sexta-feira, 22 de março de 2013

Hitler após a derrota em Stalingrado






Hitler após a derrota em Stalingrado


1943


Fonte: FEST, Joachim. Hitler. 3ª ed. Nova Fronteira, 1976.


“Depois de Stalingrado, Hitler perdeu claramente o controle dos nervos. Até ali, não renunciara senão raramente à atitude estóica, inseparável, segundo acreditava, do modo de ser de um grande capitão; nas situações mais críticas, sempre ostentara uma calma olímpica. Mas, em compensação, a partir de Stalingrado, terminou por se cansar dessa disciplina que se impunha a si mesmo, e violentos acessos de cólera revelaram o preço que lhe custara a terrível sobretensão de suas forças em todos esses anos. Durante as reuniões, tratava seus oficiais de Estado-Maior de ‘idiotas’, de ‘covardes’, de ‘mentirosos’ – e Guderian, que o reviu pela primeira vez em uma dessas semanas, notou, com estupefação, a irascibilidade de Hitler e quão pouco se podia confiar em suas decisões. [...] É preciso, todavia, reconhecer em sua defesa que, desde o fim de 1942, ele sofria de uma profunda alteração do sistema nervoso, dissimulada apenas à custa de um esforço sobre-humano de vontade e autodisciplina; os oficiais superiores do grande quartel do Führer se ressentiram dos sintomas da crise – embora as narrativas posteriores, que mostram um Hitler vituperando sem cessar, vítima das tempestades de temperamento irascível, pertençam ao domínio dos exageros apologéticos. [...]

[...] Em agosto de 1941, Hitler se queixava de fraqueza, de náuseas e de calafrios, seus tornozelos incharam sob o efeito de um edema, e não está excluída a possibilidade de que se tenha verificado, nessa época, a ab-reação de um corpo havia muito tempo mantido em forma de maneira artificial; em todo caso, desde esse instante, as crises de esgotamento se multiplicaram. A partir de Stalingrado, todo dia ele tomava um antidepressivo, não suportava mais lâmpadas fortes e mandou fazer uma espécie de viseira para usar em suas saídas ao ar livre; de tempos em tempos, dizia sentir perturbações do equilíbrio: ‘Tenho sempre a sensação de cair para a direita.’

[...]

“Era um homem que tinha contínua necessidade de ser ‘recarregado’ artificialmente: em certo sentido, as drogas de [doutor] Morell substituíam, para ele, o antigo estímulo das ovações de massa. Desde Stalingrado, Hitler fugia cada vez mais à vida pública e, depois dessa derrota, só pronunciou dois discursos. Já um pouco depois do início da guerra, suas aparições em público tinham-se tornado mais raras e nem todos os esforços da propaganda oficial para explorar essa espécie de fuga num sentido ‘mitificador’ conseguiam substituir o sentimento, outrora tão generalizado, de sua onipresença, com cuja ajuda o regime liberara e canalizara para ele a descarga total das energias, da espontaneidade e do espírito de sacrifício. De repente, essa imagem se tornava caduca. Da mesma forma que, cioso de sua auréola de homem invencível, jamais visitava as cidades destruídas, assim, após as derrotas decisivas da guerra, ele deixou de se mostrar às massas. [...]

“Os pontos fracos do comando de Hitler apareceram sobretudo no decorrer de 1943, quando ele ainda não fazia uma ideia estratégica bem exata do futuro desenrolar do conflito. Segundo testemunhos unânimes de seu entourage, tornara-se inseguro, pouco inclinado a tomar decisões, irresoluto – Goebbels chegou a falar abertamente de uma ‘crise do Führer’. Vezes seguidas, Goebbels incitou um Hitler hesitante a retomar a iniciativa, numa guerra que se desagregava sem concepção bem definida, com uma mobilização rigorosa de todas as reservas do país. [...]

“A aversão de Hitler em exigir do público as privações suplementares inerentes a uma guerra total era determinada sobretudo por uma reminiscência do choque que experimentara por ocasião da revolução de novembro de 1918, mas em parte também desconfiança, já arraigada, que lhe inspiravam as massas inertes por essência, não confiáveis. Também se poderia quase pensar que esse gênero de reação traduzia o sentimento da fragilidade e da precariedade de sua autoridade. [...]

“[...] A tendência de Hitler para não aceitar a realidade assumia, a partir de seus reveses, um aspecto cada vez mais patológico; e disso dão prova inúmeros exemplos colhidos em seu comportamento. Por exemplo, o hábito de percorrer o país dentro de seu vagão-leito, com as cortinas descidas e de preferência à noite, como se estivesse fugindo; [...] É preciso incluir nesse contexto o estilo das conversações de Hitler, sempre degenerando em monólogos intermináveis, sua incapacidade de ouvir ou aceitar objeções, bem como sua mania sempre crescente pelas colunas de algarismos que não terminavam mais, sua rage du nombre. [...]

“É certo que este desprezo pela realidade fora sua força outrora; fizera-o surgir do nada, produzira seus triunfos de estadista e, sem dúvida, também, uma parte de seus êxitos militares. Mas agora, quando a página tinha sido virada, esse desconhecimento dos fatos vinha agravar desastrosamente os efeitos de cada derrota. [...]”



Hitler e o Holocausto


“Ainda hoje paira uma certa obscuridade sobre o momento em que Hitler tomou a resolução de liquidar definitivamente o problema judaico, pois não existe qualquer documento sobre o assunto. Mas é notório que, bem antes de seus partidários mais próximos, ele não tinha considerado apenas como metáforas as expressões ‘eliminação’ ou ‘aniquilação’, mas sempre as ligara à noção de um ato de exterminação física, pois, para ele, uma ideia nada tinha de espantoso: ‘Aqui também’ – escrevia Goebbels, não sem uma ponta de admiração – ‘o Führer é o eterno pioneiro e o porta-voz das soluções radicais.’ Desde os anos 30, Hitler tinha solicitado, secretamente, que se desenvolvesse ‘uma técnica de despovoamento’ e acrescentar explicitamente que isso significava para ele a eliminação de povos inteiros: ‘A natureza é cruel, por que não o seríamos também? Eu envio a flor dos alemães para a tempestade de aço que será a guerra, sem experimentar qualquer remorso pelo precioso sangue que vai ser derramado; por que então não teria eu o direito de exterminar milhões de seres pertencentes a uma raça inferior e que se reproduzem como vermes?’

Empregaram-se pela primeira vez, em 1941, num velho castelo perdido na floresta para os lados de Kulmhof, gases tóxicos para matar as vítimas – e pode-se fazer remontar esse processo às próprias experiências de Hitler durante a I Grande Guerra. Uma passagem do Mein Kampf [Minha Luta] deplora, em todo caso, que ‘não se tenha exposto ao gás de doze a quinze mil desses hebraicos corruptores do povo’, como se fez com centenas de milhares de soldados alemães no front. Todavia, a decisão dessa liquidação definitiva, cada vez que se tomava, nunca tinha nada a ver com o agravamento da situação. Seria equivocar-se grosseiramente sobre as intenções de Hitler interpretar os massacres do Leste como a expressão de um crescente amargor provocado pelo desenrolar da guerra ou como um ato de vingança contra o velho inimigo simbólico: eles devem ser situados, antes de mais nada, na lógica do pensamento de Hitler, e por isso era inelutáveis. Por outro lado, o plano temporariamente estabelecido no Alto Comissariado SS da Raça e da Colonização, bem como no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e que consistia em fazer da grande ilha de Madagascar uma espécie de imenso gueto com cerca de quinze milhões de judeus, parecia ir contra os projetos de Hitler nesse ponto essencial. Pois se o judaísmo era verdadeiramente o nefasto portador de germes da grande doença universal, um espírito apocalíptico não podia nem pensar em dar-lhe um lugar de refúgio, mas unicamente em exterminá-lo em sua substância biológica.”
[...]

“No início, procurou-se dissimular o que se passava. Os trens intermináveis que deportavam as populações judaicas sistematicamente recolhidas e amontoadas em todas as partes da Europa rodavam para destino ignorado; boatos enganosamente espalhados falavam de belas cidades novas, construídas nos territórios conquistados no Leste. [...]

Fest comenta que Hitler mantinha silêncio sobre as ações radicais da ‘Solução Final da Questão Judaica’, por qual motivo? “Pode-se fazer toda espécie de suposições sobre os motivos a que obedecia: sua mania de segredo, um antigo resquício de moral burguesa, o desejo de atribuir ao acontecimento um caráter abstrato e de não debilitar a motivação passional através do exame – mesmo assim, é estranha essa imagem de um salvador que esconde sua ação salvadora no mais profundo do seu coração. [...] ”

“ [...] Em meio a uma cadeia altamente organizada de verdadeiras fábricas de assassinatos em série, esse trabalho de extermínio foi, apesar de tudo, pouco a pouco subtraído aos olhos da população, racionalizado e transformado, através do emprego de gases tóxicos. A 17 de março de 1942, o campo de Belzek tinha organizado essa forma de atividade com ‘uma capacidade diária de matar’ 15 mil pessoas; em abril, Sobidor, não longe da fronteira da Ucrânia, seguia o exemplo, com 20 mil pessoas por dia; depois, Treblinka e Madjanek, com cerca de 25 mil, assim como, e principalmente, Auschwitz, que se tornou ‘a maior empresa de exterminação humana de todos os tempos’, conforme disso se vangloriava, aberrantemente, seu comandante, Rudolf Höss, muito orgulhoso dos métodos empregados : o conjunto do processos de assassinato em série, desde a seleção dos que chegavam e sua asfixia, até a eliminação dos cadáveres, incluindo o aproveitamento do que deixavam, tornara-se aqui um sistema, funcionando sem falha, através de operações sucessivas, perfeitamente engrenadas. A toda pressa, em movimento cada vez mais acelerado, continuou-se a proceder a essa exterminação ‘a fim de que não fosse, um belo dia, suspensa ainda no meio’, como explicou o SS chefe de polícia de Lublin, Odilo Globocnik. Numerosas testemunhas descreveram a resignação com que a vítimas marchavam para a morte: em Kulmhof, mais de cento e cinquenta e dois mil judeus; em Belzek, seiscentos mil; em Sobidor, duzentos e cinquenta mil; em Treblinka, setecentos mil; em Madjanek, duzentos mil; em Auschwitz, mais de um milhão. Além disso, os fuzilamentos continuavam. Segundo estimativa (por alto) do comissariado principal para a segurança do Reich, o massacre devia se estender a perto de onze milhões de judeus; mais de cinco milhões foram executados.”


Fonte: FEST, Joachim. Hitler. 3ª ed. Nova Fronteira, 1976. pp. 799-814



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Stalingrado: início da derrota nazista



Hitler e o Holocausto



A versão dos revisionistas



by LdeM



sexta-feira, 15 de março de 2013

A Singularidade do Holocausto





foto: portão de Auschwitz e a cínica frase: 'o trabalho liberta'




A Singularidade do Holocausto



Por Maria Luiza Tucci Carneiro


In: Leituras da História especial –Grandes Genocídios – ano I – nº 2



“O extermínio de 6 milhões de judeus, conhecido como Solução final, deve ser compreendido como um processo gradual, planejado pelo Estado nazista, que tinha o monopólio da violência. A Solução Final se processou em três etapas distintas: a primeira delas compreende 1933-1938, colocou em prática o boicote econômico e a represália cultural; seguidos do prenúncio da catástrofe entre 1938 e 1941; e finalmente, entre os anos de 1941-1945, foi posto em prática o extermínio como objetivo máximo da Solução Final, decidida e executada por Hitler e seus homens, num momento decisivo da Segunda Guerra Mundial.

[...]

A partir de 1939, os campos de concentração e a política anti-semita passaram por uma grande reformulação. Em decorrência da guerra, o Reich resolveu fazer uso da infra-estrutura e da mão-de-obra judaica disponível com vistas a fortalecer o seu capital bélico.

Ao mesmo tempo, cientistas eram incentivados a acreditar que o assassinato em massa poderia ‘curar’ a Alemanha de um grande mal (os judeus), de forma a garantir a revitalização da raça ariana e da cultura alemã. Daí, alguns especialistas distinguirem genocídio físico do genocídio cultural . [...]
[...]

A execução em massa dos judeus começou na Rússia no início da ocupação alemã. No final de 1941, os judeus alemães radicados nesses territórios começaram a ser deportados para os guetos e campos de concentração no leste. Cerca de 1,5 milhão de judeus foram executados por fuzilamento, método considerado ‘muito lento’. O extermínio dos judeus na Wartheland (parte da Polônia anexada ao Reich) teve início em 1942, no campo de Chelmo. Transportados em caminhões, os judeus eram levados em direção à floresta e morriam no caminhão, asfixiados pelo gás de escapamento. Posteriormente, as vítimas começaram a ser encaminhadas para câmaras de gás, onde era aplicado o ácido prússico, fabricado por uma indústria química especializada em vermes chamada Cyclon B. outros campos mais ‘primitivos’, como o de Belzec, empregavam o monóxido de carbono, cujo efeito letal demorava horas. Na noite de 2 para 3 de agosto de 1944, foram exterminados os últimos 2.897 ciganos de Auschwitz, dos 20.943 ali registrados.


Em julho, começou o extermínio dos habitantes do gueto de Varsóvia, transferidos para Treblinka. Em seguida, as imensas instalações do campo de Auschwitz-Birkenau (um complexo de 40 m2 composto por três campos) tornaram-se o principal local de extermínio. Em 22 de junho de 1941, quando Hitler invadia a União Soviética, dezenas de milhares de judeus desapareceram das cidades de Vilna, Kovno, Riga, Bialystock e Minsk. Participaram desses massacres sistemáticos os Einsatzgruppen (unidades especiais), cuja missão ficou conhecida como Operação Barbarossa. O nazista Herbert Çucurs, mandante da matança de Riga, refugiou-se no Brasil, onde viveu até o final da década de 1960, sendo protegido pelo DEOPS/SP, após ter sido denunciado por sobreviventes judeus radicados em São Paulo.


A partir de 1942, a grande imprensa mundial começou a denunciar os atos genocidas dos nazistas, usando termos como ‘extermínio sumário’, ‘crimes monstruosos’, ‘assassinatos em massa’, ‘morte por esgotamento físico’ e ‘morte pela fome nos guetos’. Em fevereiro de 1943, a rádio BBC de Londres informava que os nazistas haviam acelerado o extermínio de judeus na Europa ocupada. A denúncia de um ‘campo de morte’ para crianças e jovens em Radom, na Polônia, veio a público em setembro de 1942.
[...]


O povo judeu estava sendo morto; todos foram avisados, e a maioria das nações aliadas continuava afirmando que ‘não sabiam de nada’. Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho liberou Auschwitz, identificado como a própria imagem da morte. Os 7.650 prisioneiros ainda vivos eram apenas espectros humanos. Só nesse campo morreram 1,5 milhão de judeus e 100 mil não judeus (russos, poloneses e ciganos). Em abril de 1945, autoridades inglesas e americanas ordenaram que as atrocidades cometidas pelos nazistas fossem documentadas no local. Diante da ‘abertura dos campos de morte’ pelas tropas aliadas, a humanidade pôde constatar até que ponto pode chegar a crueldade humana.”





MARIA LUIZA TUCCI CARNEIRO é historiadora, professora Livre-Docente da Universidade de São Paulo, coordenadora do LEER-Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação/USP e autora de diversos livros, entre os quais O anti-semitismo na Era Vargas e O veneno da serpente, ambos pela Perspectiva.



Fonte: Leituras da História especial –Grandes Genocídios – ano I – nº 2, pp. 40-45



Seleção: LdeM



Mais sobre o Holocausto / Shoal


quinta-feira, 7 de março de 2013

Rosa Branca contra o nazismo





A Vitória póstuma da Rosa Branca


por Christine Levisse-Touzé

 in: História Viva, Ano IV, 41, pp. 38-41)

“Em 1941, com alguns colegas, os estudantes Hans e Sophie Scholl, de Munique, fundaram um movimento de resistência ao regime nazista, denunciando os seus crimes e utilizando panfletos para conclamar os alemães à rebelião.”

“A Rosa Branca [Weise Rose] é o mais conhecido dos movimentos alemães de resistência a Hitler. A obra de Inge Scholl, irmã de Hans e Sophie, fundadores do movimento, foi publicada pela primeira vez em 1953, em versão francesa, La Rose Blanche, six Allemands contre le nazisme [A Rosa Branca, seis alemães contra o nazismo, Éditions de Mnuit, 1995], e, desde então, vem sendo regularmente reeditada. Exposições lhe foram dedicadas na Alemanha, em especial em Munique, berço do movimento.

[...]

Diferentemente de outros movimentos, a Rosa Branca logo passou a simbolizar uma resistência pura e moral. O nome foi escolhido por Hans Scholl. Seus membros passaram rapidamente à ação, por meio da divulgação de panfletos em que acusavam o regime, encorajando os colegas a se revoltar. Denunciavam crimes cometidos na frente soviética em nome da guerra de extermínio, e chegaram até mesmo a pregar a resistência passiva.

Sua ação se desenvolveu em três fases bem marcadas: em junho e julho de 1942, houve a divulgação dos quatro primeiros panfletos; de novembro de 1942 ao final de janeiro de 1943, deu-se a produção do quinto panfleto; em fevereiro de 1943, ocorreu a radicalização de sua ação, com inscrições nos muros e a redação do sexto panfleto. Entre 27 de junho a 12 de julho de 1942, Hans Scholl e Alexander Schmorell distribuíram as quatro primeiras Folhas da Rosa Branca em Munique. Seu objetivo era provocar uma reação dos membros da ‘cultura cristã ocidental’ e da intelligentsia alemã, e suscitar o patriotismo. Segundo seus redatores, os intelectuais foram os responsáveis pelo fracasso político da Alemanha.

[...]

De novembro de 1942 ao final de janeiro de 1943, o grupo se esforçou para convencer a população, e se estendeu a outras cidades, em especial Hamburgo. Hans Scholl e Alexander Schmorell fizeram contato com Falk Harnack, irmão de Arvid, um dos chefes da Rote Kapelle [Orquestra Vermelha], cuja existência haviam descoberto. Ao estabelecer relações com um marxista convicto, esperavam poder atingir grupos de resistentes de Berlim.

[...]

Quando do anúncio da capitulação alemã de Stalingrado, em 3 de fevereiro de 1943, os resistentes decidiram exacerbar sua ação, redigindo um sexto panfleto. O grupo visava prioritariamente os estudantes de Munique, que tinham ousado enfrentar a autoridade do Gauleiter Giesler, em 13 de janeiro de 1943, por ocasião das cerimônias ligadas ao 470º aniversário da universidade. Redigido por Kurt Huber, Hans Scholl e Alexander Schmorell, o panfleto dirigia-se diretamente aos estudantes: ‘A derrota de Stalingrado atirou nosso povo no estupor. A vida de 300 mil alemães, eis o que custou a estratégia genial desse soldado de segunda classe, promovido a general dos exércitos. Führer, nós te agradecemos. [...] Nunca mais! Chegou o dia de exigir explicações da mais execrável tirania que este povo jamais suportou. Em nome da juventude alemã, nós exigimos do Estado de Adolf Hitler o retorno às liberdades individuais. [...] Para nós só existe um imperativo: lutar contra a ditadura! [...]’

[...]

Os estudantes eram convidados a se lançar contra o regime, à imagem da luta de 1813 contra Napoleão. Aproveitando o desmoronar do mito de Hitler, em seguida à derrota de Stalingrado, eles se tornaram mais audaciosos. Durante as noites de 3 a 16 de fevereiro, nas paredes da universidade e de outros prédios públicos, escreveram frases como ABAIXO HITLER, HITLER, ASSASSSINO DAS MASSAS, LIBERDADE, com suásticas riscadas.


O epílogo foi dramático. Em 18 de fevereiro de 1943, Hans e Sophie Scholl dispuseram várias pilhas de panfletos na saída das salas de aula e corredores da universidade. Subiram até outro andar, de onde Sophie lançou o restante dos panfletos no pátio. O encarregado da universidade, Jakob Schmid, os interpelou. Dos 1.200 panfletos distribuídos, a Gestapo interceptou 800. Hans e Sophie, detidos pela Gestapo, foram levados ao palácio de Wittelsbach e interrogados durante quatro dias. [...] Seu processo foi aberto em 22 de fevereiro, no tribunal do Palácio de Justiça de Munique. Roland Freisler, presidente do Tribunal do Povo, vindo expressamente de Berlim para o caso, comportou-se mais como acusador do que como juiz durante todo o processo. Eles foram acusados de ‘apoio pérfido ao inimigo, organização de alta traição e desagregação dos exércitos’. [...] Os próprios acusados fizeram sua defesa. Sophie Scholl confessou sua participação na distribuição de panfletos: ‘O que nós dissemos e escrevemos muitos pensam, mas não ousam admitir’.

Os três acusados deram prova de surpreendente dignidade, quando do anúncio do veredicto. Hans escreveu nas paredes da prisão a seguinte citação de Goethe: ‘Enfrentar todas as forças contrárias’. Logo depois das 17 horas, os três amigos foram guilhotinados. Alexander Schimorell, Willi Graf e Kurt Huber foram condenados à morre em 19 de abril de 1943. Três novos processos julgaram outros membros, mas as penas de morte não foram aplicadas, porque a população de Munique reagiu contra a dureza dos julgamentos.

A maioria dos membros da Rosa Branca foi detida e o movimento, desmantelado. A determinação daqueles jovens de enfrentar o terror fez deles resistentes no sentido literal do termo. Eles acreditaram que podiam interferir no curso da guerra e provocar uma mudança de opinião. Sua grande vitória foi demonstrar que havia uma outra Alemanha para além do nazismo.”


Fonte: História Viva, Ano IV, 41, pp. 38-41



Seleção: LdeM



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Filmes baseados
na resistência da Rosa Branca

Sophie Scholl – Último dias

A Rosa Branca / 1982

A Rosa Branca / 2005

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Thomas Mann sobre a derrota alemã em Stalingrado




Discurso de Thomas Mann

BBC
Discursos contra Hitler


23 de fevereiro de 1943


Ouvintes alemães!


Um dia a história terá uma opinião dividida sobre o que é mais repugnante, as ações ou as palavras dos nazistas. Também será difícil decidir quando essa corja insultou mais a humanidade: quando mentia ou quando dizia a verdade. Em certas bocas até mesmo a verdade se torna mentira, um meio de enganar – e não se pode mentir de modo mais repugnante do que dizendo a verdade. Goebbels e os seus se regalaram recentemente no amor à verdade. A franca seriedade com que informaram o povo alemão do desastre na Rússia- que, sem dúvida, constitui um dos mais devastadores fracassos da história da guerra – foi monumental e impressionante. Não houve nenhuma tentativa de atenuar o horrível fim do cerco a Stalingrado – a não ser, talvez, a não-menção ao fato de Hitler ser o único responsável por essa catástrofe. Enquanto a notícia era transmitida, não se tocava no rádio o hino do Partido, a canção de Horst Wessel, que poderia cair mal, e sim 'Ich hatt' einen Kameraden' [Eu tive um companheiro]. Foi declarado luto de quatro dias, luto pelos crimes fracassados do regime nazista – um deboche do luto verdadeiro que atingiu o povo alemão com a perda sem sentido de 10 mil [sic] de seus filhos. Aquilo que podia render revolta, desespero e insubordinação foi enterrado com o luto. Vamos todos juntos ficar de luto, o líder e seus liderados, e cantar 'Ich hatt' einen Kameraden' !


O ressaibo repulsivo da veracidade resulta dos objetivos que se procurou alcançar com ela. Sua meta era, primeiro, utilizar o elementar patriotismo do povo para a salvação do regime, organizando suas últimas forças para uma mobilização em massa – de modo que o organizador tivesse menos a ver com os acontecimentos duvidosos dessa última convocação do que com a respectiva emoção diversionista. Segundo, a vitória dos russos e a derrota dos nazistas foram anunciadas com tanta franqueza e honestidade, e, no que foi possível, ainda exagerada, para amedrontar o mundo anglo-saxão com o 'perigo vermelho', com a invasão do continente europeu pelo bolchevismo. A mensagem confusa de Hitler mandou que fosse lida no décimo ano da tomada do poder [Machtergreifung em 1933] é cheia de advertências chantagistas desse tipo, cheia da retórica do voo de Rudolf Hess sobre o canal da Mancha, advertências feitas com a esperança teimosa de trazer para o seu lado a Inglaterra e os Estados Unidos contra a 'Ásia Central', ou seja, a Rússia. O Leste asiático, a saber, o Japão, seu aliado, é muito bom, mas a 'Ásia Central', a Rússia, que ele de maneira ousada e burra atacou, é o inimigo do mundo. Ele mesmo, Hitler, é a Europa fina, honrada, sensível, culta, mas a terra de Puchkin, Gogol e Tolstói é região dos hunos, cujas hordas se preparam para lançar o próspero continente de Hitler em uma 'barbárie inimaginável'.


É um embuste infeliz e não vai funcionar. Os nazistas querem dar a impressão de que sabem jogar segundo as regras sociais e Göring dispara uma alusão tão discreta quanto ele : 'Quando muito, faremos a paz com gentlemen, mas nunca com os soviéticos!' Será que eles ainda não sabem que qualquer acordo de paz será recusado? Que ninguém vai fazer a paz com eles, nem as democracias, nem o socialismo? [sic] Que a paz só virá depois deles? Quanto ao 'perigo vermelho', porém, ouçam o que disse Stálin em seu discurso de 6 de novembro de 1941: 'Nosso primeiro objetivo é libertar a terra russa e seus habitantes do jugo nazista. Não temos nem podemos ter como objetivo de guerra impor aos eslavos e outros povos subjugados da Europa nossa vontade ou nossa forma de governo.' E, através de seu embaixador Maisky, esclareceu: 'A União Soviética defende o direito de todas as nações à independência e à integridade de seu território … e também seu direito de construir uma ordem social e escolher uma forma de governo que lhe seja oportuna e necessária.' Em relação à Alemanha, no entanto, disse: 'Os Hitlers vêm e vão, mas o povo e o Estado alemão permanecem.' Ele tem certamente o desejo de punir aqueles que infligiram um sofrimento tão grande a seu país, mas nunca saiu de sua boca uma palavra de ameaça ou de desejo de destruição contra o povo alemão. Foi a Rússia que assaltou a Alemanha ou o contrário? Talvez não esteja longe o dia em que o povo alemão vai reconhecer a Rússia como um amigo sensato [sic].” pp. 129-132


nota: Horst Wessel, membro do Partido nazista, escreveu uma canção conhecida como 'Die Fahne hoch' (A bandeira hasteada) que foi praticamente o hino da Alemanha durante o Terceiro Reich, 'Ich hatt' einen Kameraden' é uma balada escrita por Ludwig Uhland em 1809 durante a Guerra Franco-Austríaca, cantada com a melodia da canção tradicional do século XVIII 'Ein schwarzbraunen Mädchen hat'nen Feldjäger lieb', que se tornou música quase obrigatória nas cerimônias militares. (NT)


Fonte: MANN, Thomas. Ouvintes Alemães! Discursos contra Hitler (1940-1945). trad. Antonio Carlos dos Santos e Renato Zwick. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.


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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Relações do Papado com o Nazismo - continua 4




foto: Nuncio Cesare Orsenigo and Foreign Minister Ribbentrop




Relações do Papado com o Nazismo – continuação 4


fonte: CORNWELL, John. O Papa de HitlerA História Secreta de Pio XII.


O objetivo de Pacelli era claro desde o início. Não haveria mais tentativas de censurar e advertir os nazistas e fascistas. A política de apaziguamento, que ele caracterizou numa frase que ressoaria ao longo dos anos de guerra – 'o papa está trabalhando pela paz' – haveria de dominar a imagem pública das iniciativas do Vaticano. […]

Elevado, pontifical, o sermão [ a primeira homilia oficial como papa, em 9 de abril (1939)], não se aventurou além de abstrações e chavões. Dois dias antes, na sexta-feira santa, Mussolini invadira a Albânia, numa manobra para fortalecer o poderio italiano e prevenir as ameaças potenciais alemãs aos Balcãs. Pacelli não emitiu uma única palavra de protesto ou apoio. Seria isto um sinal da mais rigorosa neutralidade?

Apenas uma semana depois, numa transmissão da Rádio Vaticano para os fiéis espanhóis, Pacelli revelou como podia ser faccioso ao enaltecer Franco. Num discurso para os bispos espanhóis, ele convocou-os para se unirem numa 'política de promoção da paz', de acordo com 'os princípios ensinados pela Igreja e proclamados com tanta nobreza pelo generalíssimo: ou seja, justiça para o crime e benevolente generosidade para aqueles que foram induzidos ao erro'. Ele acrescentou, falando como 'um Pai', que tinha pena dos que foram 'desencaminhados por uma propaganda mentirosa e distorcida'. Duas semanas antes, ele enviara um telegrama de congratulações a Franco pela 'vitória católica' da Espanha. Fora uma vitória que custara meio milhão de vidas e ainda custaria muito mais.” pp. 253-54


Vésperas da Segunda Grande Guerra

A Inglaterra e a França avaliaram a sugestão de Pacelli para uma conferência de paz, durante a primeira semana de maio de 1939. apesar do sigilo do projeto, informações a respeito começaram a surgir na imprensa de paris, de Londres e até de um lugar tão distante quanto a nova Zelândia. Abruptamente, no dia 10 de maio, Pacelli retirou-se das negociações e o plano foi abandonado . A secretaria de Estado explicou o afastamento do papa aos núncios com a alegação de que não havia mais qualquer perigo de guerra. Segundo o historiador Owen Chadwick, foi Mussolini quem fez naufragar a ideia de uma conferência de paz, porque não queri encarar a França – com a qual o Duce tinha desavenças por causa de disputas territoriais na África do Norte – na presença da Inglaterra, Alemanha e Polônia. Em vez disso, Mussolini juntou-se a Ribbentrop na declaração de que as tensões internacionais haviam sido reduzidas. Em 7 de maio, os dois discutiram as preliminares para o 'Pacto de Aço', unindo a Itália e Alemanha para um beligerância conjunta. O acordo foi assinado em Berlim, em 22 de maio.

Ainda assim, Pacelli não desistiu do apaziguamento. Embora bastante abalado pelo pacto entre Mussolini e Hitler, em 4 de junho ele informou a Osborne, o ministro britânico no Vaticano, que estava disposto a agir sozinho como mediador para superar as divergências entre a Alemanha e a Polônia.” (pp. 259-60)


[...] No verão, os rumores de que Pacelli pressionaria os poloneses a fazerem concessões à Alemanha eram tão abundantes nos círculos diplomáticos europeus que Maglione [Luigi M., secretário de Estado da Santa Sé] sentiu-se compelido a divulgar uma negativa. […] Maglioni acrescentou que tinha garantias de que a Alemanha não atacaria a Polônia; sua única base para dizer isto, no entanto, era o próprio Hitler e o ministro do Exterior de Mussolini, conde Ciano.

E 22 de agosto, já era do conhecimento comum que a Alemanha estava prestes a assinar seu pacto com a Rússia: a guerra parecia inevitável. Poderia o papa, no último instante, usar sua influência e apelar para a razão? Sem dúvida, pensando no valor de propaganda, Halifax [ Lord H., diplomata britânico] assediou o papa, por meio de Osborne, a fazer uma pelo pelo rádio, condenando a violência e recomendando a paz. [...]” (p. 261)


Começa a Segunda Guerra Mundial

Em 1º de setembro de 1939 as tropas alemãs invadem a Polônia e ocupam o corredor polonês, a Pomerânia e a Silésia, e logo alcançam a capital Varsóvia. Em 17 de setembro são as tropas soviéticas que avançam e ocupam a parte leste.

A agonia da Polônia estava apenas começando. No final da guerra, além da transferência de populações inteiras, fome e repressão, cerca de seis milhões de pessoas morreriam ou sofreriam lesões físicas. Ao longo do mês de setembro, enquanto ponderava sobre as notícias assustadoras que chegavam da Polônia, com sua população de 35 milhões de almas, a maioria de católicos, Pacelli permaneceu em silêncio. O papa mantinha uma posição de neutralidade na esperança de poder exercer no futuro alguma influência como um supernegociador? Sentia-se preocupado com o impacto retaliatório que um protesto poderia provocar contra as populações católicas da Alemanha e da Polônia? Para os poloneses, não havia nada pior que Hitler pudesse lhes infligir. Para os britânicos e franceses , a falta de uma condenação categórica era desconcertante. O embaixador polonês no Vaticano sentia-se tão frustrado e tão determinado a fazer com que a Polônia usasse os serviços da Santa Fé para anunciar ao mundo o que acontecia em seu país, que persuadiu seu governo a enviar a Roma o primaz polonês, cardeal August Hlond. Ele chegou em 21 de setembro e foi recebido cordialmente por Pacelli. Mesmo assim, o pontífice recusou-se a falar em defesa da Polônia.” (p. 263)

[...] Dois dias depois, Pacelli recebeu um grupo de peregrinos poloneses, levados pelo cardeal Hlond. Falou com emoção, dizendo que previa a ressurreição do país, que se ergueria tal como Lázaro, que ressuscitara dos mortos.

Não era suficiente. Os peregrinos poloneses esperavam uma veemente condenação à Alemanha e à Rússia. Ficaram amargurados. Seu desapontamento ressoou clamoroso por Roma. [...” (p. 264)


Resistências contra o hitlerismo em expansão

Foi então que ocorreu algo extraordinário, no mais profundo sigilo, revelando que a motivação de Pacelli na maneira equívoca com que reagiu à agressão nazista na Polônia não era ditada nem por covardia nem por simpatia a Hitler. Em novembro de 1939, Pacelli envolveu-se, de uma forma central e perigosa, no que foi provavelmente a conspiração mais viável para depor Hitler durante a guerra. “ (p. 266)

Aqui o autor Cornwell se refere àqueles conspiradores que se celebrizaram em julho de 1944, com o Complô dos militares contra os líderes nazistas, com o desfecho da Operação Valquíria. Hans Oster e o general Ludwig Beck são citados. Os militares antinazistas solicitavam às potências ocidentais democráticas um apoio durante uma possível guerra civil quando a Alemanha seria uma nação vulnerável. Os alemães temiam um desmembramento da nação caso houvesse uma invasão franco-britânica. Pacelli pretendia agir junto aos líderes ocidentais no sentido de garantir uma 'paz honrosa'. Já em final de 1939 alguns envolvidos na conspiração conseguiam contatos entre agentes britânicos e membros do clero alemão.

As hesitações de Pacelli – ciente dos perigos de uma ação tão ousada – se estenderam até início de 1940, quando as tropas alemãs se preparavam para invadir a Escandinávia, e depois os Países Baixos (Holanda), Bélgica e França. Enquanto isso, o embaixador alemão nazista Ribbentrop fez uma visita ao Papa em Roma (11 de março) mais como uma forma de propaganda (a iludir os católicos alemães e desanimar o clero polonês). Pacelli precisaria se ariscar mais para apoiar os conspiradores – e evitar o avanço alemão para o ocidente europeu. Quando os fascistas italianos mostraram-se dispostos a entrarem na guerra, o papa tentou deter o Duce, elogiando sempre as 'iniciativas de paz'. Os fascistas 'linha dura' não hesitaram em reprimir a imprensa independente do Vaticano. Mussolini, então, ficou do lado dos alemães contra o papa.

Pacelli evitava irritar os nazi-fascistas e ao mesmo tempo desagradava os ocidentais democratas que esperavam condenações explícitas das brutalidades do Eixo em avanço nos campos de batalha e bombardeio de cidades. Ao irritar os fascistas, o papa passou a viver como um prisioneiro no Vaticano – incapaz de uma ação eficaz contra a guerra. Justo ele que se dizia um mensageiro da paz. A santa Sé estava sitiada, um território dentro do novo império italiano sonhado pelos fascistas. O que Pacelli mais temia era um bombardeio sobre a cidade de Roma – e assim a destruição de um patrimônio monumental insubstituível da 'Cidade Eterna' . “Para seus críticos, em outras palavras, ele [papa Pio XII] parecia pôr a preservação de Roma acima de todas as outras cidades da Europa enfrentando os horrores da blitzkrieg, deportações, torturas e até a Solução final. A questão do bombardeios de Roma, portanto, proporcionou credibilidade às acusações do silêncio culpado e da inércia de Pacelli em outros problemas durante a guerra.” (p. 277)

Pacelli fazia repetidos pedidos para que a 'cidade sagrada' de Roma fosse declarada 'cidade aberta', e os centros de governo e depósitos de armamentos dos exércitos fascistas fossem retirados da cidade. O que não resultou em sucesso. A guerra se prolongava e a qualquer momento a capital italiana poderia ser bombardeada por britânicos (e depois norte-americanos).

Nacionalistas croatas e o clero católico

Quando as forças alemãs invadiram os Balcãs – para apoiar os fascistas italianos em seus insucessos – os direitistas-racistas nacionalistas católicos do grupo croata Ustashe receberam apoio para a 'independência' da Croácia, iniciando para isso uma verdadeira campanha de 'limpeza étnica' contra os sérvios, os ortodoxos, os ciganos e judeus. As atrocidades croatas contra os sérvios foram estarrecedoras – assim como os crimes genocidas dos sérvios contra os bósnios e albaneses (entre 1992-1999), que revelam ódios étnicos ocultados durante o governo socialista de Tito (Josip Broz, 1892-1980).

Demoraria algum tempo para que a Santa Sé soubesse das atrocidades. Mas os detalhes do massacre dos sérvios e da virtual eliminação dos judeus e ciganos eram conhecidos desde o início pelo clero e pelo episcopado católico croata. Na verdade, o clero muitas vezes teve uma participação destacada.

A contagem final quase desafia a credibilidade. Pelos cálculos confiáveis mais recentes, 487.000 sérvios ortodoxos e 27.000 ciganos foram massacrados entre 1941 e 1945 no Estado Independente da Croácia. Além disso, cerca de 30.000 de uma população de 45.000 judeus foram mortos: de 20.000 a 25.000 nos campos de extermínio do Ustashe e outros 7.000 deportados para as câmaras de gás. Como foi possível que, apesar do relacionamento de poder autoritário entre o papado e a Igreja local – um relacionamento de poder que Pacelli se empenhara em consolidar - , não houvesse nenhuma tentativa do Vaticano para impedir as matanças, as conversões forçadas, a apropriação de bens ortodoxos? Como foi possível, quando as atrocidades se tornaram do conhecimento de todos no Vaticano, como vamos demonstrar, que Pacelli não dissociasse no mesmo instante a Santa Sé das ações do Ustashe, condenando os criminosos?” (pp. 285-86)

Cumplicidade do clero e do papado com os fascistas, os nazistas, os falangistas (Espanha), o Ustashe (Croácia) mostra um outro lado da pregação de 'amor ao próximo', esvaziada diante das atrocidades. Crimes de guerra dos quais foram acusados os bolcheviques (soviéticos) e os anarquistas, em grande campanha de anti-propaganda do Vaticano. É inegável que os crimes de esquerdistas foram repulsivos, mas os crimes dos direitistas e pró-direitistas (os nacionalistas) foram terríveis , chocantes, mas nunca realmente denunciados e repudiados pelo Papa que se alegava ser o 'apóstolo da paz'.


fonte: CORNWELL, John. O Papa de HitlerA História Secreta de Pio XII.

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Mais info


Invasão da Albânia
07 abril 1939




o Pacto de Aço
22 maio 1939





Operação Valquíria
Atentado de 20 de julho de 1944




sobre as barbáries do Ustashe
(e o envolvimento do clero católico)



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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Retirada do Afrika Korps para a Tunísia




Retirada do Afrika Korps para a Tunísia

janeiro - fevereiro 1943


A Batalha do Passo de Kasserine


As forças anglo-norte-americanas desembarcadas na Argélia e Marrocos haviam penetrado em Tunis entre novembro e decembro de 1942, com a ideia de tomar o norte do país antes que as forças do Eixo conseguissem se estabelecer e antes que Rommel voltasse de sua expedição ao Egito. Depois de fracassar no intento, os Aliados dirigiram seus esforços a tentativa de cortar a retirada até Tunis que o exército alemão se havia obrigado a empreender desde seu desastre na Batalha de El Alamein, empurrado pelo exército britânico de Bernard Montgomery.
Em 23 de janeiro de 1943, o VIII Exército Britânico de Montgomery tomou Trípoli, a capital da Líbia italiana e principal base de suprimentos de Rommel. O marechal alemão já se queixara sobre esta possibilidade e havia estabelecido na cidade de Tunis sua base de suprimentos, com a ideia de usar a Linha Mareth no sudeste do país para bloquear os britânicos. Pelo oeste se encontrava a ameaça dos britânicos e norte-americanos, que em começo de 1943 haviam consolidado suas bases na Argelia e estendido suas forças ao longo da cordilheira de Atlas. Em recentes avanços as tropas aliadas haviam cruzado a cordilheira e estabelecido uma base de operações em Faid, ao pé das montanhas. O que deixou uma excelente posição para empurrar para a costa [do mar Mediterrâneo] as forças de Rommel no sul da Tunísia e cortar sua linha de suprimentos.”
fonte: Wikipedia (esp) (trad.: LdeM)


A retaguarda do Panzerarmee avançou para a Tunísia a 13 de fevereiro, lançando uma linha de pontos avançados para conter o 8º Exército [britânico] em Medenine. Pela área situada ao sul de Gafsa responsabilizou-se o 1º Exército italiano, com seu novo comandante, General Messe, cuja investidura no cargo não se deu imediatamente porque Rommel conseguiu adiar a sua partida. Do AK original restava apenas uma enfraquecida 15ª Divisão Panzer, embora as 90ª e 164ª Divisões alemãs sustentassem a grande quantidade de abaladas formações italianas que enchiam a Linha Mareth.


Ao norte de Gafsa, o 5º Exército Panzer do Coronel-General von Arnim estabilizara sua frente desde Faid, passando por Fondouk e Medjez el Bab, até o mar, perto do cabo Serrat. De acordo com seu temperamento, von Arnim planejava uma operação defensivo-ofensiva contra os americanos entre Faid e Gafsa para obter posições defensivas mais favoráveis. De importância secundária era a destruição de forças na área de Tebessa, embora ele considerasse improvável que suas duas divisões Panzer, a 10ª e 21º (ambas já bem fortes em número de blindados, porque a segunda havia recebido reforços bem rápidos), pudessem cumprir essa missão.


[…]


Arnim conseguiu mais ou menos o que queria e mandou seu representante – General Ziegler – comandar as 10ª e 21ª Panzer no avanço principal contra a 1ª Divisão Blindada dos EUA, através de Faid, até Sbeitla (iniciado a 14 de fevereiro de 1943), enquanto Rommel oferecia o chamado 'Grupo de Assalto Afrika Korps', sob o comando do General Buelowius, para operar contra Gafsa, em direção de Kasserine. Mas esse destacamento era tão fraco (seu elemento de ataque era formado de apenas 26 tanques Mark III e IV, do 8º Regimento Panzer, e de 23 M.13 italianos, da Divisão Centauro), que na realidade não passava de pouco mais de uma guarda de flanco para Ziegler. Mas sua diretiva propunha a exploração até Tebessa, assim que Ziegler pudesse transferir a 21ª Panzer depois de completada sua tarefa inicial. De qualquer modo, teoricamente Rommel havia alcançado a possibilidade de reunificar o Afrika Korps e desfechar profundo golpe estratégico.


Mas, nem Ziegler nem von Arnim conseguiam imitar o grande estilo de Rommel, em que pese à necessidade da obtenção de uma vitória, logo após o desastre de Stalingrado, para recuperar prestígio. Naturalmente, ninguém sequer sonhava pudesse a inexperiência os americanos permitir às duas Divisões Panzer, a 10ª e a 21ª, convergindo de duas direções, envolver a sua 1ª Divisão Blindada e inflingir-lhe derrota. Ao anoitecer do dia 17, dois terços da força americana haviam sido virtualmente eliminados, Ziegler estava às portas de Sbeitla e o 'Grupo de Assalto Afrika Korps', vendo que os americanos haviam recuado de Gafsa na noite do dia 14, partira para Thélepté em febril perseguição.


Esta vitória tática de imediato ofereceu a possibilidade de uma decisão estratégica. Com a força blindada americana destruída e com os blindados britânicos do 1º Exército em processo de renovação com tanques Sherman, só forças esparsas poderiam interferir numa incursão concentrada e profunda na retaguarda, passando por Tebessa, talvez indo bem para o norte, até a importante base de apoio em Bone. Tampouco o 8º Exército britânico podia intervir a tempo, pois o porto de Trípoli não fora totalmente recuperado e as forças leves que estavam em Medenine careciam de efetivos ou de provisões suficientes para uma ofensiva, embora Montgomery tentasse tudo o que podia para simulá-la.


Se os alemães tivessem criado, nesta oportunidade, um comando unificado, o AK, com a 21ª Panzer novamente junto dele – e talvez também com a 10ª Panzer – poderia ter arrastado tudo à sua frente. O fato de não tê-lo feito foi resultado da estreiteza do ponto de vista, em grande parte defensivo, de von Arnim, do confuso trato tático de Ziegler e da falta de consideração por Rommel, da parte do Comando-Supremo. Concentrando-se unicamente na operação original de destruição de forças inimigas, von Arnim disse a Ziegler que destruísse os depósitos Aliados em Sbeitla e depois desfechasse um golpe mais ao norte, por Fondouk – levando a 21ª Panzer para uma luta renhida em Sbeitla e mandando a 10ª Panzer num empreendimento absurdo, pois os Aliados já se haviam retirado de Fondouk.
[…]


O antigo ajudante-de-ordens de Rommel, Tenente Schmidt, certa feita declarou que Rommel não era nem gênio nem super-homem – mas era dotado de grande imaginação e profunda compreensão da capacidade do Afrika Korps. Infelizmente para ele, sua percepção não-convencional e mais ampla assombrava amigos e inimigos, e de Halder a Kesselring e de Wavell a Alexander, todos se viam aturdidos com os golpes de Rommel. […]


Naturalmente, ninguém pode dizer qual tria sido o impacto do plano maior de Rommel, se ele tivesse conseguido o que queria e levado sua velha 21ª Panzer juntamente com o 'Grupo de Assalto Afrika Korps', apoiados pela 10ª Panzer. Possivelmente, o efeito psicológico sobre o exército anglo-americano teria sido decisivo : também é possível que eles se vissem obrigados a recuar para a Argélia – caso em que suas perdas em material seriam enormes.”
pp. 129; 132


fonte: MACKSEY, Kenneth. Afrika Korps - Rommel no deserto. Rio de Janeiro: Renes, 1974.


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