terça-feira, 5 de novembro de 2013

peça [trecho] O Vigário - de Rolf Hochhuth




trecho da peça teatral O Vigário [O Representante]
[ Der Stellvertreter, 1963; The Deputy, 1964; El Vicario]
de Rolf Hochhuth [1931-]

Ato I – A Missão / Ato II – Os Sinos de São Pedro
Ato III – A Visita

Ato IV – Il Gran Rifiuto

(a ação se passa em 1943. quando há referência ao Chefe, entenda-se o Papa Pio XII, Eugênio Pacelli, 1876-1958. LdeM)

No Palácio Pontifício. Uma pequena Sala do Trono, quase vazia, frequentemente usada como salão para audiências mais íntimas e conversas sobre negócios. Está atapetada de vermelho – cor das vestes dos Cardeais que, como se sabe, simboliza a disposição de defender a fé a ponto de 'derramar o próprio sangue'. O Papa veste de branco, evidentemente. Sua batina é tão alva como a pomba com o ramo de oliveira do seu brasão de armas, bordado com a tiara e as duas chaves cruzadas na colgadura suspensa atrás do trono dourado.

Esta colgadura eleva-se até o baldaquino que, por sua vez, se eleva até ao teto – tão alto que não é visível aqui. De ambos os lados do trono, pouco elevado, há uma porta estreita e alta, também encobertas, as duas, por cortinas de ouro e púrpura. Encostado à parede da esquerda está um consolo de estilo barroco, com um relógio astronômico e apetrechos para escrever. Em cima, um grande crucifixo de latão forjado. Alguns escabelos dourados junto às paredes. Não há guardas.

O Cardeal está conversando com o velho Fontana [Conselheiro da Santa Sé]. O Conde, com uma pasta debaixo do braço, está de casaca, com a Ordem de Cristo. Sua Eminência, embora esteja bem no seu ambiente, mostra-se mais impessoal que em suas visitas à casa dos Fontana ou ao convento, mais parcimonioso e comedido em palavras e gestos.

CARDEAL (lamentando-se): … seja como for, não é verdade? … foi só em setembro que Herr Hitler...
FONTANA: Ah, sim, foi há pouco...
CARDEAL: Sim! Muito confidencialmente, fez saber ao Chefe que considera os bombardeiros como qualquer outra arma, não é mesmo? Que o Governo Alemão foi o primeiro a empregar essa arma e espera responder já, como vigor, ao atual contra-ataque dos Aliados. Vamos ver, não é mesmo?
FONTANA: Naturalmente, o orgulho impede Hitler de mandar o Papa como emissário à Casa Branca.
CARDEAL (não sem malícia): Mas o Chefe está muito ofendido, como sempre, quando rejeitam os seus préstimos como intermediário. Gosta tanto de escrever cartas a Mr. Roosevelt, que não dizem nada, não é mesmo?
FONTANA (vivamente): É a Hitler que ele deveria escrever, Eminência! Esse revoltado, esse patife até com os judeus de Roma se permite...
CARDEAL: O senhor pensa que Herr Hitler sabe como a sua corja se comporta aqui? Seja como for, também viemos hoje para falar nisso. Tenho rezado pelos judeus...
FONTANA (frio): Constitui uma reabilitação que o Papa finalmente protestasse, Eminência. Ouvi esse rumor hoje de manhã cedo, por intermédio do homem de confiança [ Kurt Gerstein, Obersturmführer SS] que meu filho [Riccardo Fontana] tem nas SS .
CARDEAL (muito surpreendido e até assustado): Protestar? De modo nenhum, o Chefe não protestou, Conde! Aí vem ele. Não, disso eu não sei nada.
FONTANA (surpreso): Mas sim! Hoje de manhãzinha, ele …

[…]

CARDEAL (sinceramente contrariado): Sim, não é mesmo? … Agora, depois da queda de Mussolini, que apesar de tudo sempre enfrentou o comunismo e era uma garantia da ordem social, produziu-se um vácuo que me enche de grande pavor, não é mesmo? Graças a Deus que os alemães ainda estão no país e não permitirão greves nem madraçaria. Mas... que vai acontecer quando as suas tropas se retirarem, hem... não é mesmo?
PAPA: então teremos os americanos aqui, Eminência. À tarde receberemos o enviado do Presidente em audiência. Infelizmente, Mr. Taylor vem sempre e sempre com o pedido de Mr. Roosevelt para que condenemos as infâmias praticadas por Hitler. Não foram os alemães que bombardearam San Lorenzo. Os alemães retiraram todos os livros e pergaminhos de Monte Cassino, pondo-os a salvo no Castelo Sant'Angelo (em tom aflito) e depois vieram os bombardeiros de Mr. Roosevelt e converteram essa cidadela de paz em cinza e pó. Não obstante, que falta de tato a dos alemães, levando também os judeus de Roma. (Sumamente indignado): Tendes ouvido falar disso, Conde? … Eminência? Que coisa mais malcriada!
FONTANA: Roma está abalada,Santíssimo Padre.
CARDEAL: sim, não é mesmo? .. um atrevimento infame!
FONTANA: Seja-me permitido, também em nome dos israelitas que têm procurado refúgio em minha casa, expressar os meus mais profundos agradecimentos a Vossa Santidade.
PAPA (todo bondade, espontâneo, cordial): Mas, caro Fontana, não é preciso dizer que Nós faremos, como sempre, tudo aquilo que Deus nos permitir fazer para amparar os infelizes.
FONTANA: Constitui uma verdadeira redenção o ter Vossa Santidade feito agora tão decidida ameaça como uma declaração pública. Ser-me-á permitido, com toda a humildade, perguntar se já houve alguma reação do Comandante alemão da cidade?

O Papa olha com desconfiança e sem compreender para o Cardeal, e depois para Fontana.

CARDEAL: O Comandante da cidade? Reação a quê?
PAPA (desconfiado): Reação? A quê, Conde?
FONTANA (algo inseguro, suspeitando o que está por vir): Bem, ouvi meu filho dizer que o Bispo Hudal, esta manhã, ameaçou o Comandante da cidade de que Vossa Santidade faria um protesto pela primeira vez desde que a guerra começou.
PAPA (com aspereza): O bispo ameaçou? Em Nosso Nome! Eminência, haveis dado poderes a Hudal, em nome da Santa Sé ou em Nosso Nome...
CARDEAL: Tomo a Deus por testemunha, Santíssimo Padre! Eu só ouvi falar do protesto aqui, dos lábios do Conde... Não pode ser, não acredito, não é mesmo...
FONTANA (excitado): Não sei quais os termos exatos! O Bispo talvez não tenha protestado realmente em nome de Sua Santidade, e sim apenas anunciado que era de esperar uma declaração pública do Santo Padre. Meu filho [Riccardo Fontana ] diz...
PAPA (muito descontente): Vosso filho, Conde Fontana... onde está vosso filho? Não devia estar em Lisboa?
CARDEAL (assustado, pressuroso): Esta lá embaixo, na Secretaria de Estado, Beatíssimo Padre, à minha espera.
PAPA (sumamente indignado): Mandai-o subir! Terá de explicar-nos com que autoridade se permite, como membro de Nosso Serviço Exterior, intrometer-se constantemente nesses assuntos. Os judeus e os alemães são matéria afeta aos dois Padres que para tanto nomeamos expressamente.

O Cardeal dirigiu-se logo a porta e murmurou uma ordem ao Guarda Suíço. Em face da cólera do papa, o dever de obediência leva-o também a mostrar má cara ao velho Fontana.

FONTANA: Perdão, Santíssimo padre, para meu filho. Seu zelo é filho do desespero. Em Berlim ele foi testemunha de como os nazistas arrojavam criancinhas judias em caminhões...
PAPA (um gesto de aborrecimento, e depois com voz apaixonada, impulsivo): Testemunha! … Conde, um diplomata tem de ver muita coisa e … calar. Vosso filho não tem noção de disciplina. O Núncio de Bratislava já sabia, em julho do ano passado, que tinham eliminado os judeus eslovacos do distrito de Lublin. Deixou ele Bratislava por causa disso? Não, continuou a cumprir o seu dever, e vede o resultado: nenhum outro judeu está sendo levado para a Polônia. Quem quiser ajudar, não deve provocar Hitler: tem de atuar secretamente, como os nossos dois Padres, com discrição, astuto como a serpente. Assim é que se deve lidar com os S S. Ocultamos centenas de judeus em Roma. Milhares receberam salvo-condutos! Hitler já não é tão perigoso. Diz-se em Portugal e na Suécia que ele está negociando a paz com Stalin. São rumores que nos alegram o coração, pois, embora saibamos que nada têm de certo – assim o esperamos, ao menos – contribuirão um pouco para dispor mais a Casa Branca e Londres a um compromisso: é preciso negociar, não se deve apostar a Europa inteira num 'tudo ou nada', e fazer de Stalin o herdeiro de Hitler. Deixamos que as autoridades pastorais de cada localidade decidam por si mesmas até que grau cabe esperar represálias, no caso de proclamações episcopais. Se ficamos calados, caro Conde, também calamos ad maiora mala vitanda (para evitar males maiores).

FONTANA (comovido): Mas o Núncio de Vossa Santidade em Bratislava, com o seu protesto, salvou a vida de inúmeras vítimas, sem que os assassinos se vingassem.
PAPA: Lembrai-vos de Nossa última mensagem de natal; foi toda uma súplica pelo amor ao próximo. E qual o resultado? Os assassinos simplesmente a ignoraram.
FONTANA: Santíssimo Padre, também eu senti imenso pesar ao ver que a mensagem não produziu efeito. Mas, lamentavelmente, nela Vossa Santidade não mencionava expressis verbis os judeus, nem tampouco o terror dos bombardeamentos contra cidades abertas. A mim me parece que, diante de Hitler e Churchill, é preciso falar com a franqueza mais rude.

[…]

RICCARDO (perdendo por momentos o domínio de si mesmo): Esse auxílio só alcança alguns judeus da Itália, Eminência! Isso também já foi discutido muitas vezes. (Voltando-se para falar simultaneamente ao Papa): Mas o terror reina agora em todos os países! Só na Polônia já foram assassinados um milhão e oitocentos mil judeus! E como esta cifra foi transmitida oficialmente em julho ao Legado Papal em Washington, pelo Embaixador de Varsóvia junto à Casa Branca – Deus não há de querer que Vossa Santidade a ignore!
CARDEAL (indignado): Saia daqui para fora... não é mesmo … como se atreve a falar desse modo na presença do Santo Padre! Conde, proíba seu filho...

Durante as últimas palavras de Riccardo o Papa levantara-se, mas depois volta a sentar-se. Decorre um momento antes que consiga falar, o que faz com grande esforço.

PAPA: 'ignorar'! Não temos a intenção de prestar contas a Riccardo Fontana. O Senhor seu Pai não tem nada a dizer? Não obstante, gostaríamos de acrescentar algumas palavras ao assunto. (Com aspereza crescente, numa tentativa de mudar de tema): Sabeis, vós, Sr. Secretário, exempli causa, que há algumas semanas já estávamos preparados, com ouro, com grande soma de ouro, para ajudar os judeus de Roma, que queriam deportar, a sair de sua dificuldade? Os bandidos de Hitler prometeram a liberdade dos judeus mediante resgate. Depois, quiseram exigir-nos uma soma completamente fora da realidade, uma chantagem. Pois ainda assim, pagamos!

RICCARDO (volta-se desconcertado para o pai; depois, diz rapidamente ao Papa): Então Vossa Santidade já sabia, há várias semanas, o que os SS queriam fazer aos judeus?
PAPA (irritado, evasivo): Que dizeis?! O Superior-Geral poderá confirmar tudo o que já se fez. Os conventos e mosteiros estão de portas abertas...

[…]

FONTANA (interpondo-se entre o filho e o Papa): Posso falar pelo meu filho, Beatíssimo Padre?
PAPA: De que se trata, Conde?
FONTANA: Santidade, se ousasse pedir-vos, com toda a humildade... Ameaçai Hitler de forçar quinhentos milhões de católicos a protestar cristãmente se ele continua com os assassínios em massa!

O Papa vê que tem de responder de modo objetivo a este experimentado conselheiro. Está desgostoso, irritado e fala como se voltasse a dizer o que já tinha explicado mil vezes antes. Não obstante, consegue dominar-se, aproxima-se de Fontana e põe-lhe a mão no ombro.

PAPA: Fontana! Um conselheiro da vossa perspicácia! Como é amargo que também vós não Nos compreendais. Não vedes que a catástrofe é iminente para a Europa cristã, se Deus não Nos utiliza, a Santa Sé, como Mediador? A hora é tenebrosa, embora tenhamos por certo que o Vaticano não será atacado. Herr Hitler renovou muito recentemente a sua garantia. Mas... e os Nossos batéis que estão ao largo e temos de pilotar? A Polônia, todos os Balcãs e também a Áustria e a Baviera.... a que portos irão arribar? Poderiam naufragar facilmente na tormenta, ou ser arrastados à deriva para os recifes de Stalin. Hoje, a Alemanha é Hitler. Só os fantasistas diriam que a queda do atual regime alemão não teria como consequência o colapso da frente militar. Pelos generais de Hitler que o querem suprimir, não temos o menor respeito. Eles queriam negociar na primavera de 1940. E como o fizeram? Deixaram-se condecorar por Hitler e reduziram a Europa inteira a escombros. Conhecemos essa gente desde que estivemos em Berlim : os generais não têm nenhuma opinião. Se Hitler cai, voltam para casa...
CARDEAL: E Stalin ficaria com o caminho livre para Varsóvia, Praga e até Viena... sim, direto ao Reno, não é mesmo?
PAPA (que se sentou outra vez): Verá bem claro isto o Presidente Roosevelt? Stalin nem sequer escuta uma palavra que ele diga. Desde a conferência de Casablanca [em janeiro de 1943], a razão deixou de dominar na Casa Branca. E Mr. Churchill é fraco demais. Não parece que se decida a abrir uma segunda frente no Ocidente. Ficaria feliz se os russos e alemães se exaurissem uns aos outros completamente na luta.

CARDEAL: Nós também não podemos ser muito contrários a isso, não é mesmo?
PAPA (sublinhando cada palavra com uma palmada no braço do trono): Somente Hitler defende hoje a Europa, caro Conde. E combaterá até a morte, porque um assassino não espera perdão. Não obstante, o Ocidente deve perdoá-lo na medida em que ele seja útil no Leste. Em março, declaramos publicamente que nada, absolutamente nada, tínhamos a ver com os objetivos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Primeiro, ele têm de acertar as coisas com os alemães. O Ministro de Assuntos Exteriores da Espanha, infelizmente, já propagou isso pelo mundo inteiro. Mas, seja como for, a Razão de Estado proíbe denunciar Hitler como um bandido, pois ele deve continuar a ser um interlocutor digno. Não temos alternativa. O Serviço Secreto de Hitler aqui em Roma entrou em contato com o Superior-Geral dos Jesuítas... é lamentável, Sr. Secretário, que nada saibais dos esforços de vosso Superior...

RICCARDO: Sei muito bem, Santíssimo Padre. Mas não entendo que possamos utilizar Hitler como instrumento.
PAPA: Um instrumento que atiraremos fora, tão logo...
CARDEAL: Louvado seja Deus, Sr. Secretário, que a sua opinião seja completamente insignificante.
RICCARDO (hostil): O Santo Padre me fez uma pergunta, Eminência! Devo responder, Santíssimo Padre?
PAPA (álgido): Objetivamente, sim, objetivamente. Objetivamente.
RICCARDO (em tom de ataque, cujo único resultado é já ninguém lhe dar ouvidos): Santíssimo padre, deve-se ter em mente que nós, os jesuítas, estamos formando há anos especialistas para a Rússia, que seguiriam atrás de Hitler, isto é, das tropas alemãs, com o fim de catequizar os russos.
CARDEAL (furioso): Sim... e daí? Poderia prever, Sr. Secretário, antes da invasão, que Stalin conseguiria aguentar tanto tempo?
RICCARDO (outra vez para o Papa): Também os comentários de muitos Bispos sobre a pretensa cruzada de Hitler são... blasfêmias. Também é culpa do Vaticano, Santíssimo Padre, se agora a tormenta vermelha ameaça a Europa. Quem semeia ventos... Resumindo, a Rússia é que foi atacada!

O Papa faz um par de movimentos nervosos com as mãos. Cala-se, seja por estar tão agitado que não consegue articular a voz – como antes – seja por considerar abaixo de sua dignidade o dar resposta.


[...]

pp. 179-191 (trechos)

fonte: HOCHHUTH, Rollf. O Vigário. [Der Stellvertreter] trad. João Alves dos Santos. Grijalbo, 1965.


mais info em



sobre a Conferência de Casablanca
janeiro de 1943


filme Amen [2002] de Costa Gravas
baseado na peça de Hochhuth

para ouvir


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Discurso de Thomas Mann - 30 outubro 1943




Thomas Mann

Ouvintes Alemães!
Discursos contra Hitler
[1940-1945]




30 de outubro de 1943


Ouvintes alemães!

A bestialidade dos nazistas, seu vandalismo, sua estúpida e perversa crueldade, os incontáveis crimes em toda parte, dos quais vocês na Alemanha talvez só tenham uma pálida ideia – nada disso impede ninguém no mundo de sentir terrivelmente o horror e a miséria que os ataques ingleses e americanos às cidades industriais e aos portos alemães também causaram a milhares de inocentes. Os números – os números oficiais alemães – são importantes. De acordo com eles, 1,2 milhão de civis foram mortos nesses ataques, cerca de 7 milhões perderam suas casas e seus lares e foram condenados à situação de desabrigados. Não creiam que falte compaixão no mundo civilizado por toda essa infelicidade. Mas a maneira como a imprensa nazista trata essa infelicidade, como se aproveita dela para eximir de culpa o fascismo alemão e atribuir a seus adversários as maldições que se devem a esse fascismo e que ele sabe muito bem que se apoiam nele – a maldição da barbárie, a maldição da violação da humanidade -, agindo como se a Alemanha nazista nunca tivesse feito nada, como se ela fosse uma vítima atacada por um ódio destrutivo e criminoso! Tudo isso é tão estúpido e deplorável que o coração mais civilizado poderia deixar de sentir compaixão.

O porta-voz da Gestapo, um jornal chamado Das Schwarze Korps [Corporação Negra], sempre se distinguiu pelo atrevimento e pelo humor velhaco. Ele tem determinados colaboradores que de alguma forma aprenderam um pouco a escrever, que sabem imitar uns gestos morais, e os espetáculos de indignação moral e de humanitarismo ofendido que esses rufiões literários da violência agora promovem estão entre o que de mais descarado, mais absurdo e mais asqueroso o nacional-socialismo jamais ofereceu a seu próprio povo e ao mundo. Quem lê esses artigos talentosos sem recorrer à memória histórica ou sem saber de tudo o que a Alemanha nazista fez aos outros povos desde que começou sua guerra de rapina; quem nada soubesse da imperdoável embriaguez em que país se regalou durante anos, da arrogância de seus crimes triunfantes; quem não se lembrasse de Varsóvia, Roterdam, Londres e Coventry e das descrições triunfalistas de crueldade saciada que a imprensa alemã publicou sobre esses fatos – esse, ao ler esses comentários, temeria pelo futuro das potências anglo-saxãs, as quais, evidentemente, nada mais resta senão sufocar-se moralmente em seus crimes infames. De fato, os autores desses artigos se perguntam com séria preocupação pelo destino dessas raças. O que deve acontecer com elas? Tais crimes acumulados contra a humanidade têm de ser vingados, têm de ser pagos e o preço tem de ser terrível ...

É possível acreditar? Os escritores a serviço da Gestapo esbravejam pelas violações à humanidade – uma humanidade da qual o sistema a que eles servem zombou durante 11 anos, que declarou eliminada, que pisoteou. O que pensam esses homens? Que a guerra total que eles exaltavam, que eles consideravam a condição normal da humanidade, era um privilégio alemão e de mais ninguém, que era uma questão vital utilizar seus recursos? Eles contaram com a civilização dos outros, ou seja, com a suposta fraqueza e o abatimento das democracias, eles imaginaram que viveriam à custa delas e que se tornariam os mestres e os senhores de escravos do mundo. Eles imaginavam que o mundo seria de quem estivesse pronto e capaz para a guerra, e que eles eram os únicos prontos e capazes. Por um momento, parecia que eles tinham especulado corretamente. Há algo mais desprezível do que a gritaria com que eles responderam à decisão dos povos livres de pôr um fim à violência sem medidas com uma violência também desmedida?

Vingança e pagamento? Aí estão eles. O povo alemão está sofrendo a vingança por sua loucura e embriaguez; ele tem de pagar porque acreditou ter o direito à violência, crença que lhe foi inculcada por professores infames, e infelizmente o pagamento está só começando. É preciso dizer a vocês, alemães, que o que vocês sofrem hoje não se origina da brutalidade e da crueldade dos estrangeiros, mas que tudo vem do nacional-socialismo? Ele trazia tudo isso dentro de si desde o começo; dele nunca poderia sair outra coisa. Isso deveria ter sido visto em 1932 e 1933. Por não ter visto isso quando ainda havia tempo, a Alemanha carrega a mais pesada das culpas. Todavia ela não é culpada sozinha. O fascismo recebeu ajuda externa – não apenas por amor à paz, mas pelas piores razões. Mas sempre foi claro que um dia o mundo se fortaleceria e teria de se levantar para eliminar essa peste. Ele também sofre o suficiente por sua cumplicidade. Mas sua vitória é certa e ele vai vencer não apenas por sua liberdade, mas pela liberdade em si, que é também a liberdade da Alemanha.” pp. 153-156


Fonte: MANN, Thomas. Ouvintes alemães!: discursos contra Hitler (1940-1945). (Deutsche Hörer!) Trad. Antonio Carlos dos Santos e Renato Zwick. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.


a Guerra total : guerra mais curta:
o discurso de Goebbels em 1943


bombardeio aliado sobre as cidades alemãs





Vingança e retribuição:
para os nazistas significava o desenvolvimento e lançamento
das bombas-foguetes (os primeiros mísseis) V1 e V2
chamadas armas de vingança [Vergeltungswaffe]


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Campanha da Birmânia 1943-1944








Campanha da Birmânia


1943-1944


[Major-General] Wingate acompanhou [o Primeiro-Ministro Winston] Churchill `’Conferência de Quebec’, em agosto de 1943, onde a estrutura de comando das forças aliadas foi completamente reorganizada e o Comando do Sudeste Asiático (SEAC) foi criado, tendo à frente um comandante supremo. A escolha para o exercício do cargo recaiu na pessoa do Vice-Almirante Lorde Louis Mountbatten, tendo sido vencida a indicação dos americanos, que optavam por Wingate, pelos chefes de Estado-Maior britânicos. [General] Stilwell foi nomeado Subcomandante Supremo de Mountbatten, e um Estado-Maior britânico-americano serviria sob o comando de ambos. Os comandos da Índia e do Sudeste Asiático funcionariam separadamente. Todas as forças de terra a leste de Calcutá ficariam sob o SEAC (South East Asia Command), e seriam formadas por elementos do 11º Grupo de Exércitos, sob o General Sir George Giffard, da África Oriental. O 14º Exército, agora comandado por [Tenente-General Sir William] Slim, seria parte do 11º Grupo de Exércitos, e incluiria as divisões que se encontravam no Arakan, as da área de Imphal e, também, a projetada nova força Chindit, quando esta entrasse na área de operações. Assim começou uma bem sucedida parceria que durou quase dois anos, pois Giffard e Slim se respeitavam e tinham um pelo outro muita simpatia.
A maneira óbvia de recapturar a Birmânia e destruir as forças japonesas que a dominavam seria tomar seu único porto, Rangum, sem o qual as forças nipônicas ‘definhariam’. Esta possibilidade fora abandonada, devido à falta de barcaças de desembarque, de modo que os planos para 1944 giraram em torno do interesse americano na Birmânia – ou seja, como a única rota por onde uma linha de abastecimento poderia chegar à China e, assim, impedi-la de sair de todo da guerra.
Deste modo, a ‘Conferência de Quebec’ decidiu que o objetivo principal da ofensiva na Birmânia, em 1944, seria abrir uma estrada e um oleoduto em Ledo, passando por Mogaung e Myitkyna, até Kunming. O oleoduto abasteceria um grupo de bombardeiros americanos que atacariam alvos japoneses e esquadrões de caça incumbidos de apoiar as forças chinesas no continente. Uma área ao sul, que compreendia Indaw, seria defendida pelos Aliados para proteger esta rota para a China. O 14º Exército ajudaria, com uma ofensiva do Imphal para Indaw. Mas a figura central do plano seria Wingate que, com uma força Chindit ampliada, composta por seis brigadas de quatro batalhões cada uma, deveria cortar e manter cortadas as comunicações entre o sul e as forças japonesas que enfrentavam Stilwell na estrada de Ledo e os chineses do rio Mekong, a leste, até o momento em que essa área pudesse ser tomada por divisões regulares do IV Corpo.
Dessa forma, Slim se limitaria, em 1944, a apoiar os Chindits, enquanto os chineses treinados pelos americanos de Stilwell e os exércitos chineses em Kunming fariam o avanço. Stilwell foi colocado sob o comando de Slim nesta ofensiva, mas sendo também subcomandante supremo, ele podia fazer o que bem quisesse. Uma razão para que Slim recebesse papel tão limitado era que o Comando da Índia, sob [General] Auchinleck, de tal forma exagerara as dificuldades administrativas e de engenharia que o 14º Exército encontraria na penetração da Birmânia pelo leste, que Churchill e Roosevelt, com seus consultores, acharam que não poderiam obter muita ação ofensiva do exército indiano. Auchinleck ainda não compreendera os novos poderes, mobilidade e liberdade de ação que o abastecimento aéreo oferecia.


Os japoneses, contudo, também estavam pensando em ação ofensiva. A primeira operação Chindit [em maio de 1943] mostrara-lhes que suas comunicações eram agora vulneráveis a ataque pelas montanhas. Em junho de 1943, o comando japonês na Birmânia realizou uma conferência para estudar a melhor maneira de defender a Birmânia à luz das operações Chindits daquele ano. Na conferência ficou decidido que o melhor modo de frustrar a ofensiva britânica, da qual havia muitas indicações, seria atacar e cortar as vulneráveis comunicações do IV Corpo, que se evidenciavam como um cacho de uvas pendente do Dimapur, no vale do Brahmaputra. Eles poderiam então voltar-se e destruir as três divisões britânico-indianas baseadas na região Imphal – Kohima. Primeiro fariam um ataque diversivo no Arakan, para afastar as reservas do 14º Exército, para, a seguir, lançar seu ataque no norte. Como resultado dessa conferência, o Exército de Área da Birmânia também informou que um avanço para o centro de Assam estava além da capacidade do exército, naquele momento.
Tóquio examinou todo o plano do ponto de vista político e militar. Os japoneses haviam formado a Liga Nacional Indiana e o Exército Nacional Indiano (ENI) e adotado política agressiva para com a Índia, na esperança de reforçar o formidável movimento de independência antibritânico, para que os britânicos se vissem impossibilitados de usar a Índia como base de operações. O Q-G imperial decidiu que faria dessa ofensiva (que esperava pudesse compensar suas derrotas no Pacífico) um meio de provocar mais distúrbios na Índia, através do ENI, que consistia de cerca de uma brigada de soldados efetivos. Também reforçou a Birmânia com mais duas divisões e uma brigada independente.
O 14º Exército, de Slim, foi atraído para a campanha pela ofensiva nipônica. Os japoneses ainda desprezavam os britânicos – forças indianas que, até então, sempre puderam derrotar com forças inferiores. Desta vez eles próprios estavam excessivamente estendidos, pois não compreendiam todo o valor do abastecimento e apoio aéreos. Sem perceber que a planície de Imphal era uma região adequada à ação de tanques, eles avançaram praticamente sem blindados, num esforço por destruir as forças britânicas de um só golpe. Também dependiam da captura de suprimentos para se manterem, e suas linhas de comunicação eram vulneráveis à penetração Chindit.
Slim estava preocupado primeiramente com a ofensiva dos japoneses no Arakan e, depois, com o ataque que dirigiam contra Imphal - Kohima. Seu objetivo seria perseguir os derrotados japoneses Birmânia adentro, após ter conseguido os objetivos Mogaung – Myitkyina e depois que o oleoduto e a estrada para a China estivessem abertos.” pp. 60-61; 65-66


Forças Japonesas


Pelo final de 1943, os japoneses tinham seis divisões na Birmânia (15ª, 18ª, 31ª, 33ª, 55ª e 56ª), com a 53ª Divisão por chegar. Destas, a 55ª Divisão seria lançada numa ofensiva diversiva no Arakan, e três divisões (15ª, 31ª e 33ª) iriam com o ENI atacar Imphal e Kohima. Os japoneses também estavam preocupados com um desembarque naval perto de Rangum, e colocaram suas brigadas de reserva no sul da Birmânia, como precaução contra essa possibilidade. Seus efetivos aéreos haviam sido consideravelmente reduzidos pela retirada de unidades para reforçar as depauperadas forças aéreas do Pacífico, passando os britânicos, diante disso, a contar com efetiva superioridade aérea.
Para enfrentar este ataque de duas pontas, feito com quatro divisões (uma no Arakan e três em Imphal), Slim de início tinha, além da superioridade aérea, o XV Corpo (5ª e 7ª Divisões indianas e a 87ª Divisão Oeste-Africana) no Arakan e o IV Corpo (17ª, 20ª, 23ª Divisões indianas) na área de Imphal, além da 26ª Divisão e da 254ª Brigada de Tanques na reserva.
Slim também tinha, sob o comando de Stilwell, três divisões chinesas (22ª, 30ª e 38ª) na estrada de Ledo, no norte, e em 1944 teria as seis brigadas das Forças Especiais (os Chindits) disponíveis para ação ofensiva contra as comunicações japonesas.
Para completar o quadro, o XXXIII Corpo (2ª britânica, 36ª indiana e 5ª Brigada de paraquedistas) estava na reserva do 15º Grupo de Exércitos, com as 19ª e 25ª Divisões indianas, a 50ª Brigada de Tanques e a 3ª Brigada de Serviços Especiais também disponível, como parte da reserva geral. No leste da Birmânia, dois exércitos chineses estavam estacionados no Salween.


Por conseguinte, Slim dispunha de uma força formidável, mas encontrava dificuldades em aplicar seus efetivos contra os japoneses devido à falta de boas estradas. Os japoneses também tinham a vantagem inicial de estar em linhas internas, atrás de um obstáculo maciço, de modo que podiam mover facilmente divisões de um setor para outro, enquanto que os Aliados tendiam a ficar retidos na periferia.
Mas, excluindo-se os chineses, na frente de Salween, e incluindo as reservas mantidas no Ceilão, os Aliados dispunham de 15 divisões, duas brigadas de tanques e cerca de nove ou dez brigadas independentes para enfrentar no máximo sete divisões japonesas e uma brigada mista na Birmânia.” p. 69


Fonte: CALVERT, Michael. Campanha da Birmânia. Trad. Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Renes, 1978.


Mais info em








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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Negociações entre os Aliados - Conferências de 1943









Negociações entre os Aliados

Conferências de 1943
De Quebec a Teerã

Campanha na Itália e nos Balcãs
Campanha no Sudeste Asiático

As principais divergências a respeito da política para a Europa foram solucionadas pelos próprios Chefes do Estado-maior Conjunto durante reuniões reservadas; nas sessões plenárias de Quadrant [Conferência em Quebec, 17 a 24 agosto], quando Churchill e Roosevelt tratavam dos assuntos em companhia dos respectivos assessores, a Birmânia e o Pacífico dominavam os debates. Quebec produziu decisões definitivas sobre uma variedade ampla de assuntos, - desde os desembarques na Normandia até Tube Alloys [projeto para a bomba atômica] – mas o que não teve solução foi exatamente a estratégia em relação ao Japão. Portanto, era indispensável que os ingleses entrassem na discussão deste assunto delicado e controvertido não só com um espírito de harmonia, igual ao que existia entre Churchill e seus Chefes de Estado-Maior, mas também com ideias precisas sobre o que poderia ser feito sem ofender os americanos, e que até mesmo pudesse ser aprovado por eles.

Para os Estados unidos a Birmânia e a posse efetiva da Índia só tinham importância enquanto pudessem se constituir em rotas e bases de suprimentos para a China; entretanto, para eles este fato implicava na remoção do bloco japonês entre Rangum e a estrada da Birmânia. Para os Chefes de Estado-Maior ingleses a política ideal era diferente. Achava-se sintetizada em uma nota redigida pelos seus planejadores: 'a estratégia correta, e aquela que apressaria o fim da guerra, impõe que a conquista de Cingapura e do norte de Sumatra precede à conquista da Birmânia'.

[…] Sumatra continuava a ser um sonho do Primeiro-Ministro [Churchill]. Entretanto, perceberam que seria fatal chegar a Quebec com as mãos vazias. Foi daí que surgiu a ideia, depois de amplos debates com Wingate [Major-General Orde Wingate, em operação na Birmânia] a bordo do Queen Mary, de realizar uma grande operação com os Grupos de Penetração Profunda, na próxima estação seca, com a finalidade de dominar o norte da Birmânia, efetuar a ligação com Stillwell [General Joseph Stilwell, do Exércitos dos EUA, em operação no Sudeste Asiático] e os chineses e, desta forma, proteger e ampliar as rotas terrestres e aéreas para os exércitos de Chiang Kai-shek.

[…]

Assim, em sentido geral, a estratégia na Birmânia continuou a ser um futuro indefinido para os ingleses. Na realidade, foram os japoneses que criaram a possibilidade da própria derrota, ao tomarem uma iniciativa equivocada em 1944. Todavia, para que chegassem àquela iniciativa, e para a vitória final contra o Japão, Churchill teve que impor sua vontade em dois temas importantes durante Quadrant. O primeiro dizia respeito ao problema de um Comandante Supremo. O Primeiro-Ministro e os Chefes de Estado-Maior estavam ansiosos pela nomeação de um plenipotenciário, por analogia com Eisenhower no Mediterrâneo – mas com duas diferenças: deveria ser um inglês e, ao contrário de Eisenhower, ficar subordinado aos Chefes de Estado-Maior ingleses e não aos Chefes do Estado-Maior ingleses e não aos Chefes do Estado-Maior Conjunto.” pp. 247-249


Para quem quer que viesse a assumir finalmente o comando de Overlord haveria, pelo menos, um plano pronto, aprovado em Whitehall e em Washington. Convém recordar que na última conferência de cúpula, em maio, o General Morgan (Cossac) recebeu instrução para apresentar aos chefes do Estado-Maior Conjunto, até 1º de agosto, as propostas de plano para uma invasão aliada da Europa. Entre as intenções dos ingleses estava a de ter estas propostas em mãos de Churchill e seus assessores a bordo do Queen Mary, durante a viagem para Quebec. […]

Evidentemente Jupiter, uma invasão da Noruega, era uma obsessão do Primeiro-Ministro. Os Chefes do Estado-Maior Conjunto foram condescendentes com ele ao permitirem que Jupiter ficasse registrada na ata, mas é claro que ninguém levou o assunto a sério; e com razão. De muito maior importância foi o fracasso dos Chefes de Estado-Maior ingleses – e de Churchill – ao deixarem de perceber imediatamente a significação completa de uma proposta americana, no sentido de que os desembarques no norte da França fossem complementados com desembarques no sul daquele país – o embrião de Anvil, operação que manteve os aliados em franca controvérsia durante os meses seguintes. O fato da vulnerabilidade da proposta não haver sido exposta imediatamente pode ser considerado como decorrência de um outro fato: em Quebec, todas as discussões que envolveram o teatro de operações do sul foram dominadas por um aspecto de maior destaque, isto é, pela tentativa inglesa de fazer os americanos compreenderam que uma política de avanço pelo Mediterrâneo contribuiria diretamente para o sucesso de Overlord [invasão da Normandia] e não deveria ser considerada como diversionária.

[…]

O efeito consistiu na aceitação de uma certa latitude para o aproveitamento da derrota da Itália, ao invés de se estabelecer uma pausa nas operações aliadas no teatro do Mediterrâneo, cuja iminência manteve Churchill em Washington, mesmo depois de encerrada a conferência; sim, porque ele percebeu que o assunto teria que ser resolvido através de negociações dia a dia, ou até hora a hora, entre ele e o Presidente. Isto proporcionou-lhe também uma experiência ímpar: a comprovação daquele sentimento de unidade anglo-americana, o qual escora todas as rachaduras superficiais da estrutura. No fim da sua estada, no dia 11 de setembro, Roosevelt saiu de Washington e deixou a Casa Branca à disposição do Primeiro-Ministro. Churchill realizou ali uma reunião final entre os chefes das forças armadas americanas e representantes dos Chefes de Estado-maior ingleses. 'É pra mim uma honra presidir esta reunião de Chefes do Estado-Maior Conjunto e de autoridades americanas e inglesas na sala de reuniões da Casa Branca e isto parece constituir um acontecimento na história das relações anglo-americanas.

Todavia, a ópera bufa da rendição italiana nada mais foi do que um interlúdio tragicômico cuja conclusão assinalou o início do último ato do drama mundial da guerra. Agora tudo se aproximava de um dénouement. As políticas traçadas em Quebec seriam alteradas e ampliadas, mas não seriam radicalmente deturpadas. Os alemães estavam recuando no sul da União Soviética a fim de liberar mais divisões para a Itália e para os Balcãs. Kharkov foi reconquistada; logo depois, Taganrog. Assim, o telegrama de Stalin a Roosevelt e Churchill, datado de 14 de setembro, era inusitadamente otimista e amistoso:

'Congratulo-me com os senhores pelos novos sucessos, particularmente com o desembarque em Nápoles. Não há dúvida de que o desembarque bem sucedido em Nápoles e a ruptura entre a Itália e a Alemanha constituirá mais um golpe contra a Alemanha hitlerista e facilitará consideravelmente as ações dos exércitos soviéticos na frente germano-soviética. Por ora a ofensiva das unidades soviéticas desenvolve-se com sucesso. Acho que estaremos em condições de alcançar novas vitórias dentro de duas ou três semanas. É possível que reconquistemos Novorossisk nos próximos dias.'

Nos Balcãs, Tito aproveitou a oportunidade com rapidez. No fim de outubro já melhorara consideravelmente a sua situação, desarmando ou recrutando divisões italianas, ocupando as vias de acesso a Trieste e cercando Zagreb, deslocando-se para Split e para as ilhas Dálmatas; de acordo com os dados enviados pelo General-de-Brigada Fitzroy Macleau, Tito já dispunha de 26 divisões, com cerca de 220.000 homens, e dominava a melhor parte da Iugoslávia. Já se podiam discernir no pacífico as rotas ao longo das quais os americanos avançariam, uma vez que a criação, no dia 5 de agosto, de uma nova Força do Pacífico Central, sob o comando do Almirante Nimitz, significava que haveriam duas grande linhas centrais, no futuro; uma comandada por MacArthur, desdobrando-se pelo arquipélago de Bismarck e Nova Guiné e outra, comandada por Nimitz, desdobrando-se pelas ilhas Gilbert, Marshall e Carolinas. Os navios para essas operações haviam sido incluídos no programa de construção naval de 1940 e, desde então, vinham sendo regularmente incorporados à Marinha; em fins de 1943 estavam prontos nada menos do que 50 navios-aeródromos [i.e. Porta-aviões]. Além do mais, na Birmânia, os japoneses já estavam elaborando o plano da campanha que haveria de conduzi-los ao desastre.” pp. 252-255


Fonte: LEWIN, Ronald. Churchill – O Lorde da Guerra. Trad. Cel. Álvaro Galvão. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1979.


mais info em

Conference in Quebec

Conference in Teerã

Tube Alloys

Orde Wingate

Joseph Stillwell

Dwight Eisenhower


Campanha na Birmânia 1942-1945





Tropas no Sudeste Asiático

Os Chindits



Os Tigres Voadores





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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Avanços Científicos - Projeto Manhattan








Avanços científicos


Projeto Manhattan


Armas nucleares


À medida que as cláusulas [do Tratado ] de Versalhes eram rompidas uma a uma, e a Alemanha se rearmava, poderosas tradições de engenhosidade e inventividade deram ao novo Reich visíveis vantagens em aplicações militares, despertando os conhecidos espectros dos tempos de guerra, da ciência como caixa de Pandora e pacto faustiano. Na década de 1930 e durante toda a guerra, os cientistas e os engenheiros alemães criaram uma impressionante lista de inovações; fusos de proximidade, visão noturna por infravermelho, motores a jato, radar, codificação mecânica, combustíveis sintéticos, mísseis balísticos, submarinos auxiliados por respiradouros snorkel e peróxido de hidrogênio. De 1933 até o fim da guerra, cientistas trabalhando sob controle militar começaram a pesquisar a reação nuclear em cadeia, na perspectiva de armar Hitler com uma bomba atômica. Na maioria dessas atividades, e especialmente na pesquisa de mísseis, criação e produção, métodos racionais de alta tecnologia, com recursos exorbitantes, foram empregados para fins irracionais. Em 1943, porém, e após sete anos de suspensão seletiva do império da lei, poucas áreas da ciência, da tecnologia, da medicina e da indústria não haviam sido manchadas por brutalidade, trabalho escravo, tortura, experiências com seres humanos sem consentimento e assassinato brutal.” p. 23


Hitler e a Bomba
À medida que os pensamentos de Hitler se voltavam para a conquista da Europa, porém, sua necessidade de compreender o poder e o escopo da ciência e da tecnologia para fins bélicos assumiu uma urgência prática. Ele se interessava muitíssimo por armas, e compreendia logo como funcionava um equipamento. Comentou-se muitas vezes que ele podia reformular uma longa e complexa explicação técnica num resumo conciso e de alta precisão. [Albert] Speer escreveu que Hitler ‘era antimoderno nas decisões sobre armamentos’. Opunha-se à metralhadora porque, segundo Speer, ‘tornava os soldados covardes e o combate de perto impossível’ [fonte: Speer, A , The Slave State: Heinrich Himmler’s Masterplan for SS Supremacy, trad. Joachim Neugroschel (Londres, 1981), p. 83]. Era contra a propulsão a jato, por achar que a extrema velocidade era um obstáculo ao combate aéreo, e desconfiava das tentativas alemãs de criar uma bomba atômica, chamando tais esforços, segundo Speer, de ‘uma desova da pseudociência judia’.


A 23 de junho de 1942, Albert Speer discutiu a bomba atômica com Hitler. Escreveu em suas memórias que a capacidade intelectual do Führer era obviamente forçada pela ideia, e que ‘ele era incapaz de compreender a natureza revolucionária da física nuclear’. Speer observou que, de 2.200 pontos levantados em suas conferências com Hitler, a fissão nuclear surgiu apenas uma vez, e mesmo então só foi mencionada brevemente. Parecia que Hitler adquirira uma visão embaralhada da ciência atômica do seu fotógrafo, Heinrich Hoffmann, que por sua vez a pegara de um ministro que patrocinava um desgarrado projeto de pesquisa atômica para o Correio. Speer, enquanto isso, informava que o diretor do programa de pesquisa nuclear oficial, Werner Heisenberg, fora incapaz de confirmar se se podia controlar a reação em cadeia ‘com absoluta certeza’. Houvera suspeitas entre os cientistas de que a reação em cadeia, liberação em massa de energia em material físsil pela divisão instantânea de sua estrutura atômica, uma vez começada, prosseguiria cindindo a matéria de todo o planeta. Speer escreveu que, em consequência, Hitler ‘visivelmente não estava contente com a possibilidade de que a terra sob seu domínio pudesse transformar-se numa estrela fulgurante’. O Führer, continuou Speer, gostava de pilheriar com os cientistas dizendo que ‘a vontade provinciana deles de desvendar todos os segredos sob o céu podia um dia atear fogo ao globo’.


Contudo, quando invadiu a Polônia em setembro de 1939, havia físicos na Alemanha que sabiam pelo menos tanto quanto os anglo-americanos, se não mais do que eles, e que organizavam programas de pesquisas para utilizar o poder do átomo como arma. Na verdade, fora um alemão, Otto Hahn, em Berlim, auxiliado por Fritz Strassmann, com a crucial contribuição de Lise Meitner e seu sobrinho Otto Frisch, quem descobrira a fissão nuclear, ou divisão do átomo, em dezembro do ano anterior, embora isso provavelmente tivesse sido conseguido primeiro, sem que ele próprio o soubesse, por Enrico Fermi na Itália.


Ao mesmo tempo, em Peenemünde, na costa báltica, cerca de 300 quilômetros ao norte de Berlim, o exército alemão havia reunido centenas de cientistas e engenheiros, com instalações de pesquisa e desenvolvimento sem precedentes, para criar e produzir em massa foguetes supersônicos, a fim de possibilitar que Hitler atingisse os inimigos a centenas de quilômetros de distância. No último ano da guerra, os cientistas traçavam planos para impulsionar foguetes que levassem cargas úteis até a 600 quilômetros de distância e mesmo mais. Houvesse sido o Terceiro Reich o primeiro a construir um artefato explosivo nuclear, ou mesmo uma ‘bomba suja’ composta de explosivo convencional e materiais radiativos, é provável que seu primeiro emprego contra um inimigo envolvesse o transporte por mísseis teleguiados de longo alcance, e a história teria sido bem diferente. Pouca dúvida pode haver de que Hitler haveria usado a bomba atômica se tivesse uma. Albert Speer lembra da reação dele à cena final de um cinejornal no outono de 1939. Em montagem, um avião mergulha para as Ilhas Britânicas: ‘Seguia-se um clarão, e a ilha voava em pedaços’. Speer escreveu que o entusiasmo de Hitler não teve limites. Do mesmo modo, quando Walter Dornberger, chefe do projeto alemão de criação de foguetes, falou com Hitler sobre o potencial dos mísseis balísticos no verão de 1943, ‘um brilho estranho, fanático’, surgiu nos olhos do Führer. Ele declarou: ‘O que eu quero é aniquilação – efeito aniquilador’.


Os historiadores da ciência discutem até hoje sobre ser era factível uma bomba atômica nazista. É claro que os cientistas de Hitler não haviam superado os principais problemas tecnológicos no final da guerra; também é visível que faltavam à Alemanha o material e os recursos humanos e econômicos necessários para criar tal arma durante a guerra. As políticas racistas de Hitler, além disso, haviam resultado na demissão de centenas de físicos judeus dedicados à física teórica e nuclear. Sua ignorância sobre ciência e tecnologia, cientistas e engenheiros, assim como a natureza ‘policrática’ grotescamente incompetente e corrupta das estruturas de poder do Terceiro Reich, minaram a capacidade alemã de vencer uma guerra de longo prazo baseada em ciência e tecnologia sofisticadas, que exigiam grandes recursos, pluralidade de criação e capacidade de sobra para erros. O Projeto Manhattan, o programa americano da bomba atômica, abrangeu duas rotas diferentes – uma bomba de urânio e uma de plutônio -, enquanto a pesquisa e desenvolvimento envolviam uma equipe de cerca de 150 mil pessoas e gastos de 2 bilhões de dólares na época. Os estados Unidos podiam usar esses vastos recursos sem tensão. Com a Alemanha, à qual faltava capacidade em toda a área de produção de armas, o caso seria diferente.” pp.34-36


“O êxodo de cientistas judeus foi devastador nas consequências para a Alemanha. O país perdeu cerca de 25 por cento da comunidade de físicos pré-1933, incluindo Einstein, Franck, Gustav Hertz, Shrödinger, Hess e Debye – todos laureados com o Nobel. Entre os outros laureados perdidos estavam Stern, Bloch, Born, Wigner, Bethe, Gabor, Hevesy e Herzberg, assim como os matemáticos Richard Courant, Hermann Weyl e Emmy Noether. A maioria desses físicos eram cientistas de grande originalidade e experiência única; eram insubstituíveis. Quase metade dos físicos teóricos da Alemanha se foi, e também muitos de seus altos expertos em mecânica quântica e física nuclear.


A perda para a Alemanha foi um imenso ganho para Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Na primeira, William Beveridge (que depois dirigiu a Escola de Economia de Londres e inspirou a formação do Estado assistencial), A. V. Hill e o bioquímico laureado com o Nobel Frederick Gowland Hopkins estabeleceram o Conselho de Assistência Acadêmica para oferecer empregos a acadêmicos deslocados. Os que foram para a Grã-Bretanha iam ter um profundo e duradouro efeito sobre a cultura do país, em toda uma gama de disciplinas e influências culturais. Leo Szilar, o incansável físico e polímata, trabalhou em colaboração como Beveridge para estabelecer cientistas demitidos da Alemanha, antes de mudar-se em 1939 para os Estados Unidos, onde, como veremos, se tornou ativo na pesquisa da fissão e na política da bomba atômica.


Em números totais na década de 1930, a comunidade de físicos da Alemanha não encolheu em termos absolutos devido só aumento em físicos aplicados nas universidades; mas a qualidade dos cientistas caiu, e a pesquisa básica estagnou-se. De todas as universidades alemãs, com exceção da de Berlim, a de Göttingen, um centro mundial de física matemática, foi a que mais sofreu. Pedidos para berço da mecânica quântica estavam Max Born, James Franck, Walter Heitler, Heirich Kuhn, Lothar Nordheim, Eugene Rabinowich e Hertha Sponer.


Além da perda de muitos dos principais pesquisadores, a ciência alemã foi ficando cada vez mais isolada, uma vez que os cientistas estrangeiros evitavam viajar à Alemanha, cessavam a colaboração em programas de pesquisa com os alemães e cancelavam filiações em sociedades científicas e assinaturas de publicações. Ao mesmo tempo, o regime tornava difícil aos acadêmicos viajar para fora do país e impunha restrições a filiações a organizações consideradas inimigas do nacional-socialismo.” pp. 129-130


Fonte: CORNWELL, John. Os cientistas de Hitler: ciência, guerra e o pacto com o demônio. (Hitler’s Scientists – Science, War and the Devil’s Pact, 2003) trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Imago, 2003.