quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Afrika Korps - conflito no norte da África - 1941





Afrika Korps


Conflito no Norte da África


Outubro / Novembro 1941


fonte: LEWIN, Ronald. Churchill – O Lorde da Guerra.
(trad. Cel. Álvaro Galvão) RJ : Biblioteca do Exército, 1979.

            Enquanto o líder alemão Hitler se preocupa com as batalhas nas estepes da Rússia, o líder britânico Churchill está atento aos movimentos de avanço e recuo nas areias escaldantes do norte da África, onde os exércitos aliados (britânicos, australianos, franceses livres, poloneses, etc) enfrentavam as forças do Eixo – italianos e alemães, tendo o Afrika Korps de Rommel na vanguarda,


“Wavell enganou-se totalmente a respeito da potencialidade de Rommel. O mesmo ocorreu com Hitler. Em face dos dados disponíveis e levando em conta as dificuldades logísticas, Wavell estimou que, na África, o Eixo não tinha nem o poder, nem a capacidade para desencadear e manter uma progressão para leste. 'Não acho', escreveu, 'que ele tentará reconquistar Bengazi com o efetivo de que dispõe'. Nem era esta a intenção do Fueher. Foi Rommel quem percebeu a fraqueza da Força do Deserto Ocidental e foi a habilidade imprevisível de Rommel para manobrar no deserto que, já por volta de 11 de abril, empurrou os ingleses de volta para a fronteira do Egito e cercou uma pequena guarnição em Tobruk. Rommel foi franco ao se referir ao que estava fazendo. 'Os nossos superiores em Tripoli, Roma e talvez Berlim vão ficar aflitos', escreveu no dia 3 de abril. 'Arrisquei, contrariando todas as ordens e instruções, porque a oportunidade parecia favorável...'

Todavia, entre o princípio de abril e meados de junho, quando a situação no deserto estabilizou-se temporariamente, depois do fracasso da operação Battleaxe de Wavell, era Churchill quem continuava aflito – não porque seus comandantes estivessem atacando e sim porque, na opinião do Primeiro-Ministro, não estavam sendo suficientemente agressivos. Churchill diagnosticou três necessidades: cortar os suprimentos de Rommel, reforçar Wavell com blindados e, então, destruir o Eixo na África do Norte. Por entre todas as suas outras preocupações – a blitz [o bombardeio de Londres e outras cidades inglesas], o Atlântico, a desintegração dos Balcãs – Churchill ergueu-se com a energia violenta de um animal ferido; com uma raiva tão feroz que, por vezes, cegava- o para a realidade dos fatos. Ele sempre se limitara a exprobar seus comandantes que não se aproximavam da frente e assumiam a direção da luta; agora, ele próprio comandaria. Ele percebeu que tudo dependia de uma concentração implacável do esforço no ponto chave: o deserto. […]


Todavia, Churchill não podia assumir o comando na linha de frente, e o que era óbvio para ele na sala de operações em Whitehall poderia parecer totalmente diferente para o comandante no campo de batalha. Portanto, no seu primeiro livro, Churchill estava redondamente errado. Rommel só poderia sobreviver se recebesse suprimentos. Haveria alguma coisa mais lógica do que negar-lhe a utilização do porto de Trípoli?

pp. 91-92; 93


            A Ofensiva britânica em junho 1941 tem por codinome Operação Battleaxe (ou 'Machado de Guerra', ou ainda, 'Acha de Arma') comandada por Sir Archibald Wavell, com grande acúmulo de tropas e material, mas sem prever os passos de Rommel, revelou-se um fracasso da ofensiva aliada, ainda que aliviando momentaneamente o Cerco de Tobruk – abril – nov 1941

            Churchill mais do que frustrado, irado, ordena a substituição do comandante. Sai Sir Wavell e entra Claude Auchinleck – que antes substituíra Wavell na Índia em 1940.


            Mais detalhes sobre a Operação Battleaxe, na série Segunda Guerra Mundial, da Ed. Codex, 1965.


“Os preparativos da ação tiveram que ser realizados em poucos dias. O General Creagh, chefe da 7a Divisão, recebeu a 29 de maio a ordem de manter a prontidão de suas forças para iniciar o ataque a 10 de junho. A seu pedido, a data foi transferida para 15 de junho. Surgiram, aliás, graves inconvenientes com os novos tanques Crusader que, depois de percorrer poucos quilômetros, sofriam uma série de desarranjos mecânicos. O ataque apresentou assim, desde o início, perspectivas sumamente desfavoráveis.
Rommel, nesse meio tempo, já estava a par da iminente ofensiva, pois seus aviões de reconhecimento haviam descoberto a concentração crescente de forças britânicas na fronteira. Distribuiu, então, suas forças blindadas, em profundidade, para fazer frente ao ataque. A 15a Divisão Panzer colocou-se na retaguarda do desfiladeiro de Halfaya, e a 5a Divisão leve manteve-se ao sul de Tobruk para atuar como reserva. Na noite de 14 de junho foi dado o alarma às unidades alemães e italianas.
Às 4 da manhã do dia seguinte, os britânicos iniciaram a sua ofensiva. A operação Battleaxe estava em marcha. Os ataques britânicos no desfiladeiro de Halfaya esfacelaram-se contra a denodada resistência das tropas alemães e italianas, comandadas pelo Capitão da reserva Bach. Entrincheirados nos agrestes contrafortes, os homens de Bach abriram um fogo mortífero com suas metralhadoras e peças de artilharia sobre as colunas dos infantes hindus e britânicos, e conseguiram, também, destruir numerosos tanques e veículos blindados. O fracasso dos ingleses em Halfaya decidiu o curso da batalha, pois permitiu a Rommel concentrar a totalidade de suas forças blindadas, e lançá-las num movimento envolvente sobre o flanco da 7a Divisão blindada que havia conseguido avançar profundamente para o norte. Sustentando violentos combates, no transcurso dos quais perderam numerosos tanques, os ingleses se retiraram aceleradamente, e escaparam à armadilha. A 18 de junho, a luta chegou ao fim com a derrota total das forças de Wavell.

O fracasso da ofensiva na qual Churchill havia depositado tantas esperanças não alterou sua resolução de obter, a curto prazo, a destruição das forças de Rommel. No dia 21 de junho enviou uma mensagem a Wavell comunicando que havia resolvido substituí-lo no comando pelo General Sir Claude Auchinleck, nesse momento comandante-em-chefe das forças britânicas na Índia. Ao novo chefe, Churchill determinou preparar sem demora a ofensiva decisiva contra as forças do Eixo.”

                                           Fonte: Segunda Guerra Mundial. Ed. Codex.



            Mas qual foi exatamente a 'vitória' das tropas de Rommel? Qual o resultado para a imagem guerreira do general alemão apelidado “Raposa do Deserto”? Vejamos a versão de Kenneth Macksey (Renes, 1974)

“Recuando de Capuzzo e descendo a escarpa, vieram os veículos e a infantaria da 4ª Divisão Indiana, enquanto a 15ª Panzer e a 5 ª Ligeira tentavam romper a tenaz resistência do punhado de tanques Matilda. Porém, uma vez mais a poderosa blindagem dos tanques britânicos manteve os Panzer a distância e a habilidade dos seus chefes subalternos superou a dos adversários alemães quando estes ficaram sem o apoio dos seus canhões de 88 mm. As forças combateram durante seis, às vezes chegando à distância de tiro a queima-roupa e com os alemães presos aos flancos britânicos mas sem os obrigar a se desviarem e envolvê-los numa armadilha.

Parece impossível que Rommel soubesse dessa reserva por parte dos seus regimentos Panzer, pois quando eles chegaram a Halfaya, no final da tarde, Rommel acreditava que o grosso dos britânicos estava detido nas armadilhas do norte, perto de Capuzzo, e não a salvo no Egito, ao sul. Não obstante, o AK obtivera uma vitória decisiva – 25 dos seus tanques totalmente destruídos contra 87 britânicos (muitos apenas enguiçados) é apenas um pingo do total.

Na verdade, a 'Operação Acha-de-Arma' marcou um momento decisivo na Guerra do Deserto: aliás, ela precedeu o ponto fundamental de toda a guerra – a invasão alemã da Rússia, a 22 de junho – em menos de uma semana. Mas no contexto local, o AK fez muito mais do que derrotar outra força britânica – ele deu à luz o que sempre estivera em gestação, a lenda da invencibilidade de Rommel galvanizada no espírito dos soldados britânicos, cujas convicções se confirmaram quando Wavell, Beresford-Peirse e o comandante da 7 ª Divisão Blindada foram destituídos dos seus postos, assim que terminada a batalha. Depois da 'Operação Acha-de-Armas', tanto britânicos quanto germânicos passaram a ter grande respeito pelo comandante alemão, e, embora o Afrika Korps praticamente não se considerasse superior em equipamento aos britânicos (o tratamento que os Matilda lhe dispensaram deixava isso claro), ele sabia ter um trunfo em Rommel, cuja pessoa passara a valer mais que uma divisão.”

pp. 38-39


Fonte: MACKSEY, Kenneth. Afrika Korps – Rommel no deserto . (trad. N. Japour) Rio de Janeiro: Renes, 1974





mais info


sobre Wavell, Auchinleck, Cunningham






            Em novembro,  outra ofensiva aliada – Operação Crusader - com o 8º Exército sob comando do Gal. A . Cunningham, que alcança uma relativa vitória aliada, com a retirada das tropas alemãs e italianas para posições na retaguarda. (Contudo, veremos, em janeiro de 1942, Rommel ataca de novo)



“Os dois Exércitos do Deserto dedicaram-se inteiramente à reorganização durante os meses de verão e outono. O General Auchinleck substituiu Wavell no comando, e a Força Britânica do Deserto Ocidental (ou XIII Corpo, como passara a ser recentemente chamada) transformou-se no 8º Exército, sob o comando do General Cunningham, compreendendo dois Corpos – XIII e XXX. Grandes carregamentos de homens e materiais chegaram à base de Suez, transportados pela longa rota em torno do Cabo da Boa Esperança, vindos da Grâ-Bretanha e dos Estados Unidos. O moral britânico elevou-se diante deste demonstração de boa vontade e apoio total. Rommel não recebeu nenhum reforço considerável nem qualquer encorajamento do seu Alto-Comando, que tinha a atenção voltada para as batalhas da Rússia e porque não queria mexer em casa de marimbondos na África – cujo território não tinha lá muita significação para ele.”

...

“Como as forças blindadas dominavam no deserto, mesmo quando canhões antitanques  venciam os tanques adversários e causavam mais baixas do que os combates entre tanques, a presença de forças blindadas no deserto assumia importância semelhante a de uma frota naval ancorada, ou em alto-mar: a ameaça latente e a imprevisibilidade do 'quando' e do 'onde' poderiam desfechar seu ataque. O objetivo de uma batalha de blindados podia depender da capacidade dos adversários de preservar a existência dos seus blindados e, neste aspecto, a manutenção, recuperação e reparo de máquinas enguiçadas assumiam importância fundamental. Ao contrário da vitória no mar, onde os derrotados podiam ser postos a pique sem deixar vestígios, a vitória em terra deixava o campo de batalha nas mãos dos vencedores, dando-lhe a opção de recuperar seu próprio equipamento atingido e de destruir ou levar consigo o do inimigo. Isto assumiu uma importância até então desconhecida, pois como as perdas por enguiço provocavam quedas em efetivos de tanques quase iguais às causadas pela destruição por ação inimiga, a ocupação do campo de batalha imediatamente após a ação, pelos serviços de recuperação, se tornava um ponto tático importante. E os alemães eram superiores aos britânicos nesse tipo de atividade.


“Reduzida aos seus mínimos essenciais, a moderna guerra motorizada pode ter um ou dois objetivos reunidos num grande plano, se o conhecimento e a imaginação se combinam no ápice de comando. Pode haver uma batalha de atrito, homem vencendo homem e máquina destruindo máquina, até que o mais forte sobreviva para ver um campo de batalha coalhado de destroços – ou pode haver um ataque contra o cérebro ou o coração inimigo, que paralisa qualquer ação ulterior. Os teóricos anseiam pelo segundo – os pragmáticos tendem para o primeiro, mas aceitam como prêmio tudo o que se possa obter por um golpe psicológico.”

pp. 43-44


Fonte: MACKSEY, Kenneth. Afrika Korps – Rommel no deserto . Rio de Janeiro: Renes, 1974



images do Afrika Korps



videos


Homenagem ao General Rommel

Cerco de Tobruk
(propaganda nazista)

video (italiano)


filmes

 Tobruk (1967)

Tobruk (2008)


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ucrânia / Drang nach Osten - 1941 - testemunho



Ucrânia 1941

a realidade cruel do Drang nach Osten
(avanço para o leste)


trechos de “Kaputt” / 1944
de Curzio Malaparte

trad. de Mário e Celestino da Silva (1966)



cap.2 (patriacavalo)


“A noite já descia, os disparos de fuzil dos guerrilheiros esburacavam a imensa bandeira vermelha do por do sol, que tremulava ao vento poeirento, no fundo do horizonte. Eu já chegara a poucas milhas de Neimirowskoie, perto de Balta, na Ucrânia. Era o verão de 1941. queria alcançar Neimirowskoie para ali passar a noite em segurança. Mas já escurecera e preferi deter-me numa aldeia abandonada, no fundo de um dos vales que cortam de norte a sul a imensa planície entre o Dniester e o Dnieper.


A aldeia chamava-se Alexandrovka. Na Rússia, todas as aldeias se parecem, até no nome. Há muitas aldeias que têm  o nome de Alexandrovka, na região de Balta. Há uma a oeste de Balta, a cerca de onze milhas. Há outra a oeste de Gederimova, na estrada para Odessa, onde passa a estrada de ferro elétrica; outra ainda a cerca de nove milhas ao norte de Gederimova. Aquela onde eu me detivera para passar a noite estava perto de Nmirowskoie, na margem do rio Kodima.


Deixara o automóvel, um velho Ford, na beira da estrada, junto à cerca que rodeava a horta de uma casa de aspecto decente. Perto da cancela de madeira que havia na cerca, estava estendido um cadáver de cavalo. […]


Eu tinha ainda um pouco de pão e de queijo no meu saco de provisões e pus-me a comer, andando de um para outro lado do quarto. Tirara as botas e caminhava descalço pelo chão de terra socada, percorrido por colunas de grandes formigas pretas. Sentia as formigas treparem-me pelos pés, enfiarem-se entre os dedos, subirem para explorar os tornozelos. Estava morto de cansaço, não conseguia sequer mastigar, a tal ponto a fadiga me tornara pesados os maxilares e doloridos os dentes. Atirei-me por fim na cama, fechei os olhos, e não conseguia adormecer. De vez em quando algum tiro de fuzil, perto ou longe, perturbava a noite: eram os tiros dos guerrilheiros, escondidos nos trigais e nas selvas de girassóis que cobrem toda a imensa planície ucraniana, na direção de Kiev, na direção de Odessa. E à medida que a noite se adensava, um cheiro de carne podre se dissolvia no cheiro da grama e dos girassóis. Não podia dormir. Estava estendido na cama com os olhos fechados, e não conseguia adormecer, tanto a fadiga me doía nos ossos.” pp. 26-27


“Pus-me outra vez a caminho, e após longo trecho de estrada parei para comer um pouco do meu pão seco e do meu queijo numa aldeia abandonada. O fogo destruíra grande parte das casas. O canhão troava à minha retaguarda, na direção sudoeste. Bem à minha retaguarda. Na fachada de uma casa, via-se pintado um grande emblema, com a foice e o martelo. Entrei, era a sede de uma repartição soviética. Um enorme retrato de Stalin estava grudado numa parede. Algum soldado romeno escrevera a lápis debaixo do retrato: aiurea!, que significa 'qual nada!' Stalin estava representado em pé sobre uma elevação de terreno, contra um fundo de tanques e de chaminés, debaixo de um céu sulcado por milhares de aviões. À direita, no meio de uma nuvem vermelha, erguia-se imensa uma usina metalúrgica, um amontoado de guindastes, de pontes de aço, de altos fornos, de grandes rodas dentadas. E na parte inferior havia impresso, em grandes letras: 'A indústria pesada da URSS prepara as armas para o Exército Vermelho'. Debaixo dessa legenda via-se escrito a lápis, em romeno: aiurea!

[…]

Pensava nos tártaros do exército vermelho, que são os melhores operários mecânicos da URSS, as melhores vanguardas do trabalho, os melhores udarniki e stakhanowtzi, os elementos de primeira linha das 'tropas de choque' da indústria pesada soviética. Pensava nos tártaros do exército vermelho, que são os melhores motoristas de tanques, os melhores mecânicos das divisões couraçadas e da aviação. Pensava nos jovens tártaros que os três planos quinquenais transformaram de cavaleiros em operários mecânicos, de pastores de cavalos em udarniki das usinas metalúrgicas de Stalingrado, de Carcov [Kharkov], de Magnitogorsk. Aiurea!, que significa 'qual nada!', estava escrito em romeno, a lápis, debaixo do retrato de Stalin.

Fora decerto algum camponês romeno quem escrevera aiurea!, algum pobre camponês romeno que nunca vira uma máquina de perto, que nunca tocara numa porca, nem desapertara um parafuso, nem desmontara um motor. Algum pobre camponês romeno que o marechal Antonescu, o 'cão vermelho', como lhe chamavam os seus oficiais, metera à força naquela guerra de camponeses contra o imenso exército mecânico da URSS.” pp. 32-33



Cap.4 (Polônia)


Malaparte relata mais sobre a mecanização soviética na Ucrânia


“[...] Encontrava-me na aldeia de Pettschianka, na ucrânia, no verão de 1914 e certa manhã fui visitar um grande 'kolkhoz' nos arredores da aldeia, o Kolkhoz Vorochilov. Os russos haviam abandonado Pettschianka apenas dois dias antes. Era o maior e o mais rico dentre todos os 'kolkhozes' que eu vira até então. Tudo fora deixado em perfeita ordem mas os estábulos estavam vazios, as cocheiras desertas. Nos celeiros não havia um só grão de trigo, nos palheiros nem um só fio de feno. Um cavalo caminhava mancando no pátio: era um velho cavalo, cego e coxo.


No fundo do pátio, debaixo de um comprido alpendre, estavam alinhadas centenas de máquinas agrícolas, a maior parte de fabricação soviética, muitas húngaras, outras italianas, outras ainda alemãs, suecas, americanas. Os russos, ao se retirarem, não incendiavam os 'kolkhozes', não ateavam fogo às searas maduras e às selvas de girassóis, não destruíam a maquinaria agrícola: levavam os tratores, os cavalos, o gado, as forragens, os sacos de trigo e de sementes de girassol ! Nas máquinas agrícolas não tocavam nem nos trilhadores: deixavam-nos intatos. Contentavam-se em levar os tratores. Um operário de macacão azul estava lubrificando um grande trilhador, curvado sobre as rodas e as engrenagens. Eu me detivera no meio do pátio e ficara de longe a vê-lo trabalhar. Lubrificava as suas máquinas, continuava a exercer o seu ofício, como se a guerra estivesse longe, como se a guerra não tivesse sequer roçado a aldeia de Pettschianka. Depois de alguns dias de chuva saíra o sol, o ar estava tépido, as poças de água lamacenta espelhavam um pálido céu azul, percorrido por neves brancas.”

pp. 62-63



fonte:

MALAPARTE, Curzio. Kaputt. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.


seleção: LdeM



mais sobre a obra


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Mais sobre o Gueto de Varsóvia




Mais sobre o Gueto de Varsóvia


Fonte: BAUMAN, Janina. “Inverno na Manhã” (2005)
Trad. Carlos Alberto Medeiros


4.Os muros se fecham sobre nós

(22 de julho 1942)


“O número de deportados era em média de 5.000 a 7.000 por dia, por vezes atingindo 13.000 ...

Algumas das vítimas, resignadas com seu destino em consequência da inanição, se apresentavam voluntariamente à Umschlagplatz (*), atraídas pela visão da comida que os alemães ofereciam aos voluntários e pela promessa de que sua transferência para ‘o Leste’ significaria poderem viver e trabalhar em liberdade...

No princípio, os alemães isentaram da deportação os empregados das fábricas do gueto, os membros do Judenrat (**) e da polícia judaica, e os funcionários do hospital, assim como suas famílias. Milhares de judeus faziam esforços desesperados para obterem esses certificados de emprego. Com o passar do tempo, essas categorias ‘seguras’ também foram submetidas à deportação...

O número de vítimas, incluindo os que foram mortos no gueto e os deportados para Treblinka, chegou a um total aproximado de 300.000 dos 370.000 habitantes do gueto antes de julho de 1942 ...

Essa ampla Aktion durou de 22 de julho a 3 de setembro de 1942 ...


Encyclopaedia Judaica, Vol. 16


(*)Os nazistas transformaram o armazém da estação da rua Stawki, em Varsóvia, num local de reunião durante a deportação em massa. As vítimas eram levadas para lá e mantidas num pátio rodeado por cercas altas e amontoadas num prédio abandonado até que chegassem os carros de transporte para leva-las embora. O armazém era vigiado por contingentes da SS, por tropas de apoio e pela Polícia Judaica.

(**)O Conselho Judaico foi estabelecido durante a ocupação alemão, por ordem dos nazistas, como uma extensão de seu congênere de antes da guerra. Devia cuidar da comunidade do gueto e executar as ordens das autoridades alemãs.



“Em seguida às deportações, a área do gueto foi uma vez mais drasticamente reduzida, e algumas fábricas e vários blocos de prédios ficaram do lado de fora dos novos muros cercados por arame farpado para evitar que alguém pudesse encontrar abrigo ali. Os alemães também fixaram em 35.000 pessoas o número máximo de habitantes com permissão de permanecerem no gueto... Os líderes do movimento clandestino avaliaram a nova situação. No primeiro encontro, decidiram criar a Organização da Luta Judaica e empreender ações de resistência a novas deportações. Alguns membros do movimento tinham conseguido escapar de Treblinka e trazido ap gueto informações sobre o verdadeiro destino dos deportados, ou seja, a aniquilação física...

Algo entre 30.000 e 50.000 judeus, na maioria trabalhadores das fábricas e suas famílias, permaneceram legalmente no gueto, empregados dentro ou fora dele... Além destes havia de 20.000 a 30.000 judeus vivendo no gueto ‘ilegalmente’ ...

Nesse período, faziam-se intensos preparativos para a resistência armada ...”


Encyclopaedia Judaica, vol. 16



“A segunda leva de deportação começou a 18 de janeiro de 1943, quando os nazistas irromperam no gueto, cercaram inúmeros prédios, mataram os pacientes e deportaram os funcionários. Muitos operários que trabalhavam fora do gueto foram incluídos entre os deportados. As organizações clandestinas, insuficientemente equipadas e mal-preparadas, ainda assim ofereceram resistência armada, que redundou em quatro dias de luta nas ruas...

Em conseqüência, a segunda leva de deportações foi suspensa após quatro dias, durante os quais os alemães só conseguiram enviar 6.000 pessoas pra Treblinka. Cerca de outras 1.000 foram mortas no próprio gueto.”



Encyclopaedia Judaica, vol. 16



5.Fora dos muros

PROCLAMAÇÃO (*)

Pena de Morte por ajudar judeus que saíram de áreas
residenciais judaicas sem autorização


Numerosos judeus deixaram recentemente sem permissão as áreas de residência que lhes foram designadas. Neste momento eles ainda estão no distrito de Varsóvia.

Declaro pelo presente que, de acordo com o terceiro decreto do Governador-Geral, referente às restrições residenciais no Governo-Geral, de 15 de outubro de 1941 (UBL GS, p. 595), na apenas os judeus que abandonaram dessa maneira as áreas residenciais a eles designadas serão punidos com a morte, mas a mesma punição será imposta a qualquer pessoa que abrigue tais judeus. Isso não inclui somente fornecer abrigo e comida, mas qualquer outra forma de ajuda, e.g., transportar judeus em qualquer tipo de veículo, comprar bens de judeus etc.

Pelo presente instruo a população do Distrito de Varsóvia a informar imediatamente a delegacia ou comando policial mais próximo sobre qualquer judeu que permaneça fora da área residencial judaica sem autorização ...


                                                             Varsóvia, 6 de setembro de 1942
                                                                    CHEFE DA SS E DA POLÍCIA
                                                                                     Distrito de Varsóvia


(*)Proclamação do Chefe da SS e da Polícia, cit. Por Josef Banas, The scapegoats, traduzido por Tadeusz Szafar. Londres, Weidenfeld & Nicolson, 1979.



Fonte:
BAUMAN, Janina. Inverno na Manhã – Uma Jovem no Gueto de Varsóvia.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar D., 2005. pp. 79, 97, 110, 115

Mais info


video sobre a Conferência de Wannsee (1942)

HBO filme

BBC Final Solution

filme alemão (Wannseekonferenz)


Campos de Concentração / Extermínio
videos

sobre Auschwitz


O fim dos ghettos


A Burocracia do Extermínio:

Eichmann in Israel - julgamento

mais sobre Adolf Eichmann

Eichmann (movie 2007)

trecho do interrogatório
sobre o livro Eichmann Interrogated


Videos de Revisionistas

Judgement at Nuremberg (movie, 1961)

mais sobre os Julgamentos de Nuremberg
(documentário russo)


filmes
 O Pianista

O Menino do Pijama Listrado

Rosenstrasse (movie, 2003)

Ghetto (movie, 2006)

Uprising (movie, 2001)
(o Levante do Ghetto de Varsóvia)



livros

A Indústria do Holocausto
(Norman Finkelstein)


videos



Mais Revisionismo






LdeM

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Outubro na Ucrânia - 1941



4º mês da Operação Barbarossa -
Dificuldades no avanço alemão


No mês de outubro de 1941 começam a surgir os primeiros atrasos no avanço das tropas da Wehrmacht. Primeiramente, devido as grandes extensões, as péssimas condições de estradas e terrenos. Também devido as ações esparsas de grupos resistentes, os guerrilheiros russos que agiam ora por fanatismo partidário ou por nacionalismo eslavo.


Para complicar tudo para os invasores alemães havia ainda as ordens desencontradas entre o quartel de Hitler e os altos oficiais – pois havia sérias discordâncias entre os nazistas (os fanáticos SS) e os generais (profissionais prussianos) quanto tratamento dos prisioneiros e violências contra as populações russas.



Trechos da obra Outubro na Ucrânia

(“Fleuve Noir” ou “Octobre em Ukraine – Drang nach Osten”)

de Mark J. Trennery (Stephane Jourat, 1924-95, autor belga)


“-Insensato! Impossível! - gritou o General Von Tula-Koslinsky em seu telefone de campo. -Você pretende, Ferleberg, que um regimento inteiro seja bloqueado na estrada Roslavl-Starodub? Você está louco, coronel ! Starodub foi tomada há três dias, não sabe? Nossos elementos panzers avançados estão na direção de Korop e investem sobre Bakhmach, isto é, a mais de duzentos quilômetros do lugar onde você se encontra! E você quer me fazer crer...


-Eu não o tento fazer crer, meu general – replicou Ferleberg no fone negro que segurava com sua mão trêmula. -Digo-lhe que estamos bloqueados nesta estrada, desde a aurora, a uns quarenta quilômetros de Roslavl. E peço-lhe, respeitosamente, o favor de encaminhar reforços, se possível carros e pelos menos duas seções de artilharia leve...


-Estou feliz por não me pedir as peças pesadas! - gritou o general. - E um apoio de Stukas, talvez, que diz? O quê?


-Eu digo, meu general, que isto não nos faria mal! - repetiu Ferleberg com uma voz rouca. -Temos uma centena de mortos, o dobro de feridos, a metade de nossos caminhões destruída. Ganhei aos outros os limites dos bosques e dois batalhões de marcha tomaram posição. Mas estamos cercados por todos os lados, sem falar dos atiradores isolados...


-Isto é derrotismo, Ferleberg! - rugiu o general. - Entende? Derrotismo! Os russos foram batidos, em plena retirada, em plena volta! Eles se rendem aos milhares, por centenas de milhares! Todas as nossas operações se desenrolam impecavelmente, sem um embaraço. E seria preciso que seu regimento... Escute, Ferleberg! Ordeno-lhe, imperativamente, fazer movimento sobre …


Interrompeu-se a voz brutal. O Coronel Von Ferleberg ouviu vagos murmúrios, algumas eclosões de voz. Enxugou com a mãe esquerda o suor que lhe escorria sobre as faces.

[…]


Foi incrível o que se seguiu ao aparecimento dos T-34. Quatro baterias de anticarros 37, rapidamente instalados nos campos de um lado e de outro da estrada e que até então atiravam na direção do bosque, fizeram uma conversão de 45 graus e abriram fogo sobre os monstros cuja silhueta maciça se perfilava nitidamente no cume do monte. Ferleberg deu uma batida de língua satisfeito ao ver a precisão do tiro dos anticarros. Depois lançou uma imprecação inominável. O que se passava ali, sob seus olhos, vinha da feitiçaria: os obuses dos anticarros atingiam o objetivo... mas espirravam, sem mesmo ter ferido a enorme carapaça! Enquanto isso, os T-34 cuspiam o inferno, e acabavam de liquidar o que restava de veículos na estrada. O único dos caminhões-cisterna, que se apressava, com dificuldade, a ganhar o abrigo muito relativamente protetor do bosque que a primeira companhia de marcha tomara de assalto, foi batido por um tiro direto. Houve um estalo delirante, uma deflagração ardente, e uma flama de cinquenta metros de altura jorrou no céu, avermelhando-o. Foi então que o Coronel Von Ferleberg decidiu-se a chamar o PC de Divisão, do buraco arenoso que lhe cavaram com toda a pressa, a cinquenta metros da estrada.”


“Avançando lentamente na cavidade onde flutuava um pesado odor de essência e carnes carbonizadas, Kreuzfeld tentou se lembrar do pouco que ele sabia dos T-34: canhões de 76, blindagem impenetrável aos 50 e mesmo aos 75 curtos do carros IV alemães; um único ponto fraco: a almofada atrás, abaixo do motor... mas precisava chegar até a almofada de trás!


À esquerda da estrada, o campo de centeio formava uma cavidade que se achava no ângulo morto dos T-34, mas estava, ao contrário, diretamente exposta ao fogo dos atiradores russos enfronhados no bosque. À direita, nada de atiradores, sem dúvida, mas uma planície, chata como a mão, sem uma árvore, sem uma sarça. Eles souberam escolher a posição, pensou Kreuzfeld. Dizer que eram obrigados a se render em massa à primeira cruz gamada...”



“Steyrling examinou apressadamente seu mapa, protegendo-o tão bem quanto mal sob um pedaço de sua lona de barraca. A três quilômetros do rio, a estrada fazia uma curva brusca para o sul e atravessava uma região pantanosa. O lugar-tenente fez uma careta: se, além do atoleiro em que já patinhavam, caminhavam para um verdadeiro lodaçal, o material não passaria nunca, sem falar dos homens! Por outro lado, se pudessem atingir a aldeia de Kletnya, desembocariam na estrada de ferro que levava a Zhukovka, onde se encontrava o novo QG de divisão.


Por que, aliás, tinha sido ele subitamente deslocado? Por que a marcha do regimento para o sul, prevista na direção de Mglin e de Unecha, tinha sido bruscamente desviada para o leste? Por que as ligações com estas duas últimas cidades tinham sido cortadas? Deveriam existir razões para isto, seguramente, razões fortes. O que não impedia que o próprio comando supremo, com suas ordens, suas contra-ordens, suas mudanças de humor e seus súbitos silêncios, parecesse atacado da mesma doença que solapava há algum tempo o moral do exército. Ou talvez ele próprio estivesse diante de dificuldades idênticas … Talvez o QG de divisão tivesse sido subitamente atacado por estes grupos esparsos que surgiam do fundo das florestas, muito tempo depois da rendição das divisões russas as quais deveriam pertencer... Não se dizia que o próprio General Guderian tinha diversas vezes encontrado dificuldades ao atravessar, em seu carro blindado, regiões ditas 'pacificadas'?”

pp. 11-13; 15; 31



trad. Carlos de Oliveira / Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 1965.


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