segunda-feira, 3 de junho de 2013

FEB - Força Expedicionária Brasileira - preâmbulos






Força Expedicionária Brasileira

1943-1945


O ano de 1943 marcou a reviravolta na Segunda Guerra Mundial, com as derrotas do Eixo, e a entrada de esforços brasileiros no conflito, com mobilização popular e a preparação de uma força expedicionária. Para mais detalhes destas reviravoltas veremos alguns trechos de uma obra escrita por uma testemunha presente aos acontecimentos históricos, um líder antifascista que trabalhou para mobilizar esforços contra a expansão do nazi-fascismo.



Fonte: FALCÃO, João. O Brasil e a 2ª Guerra. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.


Capítulo IX - Mobilização econômica

Sério problema decorrente da entrada do Brasil na guerra foi a mobilização econômica, que não cabia nos quadros de uma administração pública primária e limitada, como era a do estado ditatorial existente. As questões de abastecimento e fornecimento de matérias-primas e manufaturadas aos aliados, principalmente aos Estados Unidos, o problema do transporte interno e para fora do país, além de tantos outros, levaram o presidente da República a criar a Comissão de Defesa Econômica, em outubro de 1942, entregando-a a um homem de sua inteira confiança, dublê de militar e diplomata, presidente do Conselho do Comércio Exterior, coronel João Alberto, que passou a ser ‘uma espécie de Tzar da Economia’, com poderes para regular a produção, a exportação, a importação, os transportes, a circulação de mercadorias, os preços e o racionamento.

Antes da criação desse órgão tão vital, foram tomadas medidas pelo governo em garantia de nossa autonomia e para ressarcimento dos danos a nós causados pelos inimigos. Em primeiro lugar, foram incorporados ao patrimônio nacional os navios do eixo surtos nos nossos portos: oito barcos italianos e oito da Dinamarca (país ocupado pela Alemanha). Acrescente-se à lista três barcos alemães e um finlandês.” (p. 129)


Capítulo X - Povo organiza-se para a guerra

O Brasil, afinal, iria engajar-se num conflito das proporções da Segunda Guerra Mundial. Todos os brasileiros teriam que dele participar. Além das convocações dos efetivos e dos reservistas das classes armadas, cabia, também, à população civil sua parcela no esforço de guerra.

As mulheres organizaram-se como enfermeiras, havendo vários cursos, coordenados pela Cruz Vermelha Brasileira, praticando em diferentes hospitais, ou então nos grupos denominados Defesa Passiva, que tratavam da defesa civil das cidades. Nas escolas primárias, as unidades de trabalho tinham por temas a guerra, o soldado, a defesa da pátria, etc. Foram organizadas as Hortas da Vitória, incutindo no espírito dos jovens o desejo de participar, de alguma forma, ajudando o abastecimento da população.

Nas ruas das principais cidades do país, viam-se, nas calçadas, pilhas enormes de objetos de metal, que poderiam ser aproveitados ou pela indústria ou pelas Forças Armadas. Eram as Pirâmides da Vitória. Em toda orla marítima, foi imposto o blecaute total, nas outras zonas das cidades as luzes foram diminuídas em intensidade. Nas casas, o consumo de energia foi restringido. Quem ultrapassasse a cota que lhe cabia teria a ligação elétrica cancelada. Em vários setores profissionais foram distribuídos questionários para que as pessoas informassem suas habilitações: conhecimento de idiomas estrangeiros, possuidor de automóveis, motocicletas ou bicicletas, assim como de máquinas de escrever, de costura e fotográfica.” (p. 135)

As organizações patrióticas cresceram extraordinariamente nos tumultuosos dias que antecederam e sucederam à declaração da guerra [22 de agosto de 1942]. Fortaleceram-se de tal modo, pela justeza de sua linha de união nacional e de ajuda ao esforço de guerra, que passaram, em determinado momento, a merecer a confiança do governo da Bahia e a dividir com ele as ações contra a quinta-coluna e de vigilância aos alemães e italianos. Com essa finalidade foi organizado um Comitê de vigilância, secreto, que articulava diretamente com a Secretaria de Segurança Pública, dela recebendo armas para a autodefesa de seus componentes. [...]

As primeiras prisões de súditos do Eixo foram efetuadas por agentes do movimento patriótico: universitários, profissionais liberais e pessoas que exerciam outras atividades. A certa altura, antes de terem sido cassadas as credenciais concedidas pela Polícia, ficamos temerosos quanto à violência e ao abuso de poder que começaram a ser cometidos conta familiares dos súditos do Eixo por elementos inescrupulosos que se envolveram em casos de extorsão e roubo de bens.

Os alemães presos foram levados para o Quartel da Guarda Civil, com sede na rua Carlos Gomes.

Em janeiro de 1943, essas prisões atingiram 156 indivíduos, dos quais 141 eram alemães, dez italianos, dois austríacos, um japonês, um húngaro e um alemão naturalizado brasileiro. [fonte : A ‘Bahia na II Guerra Mundial’ – artigo de Consuelo Novaes Sampaio, da Academia de Letras da Bahia, publicado no jornal A Tarde, Salvador, edição de 06/05/94.]” (p. 141)


O Brasil, a União Soviética e as Nações Unidas

Embora fosse evidente e inevitável a integração do brasil às Nações Unidas, na qualidade de país aliado dos Estados Unidos, Inglaterra, Rússia, China e outros países, esse assunto era um tabu para o anticomunista governo brasileiro.

Quando, logo após a entrada do Brasil na guerra, chegaram de Washington sinais de que o governo soviético estaria interessado em uma reaproximação, o Catete insistiu em manter ‘uma atitude discreta e reservada’.

Havia, assim, limites à ação do Itamaraty, que foi obrigado, por exemplo, a instruir diplomatas no exterior, nesse período, a evitarem quaisquer ‘relações oficiais’ com colegas soviéticos. Mas Osvaldo Aranha, compreendendo que o Brasil acabaria sendo obrigado a entender-se com a Rússia, resolveu ir preparando o terreno. No início de novembro de 1942, enquanto se travava a gigantesca batalha de Stalingrado, enviou uma mensagem a Moscou na forma de uma mensagem à sucursal da TASS, agência noticiosa soviética nos estados Unidos, sobre o esforço de guerra da URSS :

Como V. sabe, divergimos profundamente da Rússia sobre todos os aspectos que fazem a união dos povos, a religião, a economia, a organização política e social. Mas, nesta hora não podemos ocultar a simpatia e a admiração que nos merece uma nação agredida, um governo com decisão e um povo em cuja capacidade de resistência repousa a nossa preparação para sobreviver.”

O DIP [Departamento de Imprensa e Propaganda, criado em 1939] proibiu sua divulgação pela imprensa brasileira, mas a mensagem foi publicada no exterior.” (pp. 145-46)

Quando Roosevelt, em janeiro de 1943, encontrou-se com Vargas, em Natal, o presidente da nação norte-americana solicitou ao chefe do governo brasileiro a entrada de nosso país para a Nações Unidas. O Brasil aderiu à Carta do Atlântico e à Organização das Nações Unidas, em 9 de abril do mesmo ano, sendo este o ‘primeiro ato político do Estado Novo de reconhecimento dos valores permanentes da democracia e da liberdade, que posteriormente iria influir no destino do país’ [fonte: O globo expedicionário, Agência Globo Serviços de Imprensa Ltda., Rio de Janeiro, p. 66].” (pp. 149-150)

Mais no cap. XIV, Encontro de Getúlio e Roosevelt em Natal, em janeiro de 1943, “[no dia 28] voltaram ao [navio destroier] Humboldt para o jantar. Reunião íntima da qual participaram, além de Getúlio e Roosevelt, o embaixador Caffery e Harry Hopkins, assistente do presidente americano. Roosevelt contou a Vargas quais as resoluções tomadas em [Conferência de] Casablanca:

1º)Ofensiva no Mediterrâneo, começando por um ataque à Sicília no próximo verão europeu. Isto visava garantir as linhas de comunicação no Mediterrâneo, desviar a atenção alemã da frente russa e iniciar a campanha cujo objetivo era afastar a Itália da guerra.

2º)Congregar na Inglaterra a maior força possível para invadir o continente europeu através do Canal da Mancha, logo que a resistência alemã fosse enfraquecida.

3º)Continuar com a mais poderosa ofensiva aérea contra a Alemanha, visando à invasão daquele país.

4º)Intensificar a campanha anti-submarinas.

5º)Continuar a sustentar a União Soviética, enviando a maior quantidade possível de suprimento.

6º) Manter a campanha contra o Japão dentro de certos limites. Descarregar a maior ofensiva contra o Japão, logo que a Alemanha fosse vencida.

7º)Traçar planos para a recaptura de Burma [ou Birmânia] e para as operações contra as ilhas Carolinas e Marshall.

[...]

No final das conversações, foi expedido um comunicado conjunto que tranquilizasse seus povos, falando no sucesso das operações que se desenvolveram no Norte da África, o que eliminava a possibilidade de uma ameaça nazista partida de Dacar contra a liberdade das Américas.” (pp.170-171)

No Cap. XII – O Brasil quer ir aos campos de batalha – “Ao iniciar-se 1943, decorridos quatro meses da entrada do Brasil na guerra, apossou-se do movimento patriótico e antifascista uma insólita crença na vitória das Nações Unidas, ainda naquele ano. Quatro grandes temas dominavam as atenções do povo brasileiro: a abertura da segunda frente, o envio de um corpo expedicionário aos campos de batalha, a anistia e a vitória final.” (p. 159)

Mas o povo brasileiro vivia numa contradição, com um governo dividido entre liberais e socialistas contra direitistas e militaristas, no contexto de um poder autoritário centralizado na figura ‘paternal’ do ditador Vargas,

Vivendo grave e profunda contradição interna, entre duas correntes antagônicas, o governo vacilava, não adotava com rapidez as medidas inadiáveis para o esforço de guerra. Daí a necessidade de o povo voltar às ruas, para empurrar Getúlio Vargas em direção às forças que apoiavam os aliados, intensificando as demonstrações de massa para exigir o envio de tropas brasileiras à frente de batalha. Na verdade, o movimento patriótico e, particularmente, os comunistas estavam eufóricos e acreditavam numa próxima vitória. Seria, portanto, vergonhoso para o Brasil manter-se à margem, além de se tornar politicamente perigoso, pois poderíamos internamente perder a paz. A presença de tropas brasileiras nos campos de batalha era fundamental para assegurar-nos as conquistas democráticas decorrentes da derrota do nazi-fascismo.

Visando comemorar o primeiro aniversário do rompimento de relações com o eixo, no dia 28 de janeiro de 1943, foram organizadas as primeiras manifestações populares daquele ano, realizando-se no Rio de Janeiro grande mobilização popular.” (p. 173)

Com o histórico encontro de Natal e a estrondosa vitória dos russos em Stalingrado [em fevereiro de 1943], reacendeu-se a chama da esperança no coração dos antifascistas de todo o mundo. O movimento patriótico tomou novo impulso. Na Bahia, decidiu realizar dois grandes atos públicos, nos dias 2 e 19 de abril. Nessa última data aniversariava o presidente Vargas.” (p. 175)

Todos os segmentos sociais seriam mobilizados. Era preciso abalar as estruturas, sacudir o governo e libertá-lo das amarras do setor pró-fascista, que ainda detinha uma parcela significativa do poder e vinha travando o esforço de guerra.

A data do natalício de Vargas sempre fora comemorada, em todo o país, pelos áulicos do governo, mas nesse ano as forças antifascistas tomaram-na em suas mãos, para fazer dela uma extraordinária manifestação nacional em favor dos nossos aliados e do envio de um corpo expedicionário para marcar a presença do Brasil nos campos de batalha.” (p. 176)

A 1º de maio, foram realizadas em todo o país manifestações antifascistas, no Dia do Trabalho. com uma grande concentração na Esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro, 100 mil pessoas prestaram significativa homenagem ao chefe da nação, que falou ao povo e foi muitas vezes ovacionado.” (p. 178)

No dia 11 de maio realizou-se em frente ao Teatro Municipal do rio um comício monstro contra a quinta-coluna, o integralismo e o nazi-fascismo. Organizações estudantis e sindicatos carregavam cartazes que exaltavam os líderes das Nações Unidas, e outros com os seguintes dizeres: ‘Abaixo o Integralismo’; ‘morte à Quinta-Coluna’ e ‘Enviemos uma força expedicionária’.” (p. 179)


Convocação de reservistas – Em janeiro de 1943, o Ministério da Guerra decretou a mobilização geral, convocando os reservistas das classes de 1919 a 1921. Os quartéis encheram-se, pelo Brasil afora, de jovens entre 21 e 23 anos de idade, de todas as camadas sociais, incluindo estudantes que desfilavam pelas ruas pedindo a guerra.” (p. 187)

Na verdade, nossas forças armadas não estavam preparadas para receber dezenas de milhares de convocados em suas fileiras e dar-lhes um destino adequado, preparando-os para a guerra moderna. Não havia vontade nem disposição para isso. Predominava nos altos escalões do Ministério da Guerra, chefiado por dois generais germanófilos, Eurico Dutra e Góis Monteiro, o espírito antialiado, isto é, fazer a guerra aqui mesmo, preparar a defesa do Brasil com armas americanas e jamais enviar tropas para lutar lá fora, ao lado das Nações Unidas, como o povo desejava e pedia nas praças públicas.

A convocação fora malfeita, sem critérios claros e definidos, sem um plano adredemente preparado. O tratamento aos convocados era, às vezes, hostil e insultuoso por grande parte de oficiais, sargentos e cabos.” (p. 188)



Continuaremos - na postagem de agosto – os detalhes do recrutamento e da preparação da força expedicionária, que seguiria no ano seguinte, 1944, para os campos de batalha na Europa, quando da ocupação da Itália por forças Aliadas combatendo os nazi-fascistas.



Fonte: FALCÃO, João. O Brasil e a 2ª Guerra. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.




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Senta a Pua

FEB na guerra



A cobra fumou


sexta-feira, 17 de maio de 2013

Relações do Papado com o Nazismo - 7






Relações do Papado com o Nazismo – continuação 7



fonte: CORNWELL, John. Papa de HitlerA História Secreta de Pio XII . (Hitler's Pope: the secret history of Pius XII. 1999) Trad. A . B. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2000



A Indiferença de Pio XII diante do Holocausto


Depois da encíclica Mit brennender Sorge [1937], de Pio XI , Pacelli tentou secretamente atenuar seu impacto, por meio de garantias diplomáticas particulares aos alemães.

Por uma variedade de evidências, fica patente que Pacelli acreditava que os judeus haviam atraído o infortúnio sobre suas cabeças; a interferência em defesa deles poderia levar a Igreja a alianças com forças – em particular a União Soviética – cujo supremo objetivo era a destruição da própria Igreja. Por este motivo, quando a guerra começou, ele estava disposto a se distanciar de qualquer apelo a favor dos judeus no nível da política internacional. Isto não o impediu de dar instruções para aliviar a situação crítica dos judeus no nível da caridade básica.

Nessas circunstâncias, somos obrigados a concluir que o seu silêncio tinha mais a ver com o medo e desconfiança habitual dos judeus do que com uma estratégia de diplomacia ou um compromisso com a imparcialidade. Pacelli demonstrou que era bem capaz de ser parcial quando a Holanda, a Bélgica e Luxembrugo foram invadidos, em maio de 1940. E quando os católicos alemães se queixaram, ele escreveu para os bispos alemães ressaltando que neutralidade não era a mesma coisa que 'indiferença e apatia quando considerações morais e humanas exigiam uma palavra franca'. Mas as considerações morais e humanas envolvidas no assassinato de milhões de pessoas não mereciam uma 'palavra franca' ?

A omissão em dizer uma palavra franca sobre a Solução Final em execução proclamava para o mundo que o vigário de Cristo não podia ser levado à compaixão e à raiva. Desse ponto de vista, ele era o papa ideal para o plano abominável de Hitler. Era um peão de Hitler. Era o papa de Hitler.

Como já registramos, a única quebra do silêncio auto-imposto de Pacelli sobre o extermínio dos judeus foi aquela frase ambígua durante sua homilia de Natal, em 1942, em que ele não usou as palavras judeus, não-arianos, alemães e nazista. “

Num discurso para os delegados do Conselho Supremo do Povo Árabe da Palestina, em 3 de agosto de 1946, ele declarou: 'É supérfluo para mim dizer que desaprovamos todo e qualquer recurso à força e violência, de onde quer que venha, assim como condenamos em diversas ocasiões no passado as perseguições que um anti-semitismo fanático infligiu ao povo hebreu'. Sua cumplicidade na Solução Final, pela omissão em expressar a condenação apropriada foi agravada por uma tentativa retrospectiva de se apresentar como um franco defensor do povo judeu. Sua justificativa grandiloquente, em 1946, revelou que era não apenas um papa ideal para a Solução Final dos nazistas, mas também um hipócrita.

Mas houve um teste muito mais imediato para o pontificado de Pacelli, ocorrido pouco antes da libertação de Roma, quando ele era a única autoridade italiana na cidade. Em 16 de outubro de 1943, tropas alemãs entraram no gueto de Roma, prenderam todos os judeus que puderam encontrar e levaram-nos para o Colégio Militar, na Via della Lungara, à sombra do Vaticano. Como Pacelli se comportou nessa situação?” pp. 332-34



Os Judeus de Roma


Em meados de 1943 os Aliados avançaram ao sul da Itália, o que provocou a queda de Mussolini e seus asseclas fascistas, e a posterior mudança de lado, quando o exército italiano (em nome da monarquia constitucional) aderiu à luta contra os alemães nazistas. Ao norte, os fascistas remanescentes fundaram um governo republicano ditatorial (a República de Salò) , atuando como um mero fantoche nas mãos dos seguidores do Führer.

O Papa se esforçou para manter Roma como uma 'cidade aberta', livre de combates, danos e mortes, mas em vão. A cidade sofria bombardeios dos aliados e invasões de tropas alemãs em busca de judeus e subversivos. O antigo gueto judeu, onde se abrigavam cerca de sete mil pessoas, passou a sofrer com as ocupações, perseguições e prisões (além de massacres), enquanto as autoridades do Vaticano negociavam com os alemães sobre o respeito às propriedades e territórios da igreja.

E a Santa Sé sabia sobre os extremos de crueldade das tropas SS nazistas, e o quanto de terror ameaçava os judeus que viviam em Roma, daí tomar providências locais. “O Vaticano também previra problemas para os judeus e aumentara suas atividades de caridade, em particular a ajuda para a emigração.” (p. 338)

Primeiro os alemães exigiram resgaste em ouro, o que mobilizou doações entre os judeus, e até um empréstimo (e não uma doação) junto ao Vaticano para que a fortuna de 50 quilos de ouro fosse paga aos oficiais da SS . Mas, mesmo com o 'resgate', Eichmann ordenou a deportação dos judeus, em outubro de 1943. Os líderes fascistas italianos não se esforçavam para apoiar a deportação e o extermínio, e “até setembro de 1943, não fora deportado um único judeu da esfera de ocupação italiana na Iugoslávia, Sudeste da França e Grécia.” (p. 340)

Depois da ordem de Eichmann, as tropas começaram a deportação em 16 de outubro de 1943, e muitos caminhões, com mulheres e crianças, passaram próximos da Praça de São Pedro, “num percurso deliberado, pelo que se diz, para que os soldados da SS levados a Roma para aquela missão pudessem ter um vislumbre da basílica famosa. Os judeus, pelo que também se disse, gritaram ao passarem pela praça, pedindo socorro ao papa.” (p. 341)

As cenas observadas naquela manhã já haviam ocorrido incontáveis vezes, em incontáveis lugares, nos dois últimos anos. A diferença é que havia naquela cidade um homem com uma voz poderosa, que comandava a fidelidade de meio bilhão de seres humanos, e cuja capacidade de protestar podia fazer com que até Hitler pensasse duas vezes.” (p. 341)

No final das contas, nem Pacelli nem seu cardeal-secretário de Estado tomaram a iniciativa de protestar, em seu nome pessoal ou sob os auspícios da Santa Sé, naquele dia ou nos dias subsequentes. A omissão em falar ou agir espantou a liderança alemã na cidade.” (p. 343) entenda-se: os alemães na Itália temiam que a ação brutal contra os judeus italianos desencadeasse uma 'propaganda antialemã'.

No domingo, 17 de outubro, notícias sobre a prisão em massa apareceram em jornais do mundo inteiro, junto com mitos que seriam perpetuados até hoje. O The New York Times, por exemplo, publicou um despacho da UPI, procedente de Londres, relatando que o papa pagara aos alemães o resgate exigido para a libertação de 100 reféns. 'Mas os alemães, depois de receberem o ouro, recusaram-se a libertar os reféns. Em vez disto, começaram a prender mais judeus. Os italianos ajudaram famílias caçadas a se esconderem e fugirem.(p. 345)

Os prisioneiros judeus foram deportados para Viena, onde chegaram em condições desumanas e em 'estado deplorável' de humilhação, fome e sede. O Vaticano sabia de tudopor onde passava o comboio e em que situação física e mental sobreviviam os deportadosmas Pacelli estava mais preocupado com os 'comunistas'qualquer partisans, os guerrilheiros italianos, que combatiam os fascistas. O Papa temia claramente mais aos comunistas que aos fascistas.

Cinco dias depois de o trem deixar a estação tiburtina, os 1.060 deportados morreram nas câmaras de gás de Auschwitz e Birkenau; 149 homens e 47 mulheres ficaram detidos para trabalho escravo. Apenas 15 sobreviveram à guerra, todos homens, exceto por uma moça, Settimia Spizzichino, que serviu como cobaia humana em experimentos do dr. Mengele. Quando Bergen-Belsen, o campo de extermínio para onde Settimia fora transferida, foi libertado, encontraram-na no meio de uma pilha de cadáveres, onde ela dormia há dois dias.” (pp. 347-48)

Pacelli temia os ousados alemães – capazes de resgatarem o abatido Mussolini, numa acrobática missão – pois imaginava que os SS não hesitariam em prendê-lo em pleno Vaticano. “Os responsáveis pela ocupação de Roma não eram os únicos alemães considerando as consequências de uma represália violenta contra o Vaticano, no outono de 1943. o próprio Hitler fora obrigado a considerar o problema , por causa de seu plano para capturar Pacelli e levá-lo para a Alemanha.” (p. 350)


O Führer temia que Pacelli caísse em mãos Aliadas e que passasse a fazer proclamações antinazistas. Daí instruir oficiais SS para uma missão : invadir o Vaticano, recolher obras de arte e documentos, e 'salvar' o Papa. Tudo para melhor proteção do pontífice! O oficial encarregado da missão logo percebeu as inviabilidades da missão: como invadir o Vaticano e prender o papa? Como controlar a hostilidade do povo italiano tão apegado à católica? Antes, usar o poder papal para manter as massas populares apaziguadas.

Todos os fatos indicam, portanto, que uma tentativa de invadir o Vaticano e suas propriedades, ou de capturar o papa em reação a um protesto papal, acarretaria uma reação violenta por toda a Itália, que poderia prejudicar bastante o esforço de guerra nazista. Ou seja, até mesmo Hitler passou a reconhecer o que Pacelli parecia ignorar: que a mais vigorosa força política e social na Itália no outono de 1943 era a igreja católica, com uma imensa capacidade para promover a não-obediência e a reação geral aos alemães.” (p. 353)



O Silêncio Litúrgico de Pacelli


Em suma, as forças alemãs de ocupação haviam garantido a extraterritorialidade do Vaticano e suas instituições religiosas espalhadas por Roma. O preço dessa vantagem fora a submissão e a 'não-interferência' – o silêncio sobre as atrocidades nazistas não apenas na Itália, mas em todas as partes da Europa ocupada. Quando a prisão em massa de judeus começou, em 16 de outubro, as autoridades alemãs de ocupação estavam mesmo assim convencidas de que Pacelli iria protestar mais cedo ou mais tarde. Achavam que um protesto papal imediato poderia funcionar em seu favor, evitando a deportação e uma espiral de protestos papais posteriores e represálias, culminando com a invasão pela SS do território do Vaticano e uma violenta reação civil.” (p. 353)


Como os católicos podem aceitar que o bispo de Roma não tenha feito um único ato litúrgico pelos judeus deportados da Cidade Eterna? E, no entanto, ao saber da morte de Adolf Hitler, Adolf Bertram, a essa altura o cardeal-arcebispo de Berlim, ordenou a todos os padres de sua arquidiocese que 'celebrem um Réquiem solene em memória do Führer e de todos os membros da Wehrmacht que tombaram na luta por nossa pátria germânica, junto com as orações mais sinceras pela pátria e pelo futuro da Igreja católica na Alemanha'.(p. 354)



fonte: CORNWELL, John. O Papa de HitlerA História Secreta de Pio XII. (Hitler's Pope: the secret history of Pius XII. 1999) Trad. A . B. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2000



Seleção / comentários : LdeM

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Afrika Korps se rende na Tunísia - maio 1943







foto: último acampamento do Afrika Korps - milhares de prisioneiros (POW)
entram nos campos da Tunísia



Afrika Korps se rende na Tunísia


maio 1943


Cercado na Tunísia pelo avanço convergente das tropas norte-americanas de Eisenhower e britânicas de Montgomery, o Afrika Korps, como todas as forças alemães, é obrigado a capitular. Com a proibição de Hitler de realizar uma retirada de suas tropas da África do Norte, o Eixo sofre um desastre comparável á destruição do 6o Exército diante de Stalingrado.

Em toda a campanha da Tunísia, segundo o secretário Stimson, os aliados capturaram 266.600 homens, mataram 30.000 e feriram gravemente 26.400. Suas perdas não ultrapassaram a 70.000 homens. Durante os três anos de guerra na África, que agora terminara vitoriosamente, as perdas do Eixo, segundo Churchill, foram de 950.000 mortos e capturados além da destruição de 8.000 aviões, 6.200 canhões e 2.550 tanques.” (fonte: http://www.tropasdeelite.xpg.com.br/GERMANY_afrika_korps.htm )



Mas a simples movimentação das forças de uma frente para outra criava problemas logísticos que já não podiam ser resolvidos. Durante semanas, o Grupo de Exércitos Afrika conseguira operar com o mais baixo consumo imaginável. A 31 de março, o 1º Exército Italiano, parado entre ações móveis, só dispunha de combustível para 64 km por veículo (sem qualquer reserva dentro de uma extensão de mais de 160 km) e pouco mais de duas distribuições de munição. O 15º Exército Panzer estava em pior situação. Em meados do mês [i.e., abril ] esta deteriorara ainda mais. Agora, as Forças Aéreas Aliadas e Real Marinha Britânica passavam a dominar as rotas de abastecimento. As importações não substituíam mais o consumo, e a cabeça-de-ponte tunisiana definhou numa confusão.

Mas, enquanto os líderes do Eixo se recusavam cegamente a admitir o total desespero da situação que haviam criado na Tunísia e faziam ouvidos moucos aos pedidos dos comandantes de campanha para reduzir suas perdas, a hierarquia na Tunísia começou sutilmente a salvar alguns dos seus homens mais experientes para lutar na Europa. O antigo Ajudante-de-Ordens de Rommel, Schmidt, foi mandado para casa, para casar-se, vários oficiais graduados adoeceram e outros voltaram para participar de conferências. Nessa circunstâncias, merece críticas o sistema que sacrificou inutilmente tantos soldados, apenas algumas semanas depois que a nata do exército alemão bateu em retirada em Stalingrado [dezembro/1942-janeiro/1943].

Pouco depois que o 8º Exército chegou a Enfidaville, desfechou um ataque intenso e persistente, destinado a abrir caminho entre as montanhas – e fracassou. Entrementes, uma série de ataques aliados tiveram lugar ao longo da frente, continuando incessante e em diferentes graus de intensidade a partir de 22 de abril. Para von Arnim, o fato de esses ataques ocorrerem no vale do Medjerda ou arredores não era surpresa. O vale, com sua extremidade ocidental em mãos aliadas (muito embora seus flancos fossem defendidos pelos alemães) era, uma adaga apontada para o coração da resistência do Eixo – Túnis.

Pelo começo de maio, a despeito do protesto de Kesselring, von Arnim decidiu concentrar suas forças mais poderosas em Medjerda – muitas do AK [Afrika Korps], incluindo toda a sua força blindada. Naturalmente, movimentos como estes eram totalmente inúteis. Por volta de 30 de abril, a força blindada alemã queimara seus últimos cartuchos, sem desmerecer a fama de que gozava.

[…]


Lançando-se com a habilidade e fúria tradicionais contra Bou Aoukaz, este grupo heterogêneo [de tropas da AK] obteve resultados que teriam orgulhado ao próprio Rommel. Na luta intensa que persistiu até o ponto de exaustão, a 30 de abril, expulsou os britânicos de Djebel.

E, ali, o AK despediu-se do palco. Se tivesse podido lutar mais, ele o teria feito. Restavam ainda 69 tanques aptos para combate em quase tudo, exceto em combustível, de modo que tudo o que as tripulações podiam fazer era aguardar o fim, que final não se fez esperar muito, porque enquanto o 8º Regimento Panzer desaparecia na batalha, o General Alexander [britânico] pôs em ação os preparativos finais para esmagar o Grupo de Exércitos Afrika.”


A 6 de maio, Alexander lançou uma força maciça formada da 7ª Divisão Blindada, 4ª Divisão Indiana, 201ª Brigada de Guardas (de Enfidanville), da 4ª Divisão de Infantaria britânica e a 6ª Divisão Blindada (da entrada do vale do Medjerda), na direção de Túnis, completando seu avanço com retumbante bombardeio aéreo e de artilharia de dimensões espantosas. Nada poderia resistir `pressão do ataque e, na verdade, poucos aspiravam a fazê-lo. Vinte e quatro horas depois, todo o castelo de cartas do Eixo na África ruía.”

pp. 153, 157


fonte : MACKSEY, Kenneth. Afrika Korps – Rommel no deserto. Rio de Janeiro: Renes, 1974. trad. N. Japour






Tunísia


A 16 de fevereiro de 1943, abandonando o último farrapo do novo Império Romano, as retaguardas alemães e italianas, a Leste (AK) e Oeste (5º Panzer) se retiram, e formam atrás da linha de Mareth. Rommel traz de volta 129 tanques, cuja metade é rebocada. Reconduz, reduzidas de dois terços, as imortais divisões do Afrika Korps, a 15a Panzer, a 21a Panzer e a 90a Ligeira, assim como a 164a, que se reunira ao exército na véspera de El Alamein, e cinco pequenas divisões italianas procedentes da guarnição de Trípoli. 30.000 alemães e 48.000 italianos vem reforçar a cabeça-de-ponte do Eixo na Tunísia.

Mas essas tropas tem no seu encalço a Leste o 8o Exército britânico de Montgomery, com sua extraordinária mescla de ingleses, escoceses, australianos, neozelandeses, sul-africanos, canadenses, indianos, malaios, gurkhas, maoris, canaques, somalis, senegaleses e franceses. A vanguarda é formada pelo corpo de exército do General Freyber, ao qual se unira a Coluna Leclerc, proveniente do Chade, através do Saara. As colunas cerradas encontram-se ainda ao redor de Trípoli e de Bengási, não dispondo de meios para entrar em ação - tem que esperar várias semanas para atacar a linha de Mareth.

A Oeste os aliados tinham o 1o Exército britânico, possuindo até então apenas um corpo de duas divisões, o 19o Corpo francês, com suas três divisões, e o 2o Corpo dos EUA, que apesar de ter desembarcado oito divisões, os americanos só tem formadas a 1a Blindada e a 1a de Infantaria.

As forças do Eixo que agora ocupavam o arco de posições elevadas que cobriam Túnis e Bizerta foram reunidas num comando único às ordens do general von Arnim. O fim do Afrika Korps, como unidade combatente separada, foi simbolizado por sua incorporação às outras forças que se encontravam na Tunísia, e pela partida de Rommel da África. A longa luta pelo domínio do deserto ocidental, durante a qual Rommel mostrara suas notáveis qualidades de comando, era coisa do passado, e suas forças fundiram-se com as de von Arnim para defender o baluarte montanhoso que era seu último ponto de apoio na África.”


fonte: Tropas de Elite. Afrika Korps. acessado em : http://www.tropasdeelite.xpg.com.br/GERMANY_afrika_korps.htm





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