre as duas estimativas fica mais chocante, quando lembramos que execuções de poloneses, ciganos e judeus continuariam em Chujowa Górka e em outros pontos nas circunvizinhanças de Plaszóvia, durante quase todos aqueles anos, e que os próprios SS adotaram a prática de queimar corpos imediatamente após as execuções em massa no morro do forte austríaco. Além disso, Amon não iria conseguir realizar a sua intenção de remover dos bosques todos os corpos. Alguns milhares mais seriam encontrados em exumações no pós-guerra e hoje, quando os subúrbios de Cracóvia [Kraków] se aproximam cada vez mais de Plaszóvia, ainda são encontrados ossos nas escavações para fundações.


Oskar viu a enfiada de piras na elevação do terreno acima das oficinas, durante uma visita pouco antes de seu aniversário. Quando voltou, uma semana depois, a atividade havia aumentado. Os corpos eram desenterrados por prisioneiros que trabalhavam de rosto tapado. Em cobertores, padiolas e macas eram levados para o local da incineração e depositados sobre toras de madeira. A pira era arrumada camada por camada, e quando alcançava a altura do ombro de um homem, encharcada com combustível e acesa. Pfefferberg se horrorizara, vendo a vida temporária com que as chamas animavam os mortos, a maneira como os corpos se sentavam, atirando para longe as toras ardentes, os membros estirando-se, as bocas se escancarando como para um derradeiro grito. Um jovem SS da estação de despiolhamento corria entre as piras, sacudindo a pistola e esbravejando ordens frenéticas.


A fuligem dos mortos recaía nos cabelos dos vivos e sobre as roupas postas a secar nos varais do quintal dos oficiais subalternos. Oskar ficou pasmo ao ver a indiferença com que o pessoal do campo aceitava a fumaça, como se a fuligem no ar proviesse de alguma honesta e inevitável precipitação industrial. No ar esfumaçado, Amon saía a cavalo com Majola, ambos muito calmos em suas montarias. Leo John levava o filho de doze anos para apanhar sapos no terreno pantanoso da mata. As chamas e a fedentina não lhes perturbavam a vida quotidiana.”
pp. 241-243


fonte: KENEALLY, Thomas. A Lista de Schindler. 13ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1995.




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filme Schindler's List




sexta-feira, 14 de março de 2014

Discursos de Thomas Mann [ trechos ] 1944






Thomas Mann


Ouvintes Alemães – Discursos contra Hitler


[trechos de discursos de 1944]


30 de janeiro de 1944


Ouvintes alemães!

   “Quando lemos certas manifestações da propaganda nazista que continuam sendo difundidas de forma mecânica e quase inaudível, nos perguntamos se são o produto do isolamento doentio, do terrível afastamento do mundo e da realidade, se provêm de um inconformismo da loucura ou se significam a falsificação atrevida da razão, a insolente inversão de sentido da linguagem, a consciente distorção da verdade. “Olha-se para o mundo”, disse Goebbels, “e vem a pergunta sobre se a vida ainda teria algum sentido para a humanidade se nossos inimigos atingissem seu objetivo.” isso é insolência ou loucura? É talvez uma mistura das duas. Mas essa mistura é ainda mais repugnante do que cada uma delas separadamente. Já o mero fato de ouvir a palavra 'humanidade' vinda dessa boca nos revolve o estômago. De onde ele a tira? Faz parte de seu vocabulário? Será que lhe falta bom senso para reconhecer que em posições caracterizadas por certas doutrinas e atos – a posição nacional-socialista, por exemplo – é preciso se abster de determinadas palavras e conceitos para pertencerem a uma outra esfera, a uma contraesfera, e por não lhe dizerem respeito? Será que ele pensa que se pode simplesmente roubar, saquear e 'expropriar' no âmbito espiritual e moral como se faz no da realidade? Que ideia é essa de falar sobre 'humanidade'? Será que ele alguma vez acreditou nisso? Será que ele, seu Führer e todo seu bando, todos esses filósofos-carrascos e ajudantes de carrasco, não debocharam, eliminaram por decreto, abusaram e assassinaram a humanidade, a própria ideia de ser humano, sempre que puderam? E ele se preocupa humanamente com o sentido que a vida terá para a humanidade quando ela se livrar do nacional-socialismo! É isso, o nazismo, que ele toma pelo sentido da humanidade – ou seja, isso contra o que os povos sedentos de paz resolveram, pegando em armas tardia e desesperadamente, proteger sua humanidade, sua dignidade humana e sua liberdade diante da queda na escravidão bárbara. Leste e Oeste se sacrificam e sangram por terem se colocado a questão – razoável e própria dos espíritos saudáveis – sobre o sentido da vida no caso de a Alemanha nazista atingir seu objetivo, a saber, a submissão do mundo. Goebbels sabe disso, por isso utiliza o truque do deboche louco, ou da loucura debochada, de distorcer a pergunta.


[...]




28 de fevereiro de 1944


Ouvintes alemães!

[…]


     “Que vergonha pensar na hecatombe das vidas humanas que caíram vítimas do herói desolador desse livro [de Konrad Heiden, “Führer's Rise to Power”] e que ainda continuam caindo! Permitiram-lhe que dissesse: “Estou pronto a pagar com dois milhões de vidas alemãs para alcançar meu objetivo” - o objetivo de, após a profanação da Alemanha, profanar o mundo inteiro através do nacional-socialismo. Bem, a cifra de dois milhões foi há muito superada, mesmo se só fossem contados os alemães que morreram no campo de batalha. Mas a conta sangrenta da guerra total que o mundo teve se aprender com a Alemanha é bem outra, muito mais alta –e, claro, não é apenas uma conta alemã. Deve-se acrescentar as perdas da Rússia, que são ainda maiores. Deve-se ter em conta a colheita que a morte fez entre os povos violentados da Europa, entre poloneses e judeus, tchecos, gregos, noruegueses, holandeses, iugoslavos, os assassinatos em massa, os suicídios. Temos de acrescentar por antecipação os terríveis sacrifícios que os povos anglo-saxões ainda terão de trazer à batalha final, povos que, eles próprios, estão condenados a trazer morte e destruição por quererem a paz por tempo demais. E ainda teremos de somar o que o duende do mal, de quem o livro conta a história, terá custado ao mundo. Serão 20 ou 25 milhões de vidas? Talvez mais, muito mais, se for incluída toda a destruição causada diretamente. E para quê toda essa torrente de sangue? Para que um vazio, um zero, dele se inche como o ventre de uma aranha.

     A humanidade nunca vai se perdoar por ter deixado acontecer o que aconteceu e ainda vai acontecer. E nunca vai compreender por que um povo, o alemão, mesmo depois que toda ilusão e toda esperança se dissiparam, continua a lutar com coragem de leão, com louca tenacidade, até a Europa se transformar em um campo fumegante de ruínas habitado apenas por umas poucas criaturas que vagueiam como lobos – só para prolongar a vida de um punhado de notórios patifes e libertinos do poder cujo domínio é um peso para eles mesmo e definitivamente inaceitável para o resto do mundo.





28 de março de 1944


Ouvintes alemães!

      “Nos países livres, a guerra total, os bombardeios às cidades alemães e a miséria que eles trazem à população civil são um problema de consciência pública. Não faltam vozes na Inglaterra nem na América que condenem alto e bom som, sem medo – também sem nenhum impedimento - , essa terrível maneira de conduzir a guerra e que reclamam severamente que assim se desce ao nível infame do inimigo e se degrada a humanidade que se pretende defender. Esses protestos são altamente dignos e o sentimento que os origina não é estranho a nenhuma pessoa civilizada. O que aconteceu em Colônia, Hamburgo, Berlim e outros lugares é horrível e ajuda pouco dizer a si mesmo que brutalidade desmedida deve ser combatida com brutalidade desmedida; que aqui reina Nêmesis e que não se trata de uma ação e sim, muito mais, de um acontecimento de vingança. Certamente, a gritaria dos nazistas é desprezível; sua propaganda contra os 'hunos dos ares' nasceu morta e é mortalmente impotente. Mas trata-se da consciência da liberdade, dos atos trágicos que terá de cometer, daquilo que lhe é estranho e não natural, daquilo que por sua própria lei moral não deve fazer e, no entanto, por causa da proclamação da violência sobre a Terra, é obrigada a fazer. O dilema é difícil, inquietante e opressivo.


     E mesmo assim não é dilema algum. Uma só palavra ou notícia da terra dos nazis basta para eliminá-lo, para resolver a questão, para calar toda dúvida e nos fazer sentir que há uma infâmia da mentira, uma infâmia derradeira e diabolicamente atrevida, insuperável e insuportável, incompatível com a existência humana, uma infâmia que exige a chuva de fogo e enxofre e que só pode ser respondida de uma maneira: com bombas, com a aniquilação.

[…]

pp. 167- 174 [trechos]


Fonte: MANN, Thomas. Ouvintes alemães!: discursos contra Hitler (1940-1945). (Deutsche Hörer!) Trad. Antonio Carlos dos Santos e Renato Zwick. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.



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sobre a Campanha de bombardeio estratégico contra a Alemanha





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