quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Batalha de Stalingrado - combate nas ruínas da cidade




Batalha de Stalingrado - 1942

Combates nas ruínas da cidade


fonte: BEEVOR, Antony. Stalingrado. O Cerco Fatal. Trad. Alda Porto. Record, 2005.

Cap. 9A Cidade Fatídica

Os ataques russos nesse ponto [setembro 1942] talvez tenham sido espantosamente dispendiosos e incompetentes, mas não se podia ter a menor dúvida da ferrenha determinação soviética de defender Stalingrado a qualquer custo. []

Desde a queda de Rostov, qualquer meio de despertar a resistência tornara-se permissível. Uma imagem do Stalinskoe znamia, jornal da Frente de Stalingrado, mostrava em 8 de setembro uma moça assustada com os braços e pernas amarrados. 'E se sua amada for amarrada assim pelos fascistas?', perguntava a legenda. 'Primeiro eles vão estuprá-la insolentemente, depois atirá-la debaixo de um tanque. Avance, guerreiro. Atire no inimigo. O seu dever é impedir que o violador estupre a sua namorada.' Esse tipo de propagandaquase uma repetição do tema do poema 'Mate-o!', de Konstantin Simonovera sem a menor dúvida brutal, mas seu simbolismo refletia intimamente o clima da época. O poema 'Odeio', de Surkov, era igualmente feroz. A violação alemã da Pátria podia ser eliminada com vingança de sangue. [...](nota do autor:Não a a menor dúvida de que a propaganda de 'violação' no final do verão de 1942 contribuiu significativamente para o estupro em massa cometido pela Exército Vermelho em seu avanço dentro de território alemão em fins de 1944 e 1945.) (p. 151)

Na manhã seguinte (12 setembro), o general Chuikov recebeu uma convocação ao novo quartel-general, em Iami, do conselho militar conjunto para as Frentes de Stalingrado e Sudoeste. Ele levou o dia todo e parte da noite para atravessar o Volga e encontrar o local. O brilho dos prédios em chamas em Stalingrado era tão forte que, mesmo na margem oriental do largo rio, não houve a menor necessidade de acender os faróis do seu jipe do Lend-Lease [armamento norte-americano recebido pelos soviéticos].

Quando Chuikov acabou encontrando Ieremenko e Kruchov na manhã seguinte, eles relataram a situação. Os alemães estavam dispostos a tomar a cidade a qualquer preço. Não poderia haver rendição. Não havia nenhum lugar para onde se retirar. Chuikov fora proposto como o novo comandante de exército em Stalingrado.(pp. 153-54)

Naquele estágio, o 62º Exército reduzira-se a uns 20 mil homens. Haviam restado menos de sessenta tanques. Muitos serviam para ponto de fogo imóveis. Chuikov, contudo, tinha cerca de 700 morteiros e canhões, e quis que toda a artilharia mais pesada fosse retirada para a margem oriental. Sua principal preocupação era reduzir o efeito da esmagadora superioridade aérea da Luftwaffe. percebera a relutância das tropas alemãs em envolver-se em combate de muito perto, sobretudo nas horas de escuridão. Para extenuá-los, 'era necessário fazer todo alemão sentir que vivia sob a boca de uma arma russa'. (p. 155)

Embora os alemães fizessem progressos na periferia ocidental da cidade, capturando o pequeno campo de aviação e quartéis, as tentativas de castigar no saliente norte revelaram-se malsucedidas. O combate foi muito mais duro que o esperado. Muitos compreenderam em privado que bem poderiam vir a passar o inverno em Stalingrado.

(...)

A notícia do avanço da 71ª Divisão de Infantaria ao centro de Stalingrado, logo ao norte do Tsaritsa, foi aclamada com arrebatada exultação no quartel-general do Führer. A mesma informação chegou naquela noite ao Kremlin. Stalin discutia a possibilidade de um grande contragolpe estratégico em Stalingrado com Jukov e Vasilevski, quando Poskrebishev, chefe do seu secretariado, entrou para dizer que Ieremenko estava ao telefone. Após falar com ele, Stalin transmitiu a notícia aos dois generais.(p. 157)

A 295 ª Divisão de Infantaria alemã entrou combatendo até a encosta oposta do Mamaev Kurgan, contudo a ameaça mais imediata à sobrevivência de Stalingrado veio justamente pelo sul. 'As duas divisões [71ª e 76ª] conseguiram avançar', dizia um comunicado demasiado otimista, 'com um ataque em cunha, chegando à estação central ao meio-dia, e às 3:15h da tarde, após a apreensão da usina hidrelétrica, chegaram à margem do Volga!' Na verdade, a principal estação mudou de mãos três vezes em duas horas durante a manhã e foi retomada à tarde por um batalhão de fuzileiros do NKVD.(p. 158)


(...) Um batalhão do 42º Regimento da Guarda à esquerda juntou-se às tropas do NKVD e juntos rechaçaram o inimigo até a área em volta da estação principal. O 39º Regimento da Guarda à direita atacou em direção a uma grande fábrica de tijolos vermelhos (conservada furada de balas como memorial até hoje), que desimpediram num implacável corpo-a-corpo com o inimigo. Quando chegou a segunda leva, o regimento reforçado avançou pelo trilho ferroviário que percorria a base do Mamaev Kurgan.

A 13ª Divisão da Guarda de Fuzileiros sofreu 30 por cento de baixas nas primeiras vinte e quatro horas, mas a margem do rio fora salva. Os poucos sobreviventes (apenas 320 homens dos 10 mil originais continuavam vivos ao término da batalha de Stalingrado) juraram que sua determinação 'fluía de Rodimtsev'. Seguindo exemplo dele, também fizeram a promessaNão lugar para nós do outro lado do Volga.(pp. 162-63)

A estação principal, após mudar de mãos quinze vezes em cinco dias, terminou tendo os alemães como ocupantes das ruínas. Rodimtsev, de acordo com a política de Chuikov, ordenou que a linha da frente ficasse sempre a quinze metros dos alemães, para dificultar sua artilharia e a aviação. Os homens de sua divisão sentiam um orgulho especial pela pontaria certeira. 'Cada soldado da Guarda disparava como um franco-atirador com mira telescópica' e por isso 'obrigava os alemães a rastejar, não andar.'

Os soldados alemães, com olhos injetados de exaustão do intenso combate e pranteando mais camaradas do que jamais imaginaram, haviam perdido o estado de espírito triunfalista de apenas uma semana antes. Tudo parecia transtornadamente diferente. Acharam o fogo de artilharia numa cidade muito mais assustador. A própria explosão de granadas não era o único perigo. Sempre que um prédio alto era atingido, estilhaços de granada e caliça caíam em abundância de cima. O Landser [infantaria alemã] começara a perder a noção de tempo naquele mundo alienígena, com sua paisagem destruída de ruínas e escombros, mesmo a luz do meio-dia tinha um tom estranho, fantasmagórico, desprendido da constante cerração de poeira.(p. 169)

Uma renovada tentativa dos três exércitos soviéticos na frente norte para atacar o flanco esquerdo do Sexto Exército malogrou em 18 de setembro. O rápido deslocamento das tropas de esquadrões da Luftwaffe contra a ameaça, combinado com contra-ataques do XIV Corpo de panzers, acabou sendo muito mais eficaz na estepe descampada. Uma segunda tentativa fracassou no dia seguinte. Os três exércitos conseguiram apenas, a grande custo, poupar o 62º Exército de ataque da Luftwaffe por menos de dois dias(pp. 170-71)

Nas ruínas da cidade a Blitzkrieg torna-se Rattenkrieg

Para os exércitos alemão, romeno e russo no flanco sul, a batalha na estepe era em essência igual à Primeira Guerra Mundial, apenas com armas melhores e o ocasional aparecimento de aviões modernos. Para as formações blindadas nos dois flancos, as planícies estorricadas pelo sol, sobre as quais eles haviam atacado como navios de guerra a pleno vapor poucas semanas antes, agora lhes pareciam profundamente deprimentes. A ausência de árvores e montanhas fazia os alemães e austríacos sentirem saudades de casa. As chuvas da rasputitsa originavam condições miseráveis. []

Os combates na própria Stalingrado não poderia ter sido mais diferente. Representava uma nova forma de guerra, concentrada nas ruínas da vida civil. Os detritos de guerratanques destruídos pelo fogo, cápsulas de granadas, instalações elétricas de telégrafo e sinalização e caixas de granadasmisturavam-se com os destroços de casas de famíliacamas de ferro, abajures e utensílios domésticos. []

Os soldados da infantaria alemã detestavam lutar de casa em casa. Consideravam esse combate a tão próxima distância uns dos outros, que violava os limites e as dimensões militares convencionais, desorientador em termos psicológicos. Durante a última fase das batalhas de setembro, os dois lados haviam-se engalfinhado para ocupar uma grande depósito na margem do Volga, perto da boca do Tsaritsa, que tinha quatro andares voltados para o rio e três para a costa. []

Os generais alemães parecem não ter imaginado o que aguardava suas divisões na cidade em ruínas. Perderam as grandes vantagens da Blitzkrieg [guerra relâmpago] e foram em muitos aspectos lançados de volta ás técnicas da Primeira Guerra Mundial, embora seus teóricos militares houvessem afirmado que a guerra de trincheira fora 'uma aberração da arte marcial'. O Sexto Exército [comandado por Von Paulus], por exemplo, viu-se tendo de reagir às táticas soviéticas reinventando 'ataques em cunha', introduzidos em janeiro de 1918: grupos de tropas de assalto de dez homens armados com uma metralhadora, morteiros leves e lança-chamas para desobstruir casamatas, porões e esgotos.

À sua maneira, o combate em Stalingrado foi ainda mais apavorante do que o massacre impessoal em Verdun. O combate à queima-roupa nos prédios em ruínas, casamatas, porões e esgotos foi logo apelidado de 'Rattenkrieg' [guerra dos ratos] pelos soldados alemães. Proporcionava uma intimidade selvagem, estarrecedora para seus generais, que sentiam estar perdendo rapidamente o controle dos acontecimentos. [...](pp. 175-77)


fonte: BEEVOR, Antony. Stalingrado. O Cerco Fatal. Trad. Alda Porto. Record, 2005.


seleção / notas by LdeM



more info


A Batalha de Verdun
(França, fevereirodezembro / 1916)


Oficiais soviéticos: Chuikov / Ieremenko / Kruchov / Rodimtsev




posters de propaganda soviética


a Batalha de Stalingrado na Cultura

poesia


filmes
Stalingrad / 1993

Enemy at the Gates / 2001


fotos de Volgograd atual
monumento em Mamaev Kurgan

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Relações entre Papado e Nazismo - intro





Relações entre Papado e Nazismo


fonte: CORNWELL, John. Papa de Hitler – A História Secreta de Pio XII . (Hitler's Pope: the secret history of Pius XII. 1999) Trad. A . B. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2000


     Inquieto com as acusações da conivência de Eugenio Pacelli, o Papa Pio XII, com o regime hitlerista, o professor e jornalista britânico John Cornwell solicitou aos Arquivos do Vaticano uma série de documentos da época de atuação do secretário e depois Papa, Pacelli no intuito de melhor averiguar as ações e negociações do líder eclesiástico. O propósito de Cornwell, enquanto católico, segundo se explica no Prefácio, era esclarecer os fatos e mostrar a face real (e não preconceituosa) de Pacelli. Mas o estudioso viu num 'choque moral', pois

o material que eu recolhera, assumindo a mais ampla visão da vida de Pacelli, não servia para inocentá-lo; em vez disso, consolidava as acusações. Minha pesquisa, abrangendo a carreira de Pacelli desde o início do século, contava a história de manobras sem precedentes para a conquista do poder papal, que levaram a Igreja católica, em 1933, a uma cumplicidade com as forças mais sinistras de nossa era. Além disso, descobri evidências de que Pacelli num estágio inicial de sua carreira, deixou transparecer uma inegável antipatia contra os judeus; e de que sua diplomacia na Alemanha na década de 1930 resultara na traição das associações políticas católicas que poderiam ter desafiado o regime de Hitler e impedido a Solução Final. Eugenio Pacelli não foi nenhum monstro; seu caso é mais complexo do que isso, mais trágico.” (p. 10)

     Vejamos mais trechos da obra polêmica de Cornwell, que contextualiza o secretário ambicioso no seio do poder papal,

Em 1933, [Eugênio] Pacelli encontrou um acessível parceiro de negociação para sua Concordata do Reich na pessoa de Adolf Hitler. O tratado firmado pelos dois autorizava o papado a impor as novas leis canônicas aos católicos alemães, além de conceder generosos privilégios ao clero e às escolas católicas. Em troca, a Igreja católica na Alemanha, seu partido político com representação parlamentar e suas centenas de associações e jornais abstinham-se 'voluntariamente', seguindo a iniciativa de Pacelli, de qualquer ação social e política. A renúncia à ação política pelo catolicismo alemão em 1933, negociada e imposta pelo Vaticano por Pacelli, com a concordância do papa Pio XI, permitiu que o nazismo pudesse se elevar sem qualquer oposição da mais poderosa comunidade católica do mundo. Foi o contrário do que ocorrera 60 anos antes, quando os católicos alemães combateram e derrotaram as perseguições do Kulturkampf de Bismarck. (ver info) Como o próprio Hitler gabou-se numa reunião ministerial a 14 de julho de 1933, a garantia de não-intervenção de Pacelli deixava o regime livre para resolver a questão judaica. Segundo as atas da reunião, '[Hitler] expressou a opinião de que só se podia considerar isso como uma grande realização. A concordata proporcionava uma oportunidade à Alemanha e criava uma área de confiança bastante significativa na luta em desenvolvimento contra o judaísmo internacional'. A percepção do endosso papal ao nazismo, na Alemanha e no exterior, ajudou a selar o destino da Europa.” p. 18

     O trabalho de Pacelli nos bastidores do Vaticano foi no sentido de unificar poder das lideranças católicas num aumento do poder papal, com o decreto da Infalibilidade, em novo Código de Direito Canônico, que concentrou o poder de modo absolutista, ao contrário do que desejavam os democratas-cristãos (chamados de 'modernistas' por tentarem conciliar catolicismo e democracia, e combatidos pelo Papa Pio X, defensor da ortodoxia tradicionalista) favoráveis a uma distribuição do poder entre os bispos de cada nação. Com a atuação de Pacelli o absolutismo papal, hierárquico e centralizado, onde os bispos eram nomeados, prevaleceu sobre a democracia no catolicismo.

     Pacelli, enquanto secretário, enfrentou as questões religiosas e anticlericalismo na França, articulou uma concordata com os católicos sérvios (que muito desagradou aos líderes do Império Austro-Húngaro). Sobre o acordo que provocou os ânimos de sérvios e ira de austríacos (o que levou a Primeira Grande Guerra em 1914) diz o autor Cornwell,

O que fica patente desse episódio é o impacto potencialmente negativo da diplomacia do Vaticano nas relações culturais e políticas, seu poder de provocar desânimo e insegurança, sua sua intenção de complicar ainda mais e perturbar as crescentes tensões entre os países. A Santa Sé, é mais do que foi evidente, não foi uma mera espectadora espiritual, interessada exclusivamente no bem-estar dos católicos da Sérvia, mas sim uma participante ativa no cenário internacional, com suas próprias ambições e objetivos a longo prazo.” pp. 71-72

      Trabalhando na diplomacia do Vaticano, então com o titulo de Núncio Apostólico, Pacelli se envolveu nas negociações do plano de paz durante a Primeira Grande Guerra no contexto do Império Alemão em decadência, tendo audiências com o próprio Kaiser Wilhelm II. Com o sucesso da atuação na Alemanha, segundo Cornwell (“Pacelli viajou incansável por toda a Alemanha durante os últimos 12 meses de guerra, levando alimentos e roupas para os famintos 'de todas as religiões', em nome da Santa Sé.” (p. 83), no contexto do colapso do Império e as tentativas de governos comunistas (ver a República Soviética da Baviera, proclamada em Munique), Pacelli recebeu aprovação do Vaticano, uma Nunciatura na Prússia, durante a nova República de Weimar (erguida nas cinzas do Reich) a subir na carreira, de concordata em concordata, sendo Cardeal Secretário de Estado (em 1929) e Camerlengo no pontificado de Pio XI (em 1935). Lembrar que, em 1929, é assinado o Tratado de Latrão entre a Santa Sé e o governo fascista italiano de Benito Musssolini.

     Em toda a sua carreira Pacelli mostrava suspeita (quando não menosprezo) pelos judeus, ora ligados ao bolchevismo ora a usura capitalista. Para o Núncio a atuação dos judeus era sempre no sentido de destruir a 'civilização cristã', daí o apoio judaico à bolchevização do mundo. (Era a mesma 'ambiguidade' dos nazistas ao ligarem os judeus ora ao comunismo ora ao capitalismo, mas sempre na condição de inimigos). Principalmente, Pacelli foi responsável pela neutralização do Partido do Centro – democrata-cristão –, em participação no governo junto com social-democratas, o que mostra o quanto atuava independente do Vaticano.

A aquiescência do povo alemão diante do nazismo não pode ser compreendida em sua totalidade sem se levar em consideração o longo caminho iniciado em 1920, para a Concordata do Reich, de 1933, o papel fundamental de Pacelli e os motivos de Hitler para assiná-lo. As negociações foram conduzidas exclusivamente por Pacelli, em nome do papa, por cima das cabeças dos fiéis, do clero e dos bispos alemães. (quando Hitler se tornou o parceiro de Pacelli nas negociações, a concordata passou a ser o supremo ato de dois autoritários, enquanto os supostos beneficiados saíam enfraquecidos e neutralizados.)” p. 98

e

Treze anos depois [1933], um homem, Adolf Hitler, haveria de se interpor entre Pacelli e seu sonho de uma superconcordata, que imporia a plena força da lei canônica a todos os católicos da Alemanha. Antecipando essa negociação final, a principal condição imposta por Hitler em 1933 foi nada menos que o afastamento voluntário dos católicos alemães da ação social e política como católicos, inclusive a dispersão voluntária do Partido do Centro, que àquela altura era o único partido democrático viável que ainda sobrevivia no país. Essa abdicação do catolicismo político seria implementada pelo próprio Pacelli (que já se tornara então cardeal-secretário de Estado no Vaticano), usando os consideráveis poderes de persuasão à sua disposição.” p. 99


     Era clara a preocupação de Hitler com a atuação política do catolicismo alemão, “Adolf Hitler reconheceu logo num estágio inicial o potencial para a resistência católica ao nacional-socialismo. Em Mein Kampf, ele escreveu que uma confrontação com a Igreja católica na Alemanha seria desastrosa. Durante seus dias de vagabundo em Viena, recordou ele, ponderara sobre as consequências inúteis da Kulturkampf e concluíra sobre a importância de traçar uma distinção rigorosa entre o catolicismo político e o catolicismo religioso. […] numa circular do partido [NSDAP] distribuída em 1927, ele determinou que todas as declarações sobre religião estavam proibidas por razões táticas.” (p. 121)

     Pois Hitler sabia que os ideais nazistas estavam em clamoroso contraste com o cristianismo – contraste este que as igrejas cristãs só perceberam mais tarde. Mitologia pagã, eugenia, guerra total, extermínio de populações inteiras, como tudo isso poderia ser realizado por um povo cristão? Muitos líderes cristãos resistiram ao nazismo quando perceberam que este não era um 'refúgio' contra o ateísmo bolchevique. (Os bolcheviques, desde o princípio, haviam se declarado contra as religiões institucionalizadas, que alimentavam a alienação das massas populares.) Mas Hitler pregava o amor ao próximo e a tolerância? Ao contrário: proclamava guerra e perseguição política e racial.

     Em outro momento continuaremos com esta exposição sobre as relações entre o Papa Pio XII e o Führer, entre o poder papal e o poder nazi-facista.


fonte: CORNWELL, John. Papa de Hitler – A História Secreta de Pio XII . (Hitler's Pope: the secret history of Pius XII. 1999) Trad. A . B. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2000


seleção / comentários by Leonardo de Magalhaens




more info

Tratado de Latrão (1929)

a concordata com os nazistas
(atualmente ainda válida)




sobre a peça teatral “O Representante” ou
O Vigário” (Der Stellvertreter, 1963)
do alemão Rolf Hochhuth (1931-)




filme baseado na peça:
movie “Amen” / 2002

sobre a Kulturkampf na era de Bismarck


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Vida na Frente Interna - EUA 1942-43



Estados Unidos 1942-43


A Vida na Frente Interna


A II guerra Mundial malbaratou vidas e riquezas humanas numa escala prodigiosa. Os custos da guerra para os Estados Unidos não foram grandes em comparação com os de países que sofreram a luta em seu próprio solo, mas foram terríveis por qualquer outro padrão. Cerca de 322.000 americanos foram mortos, 800.000 feridos ou desaparecidos em combate; 288 bilhões de dólares tinham sido gastos na guerra até 1945 e os custos finais foram calculados pelo Governo em 644 bilhões. Um incalculável tesouro em recursos – metais escassos, petróleo, carvão, produtos químicos, reservas florestais, fertilidade do solo – fora espalhado de uma ponta à outra da Europa ou jazia disperso no fundo dos mares. Em virtude desses custos e de um futuro incerto em que a derrota militar era uma clara possibilidade, o estado de espírito americano durante a guerra incluía elementos de angústia e melancolia que lembravam 1932. os americanos pretendiam ganhar a guerra, mas não alimentavam as esperanças utópicas, a exaltação e a confiança jactanciosa de 1917-1918. embora o perigo de ataque inimigo ao continente americano diminuísse, depois dos alarmas costeiros do começo de 1942, muito do que teve de ser suportado na frente interna era deveras desagradável. O racionamento começou em 1942, quando o açúcar, depois o café, depois a carne, os enlatados e os sapatos se converteram em artigos de luxo. Borracha e gasolina foram racionadas em 1943, obrigando as pessoas a abandonar uma de suas principais fontes de prazer e diversão: o passeio de automóvel à noite ou aos domingos. Com 12 milhões de homens afastados de seus lares pelo serviço nas Forças Armadas, casais jovens foram separados e noivos tiveram de adiar o casamento. A guerra desintegrou a vida familiar, não só através de mortos e prolongadas separações para serviço no ultramar, mas também por ter atraído as mães para a força de trabalho, muitas vezes nos congestionados e estranhos ambientes dos novos centros da indústria bélica, com Mobile, Norfolk, San Diego e Detroit. Era corrente ver crianças em idade pré-escolar perambulando ociosas durante horas, muitas vezes metidas em cinemas, enquanto as mães trabalhavam. A delinquência juvenil iniciou seu constante recrudescimento a partir dos anos da guerra. […]

O estado de ânimo angustiado e taciturno apropriado a uma época de perigo e sacrifício era compensado por um novo dinamismo, na medida em que todas as energias da nação, sufocadas desde 1929 pelas misteriosas forças da Depressão, foram mobilizadas num grande esforço nacional. De súbito havia empregos de novo, empregos não apenas para os jovens , mas oportunidades para as pessoas mais velhas, os negros, as mulheres, os cegos e até ex-presidiários ganharem dinheiro. Sete milhões de desempregados, assim como quase quatro milhões de jovens que nunca tinham trabalhado; encontraram emprego na indústria da guerra. A palavra de oportunidade econômica percorria o país, atingindo a mais remotas áreas rurais e montanhosas. As pessoas puseram-se em marcha, 27 milhões em quatro anos, apanhando trens e ônibus em busca de trabalho permanente. Trinta e cinco Estados perderam população durante a guerra, ao passo que treze conheceram um crescimento populacional desordenado e tumultuoso. […]

Assim, a guerra trouxe emprego para gente que procurava desesperadamente uma oportunidade de trabalho e, na realidade, produziu um padrão de vida mais alto do que na década de 1930, apesar do desvio de recursos para fins militares. Economicamente, a América era um lugar próspero e dinâmico nos anos seguintes a Pearl Harbor e, embora o florescente quadro apresentado por empregos e lucros não pudesse superar inteiramente a melancolia causada pelas listas de baixas e o perigo nacional iminente, o certo é que projetou na voragem da cultura de guerra uma certa influência otimista e eufórica. […] Era um tempo sério para os Estados Unidos e um tempo de horizontes e prazeres em expansão. Apesar da sombria presença do perigo militar, os anos de guerra são talvez recordados mais agradavelmente pelo povo americano do que os anos de vacas magras da Depressão.”

pp. 461-63


fonte: GRAHAM Jr, Ottis L. Anos de Crise. In: O Século Inacabado. The Unfinished Century. America since 1900, 1976.


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Documentários
sérieWhy We Fight(Por que Nós lutamos)
(Office of War Information)

'War comes to America'

Us Army na França

fotos


seleção: LdeM